quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Ei Neguinha! Você tá discriminando!

Aproveito hoje para dizer sem meias palavras: Não encham o saco!
Não sei mais quantos argumentos históricos, teses, poesias, vídeos, seriados ou assassinatos serão necessários para convencer vocês de que não somos tratados de forma igual.Façam-me um favor..
Eu estou discriminando porque quero que nos poucos espaços que falam de nós, sejamos nós as pessoas falando? Me poupem.
Vi na TV hoje um seriado sobre afro-descendentes, apresentado por um branco. E depois umas entrevistas, apresentadas por um branco, com dois convidados: um negro e uma branca. Eventos sobre África, produzidos por brancos. Programa de pretos criado por brancos. Filme de preto, dirigido por branco. Foto de preto, tirada por branco. Música de preto cantada por branco. Roupa de preto, vendida e vestida por branco. Falar de apropriação cultural não significa dizer que pessoas não negras não possam usar nem compartilhar da cultura negra. Tentarei ser didática.
Você quer fazer um trabalho de valorização de negritude porque é contra as desigualdades raciais. E aí conta uma história que não é sua, ganha dinheiro com isso, rececebe créditos, é parabenizado... E os negros de quem você fala são simples personagens da sua obra.. Pois é minha mana e meu mano, isso é apropriação cultural. Você quer reivindicar um protagonismo na cultural, nos direitos e nos espaços dos negros, mas em nenhum momento vivenciou as dificuldades sofridas pelo racismo em seus variados aspectos, pois é caríssimos/as, isso é apropriação cultural.
Durante muito tempo ouvimos que não estávamos em alguns lugares pois não éramos qualificados. Atores brancos se pintavam de preto para fazer personagens negros, pois não haviam pretos com talento. Personagens como Gabriela, clareavam ao sair dos livros, pois não haviam atrizes qualificadas com a pele mais escura como o autor criou para interprtá-la. Seminários sobre negros tem palestrantes brancos, pois não há negros com currículo suficiente para ter o direito a fala.

Se antes isso já era mentira, hoje não há nada que possa tentar justificar. Impossível não haver em qualquer lugar, em qualquer área, em qualquer tema um negro ou negra que corresponda aos seus critérios de capacitação senhores/as. Então eu lhes sugiro procurar. Tenham a decência de procurar porque não estamos mais engolindo ver pessoas não negras ousando em falar por nós ou tentando nos representar pelas suas "boas intenções". Não estamos mais caindo nessa conversa fiada de que vocês sabem mais, entendem mais, são mais especializados ou tem mais experiência. Isso nunca foi honesto ou sincero, mas mesmo assim, entramos no seu jogo e agora também usamos suas armas para vestir nossa própria camisa.

Você vai me dizer que estou discriminando os brancos e perguntar: "Mas você acha que tudo que se refere a negros tem que ser feito e representado por negros?" SIM! Porque enquanto não houver igualdade precisamos garantir que pelo menos os poucos espaços que temos nos sejam de acesso garantido. Não queremos ser enfeite. Não queremos ser coadjuvantes. Não queremos um papel na sua trama.

Não peço desculpa aos não negros que acreditam que seus trabalhos são uma ajuda. Peço para que pensem sobre o que leva vocês a serem considerados melhores que os próprios protagonistas da história que vocês contam. Enquanto fazem suas boas ações, pessoas tão qualificadas quanto vocês e que vivem a realidade da qual vocês estão falando não conseguem ter o mesmo espaço. E vocês estão aí, legitimando a idéia leviana de que entre eles não há ninguém que possa lhes superar. Legitimando a idéia ingênua de que vocês estão aí porque merecem. Só que não senhores.

Não me proponham em hipótese alguma não assumir uma postura dicotômica. Não fomos nós que começamos essa história. E se fosse tão fácil assim de se resolver vocês não teriam metade dos privilégios que têm hoje. Ok, você não chicoteou ninguém (é absurdo, mas já ouvi esse argumento..), mas talvez só não com um chicote. Porque cada vez que ri de alguém com traços negróides, que humilha um morador de rua, que tem nojo do seu porteiro, que subestima as faveladas, que pré-determina o destino ou o caráter de um jovem negro, ou simplesmente toda vez que você ocupa um lugar, impedindo que quem faz parte daquela realidade esteja lá, você está chicoteando todos nós, negros.
Fomos colocados em lados separados sempre. E enquanto estar do seu lado significar nos mantermos conformados abaixo de vocês, permaneceremos assim.