quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O guardião das verdades



Essa é uma daquelas histórias que poderia começar com o famoso “era uma vez”. Mas como tudo que era acabou, não posso usar o termo, pois essa é uma história que não teve fim.
Todos os dias o via passar, tinha medo dele. Mal vestido, mal cheiroso, murmurando coisas que não podíamos entender. Não, não parecia mesmo gente. Parecia algo que tinha sobrado de alguém que ninguém poderia mais identificar quem era. O homem era negro, de um tom de pele que reluzia de tão escuro e contrastava com o preto desbotado de suas roupas. Tinha um chapéu estranho, que devia ter sido grande e chamativo um dia, mas que hoje era deformado, com as abas caídas que só serviam mesmo pra esconder parte daquele semblante estranho.
As pessoas que o viam na rua o ignoravam. Aliás, não o viam. E eu, não entendia como ninguém via aquela figura nada discreta. Desculpem-me, não posso mentir. Viam-no sim. Quando ele parava em alguma porta pra pedir comida. Geralmente lhe davam. E assim, o tempo passou e me acostumei com ele. E o maior inimigo do medo é o costume. Passei então a observá-lo nos detalhes. Os chinelos rasgados, os pés mais negros que todo o resto do corpo, o olho cego. Reparei também no saco que carregava, uma trouxa dessas de pano, como a dos retirantes da televisão. Ele defendia aquela trouxa de pano, não largava dela para comer e a levava para todos os cantos.
O homem andava por toda redondeza do bairro, em todas as direções, sem parada certa. Segui-o por duas ou três vezes, mas parei no meio do caminho, pois não chegava a lugar nenhum. Certo dia ele estava parado embaixo de uma árvore, descansando sob a sombra, bebendo água em uma garrafinha que alguém, sensibilizado pelo calor, lhe deu. Embaixo do braço um cabo que tinha a trouxa de pano pendurada. Em segundos passou na minha mente muitas formas de puxar assunto. Oferecer comida, perguntar o nome e até aquele medíocre comentário sobre uma possível chuva, passaram no meu pensamento. Mas, como nunca fui boa de pensar diante de situações decisivas, deixei de lado o meio termo e fui direta: “O que tem nessa trouxa?”. Ele levantou a aba do chapéu e foi levantando o rosto, numa velocidade apavorante de tão lenta. Quase corri. Mas a curiosidade era maior. Mas e sem fossem meias? Ia valer a pena correr o risco de me aproximar por meias? Até que fossem umas canecas...Mas não, canecas fariam barulho. E meias não fariam tanto volume. Quando ia mirabolar outra hipótese ele respondeu com a voz grave e firme: “A verdade.” Não entendi.Menos de um segundo depois perguntei que verdade. “Todas”. Ele me respondeu e começou a rir. Uma risada que não tinha som. Uma gargalhada, mas que não fazia nenhum barulho. Um cachorro parou perto e começou a latir pro homem, que ria muito, e agora apontava pro cachorro. E o bicho latia e então percebi que eu não ouvia sua risada, mas o cão sim. E entendi que talvez sua risada fosse como as coisas que ele diz enquanto caminha. Ninguém ouve, ninguém entende, mas ele diz. E então conclui que ele tinha sim as verdades dentro daquela trouxa de pano. Carregava, se não todas como disse, pelo menos as mais dolorosas. Carregava o desprezo do ser humano, a discriminação, o preconceito. Carregava a dureza da vida, o medo, o frio, a fome. Carregava a dor de feridas que não cicatrizavam. Carregava a sujeira física que tinha e a sujeira moral que lhe impunham. Carregava também a compaixão dos que lhe davam algo de comer, mesmo que só quando pedisse. Carregava a falsa piedade dos que não o julgavam, mas para isso fingiam que não o viam. Carregava a dúvida das crianças que ainda não conseguiam fazê-lo invisível como os pais faziam. É um guardião e por isso não o entendemos. Por isso muitos não o vêem. Porque ele é como as verdades que carrega na trouxa. E essas verdades são mesmos difíceis de ver e de entender.
Passaram-se os anos e continua andando. A mesma feição. Nada mudou. E talvez não mude. Afinal, o guardião só muda quando o que ele defende encontra seu caminho. E o caminho das verdades é o coração de cada um. Talvez por isso ele ande tanto, é um caminho longo.