sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sobre a nota de repúdio do MNS sobre o ocorrido no seminário sobre Fela Kuti na UERJ


Reforço que não tenho o mesmo acúmulo teórico dessas pessoas. Agora posso iniciar.
Sinto-me muito preocupada com esse posicionamento.
A questão que me preocupa meus caros é a de como para os senhores suas doutrinas teóricas os desligam da realidade.
Dizer que fazer isso ou aquilo é sucumbir ao capital é fácil. E sinto em dizer que não são os únicos a perceber isso. Sinto muitíssimo ainda em dizer que pessoas como eu, que não leram nem 1/3 do que os senhores já leram conseguem perceber e problematizar isso como uma relativa facilidade.
A questão é que enquanto o capital e todas as suas mazelas não são superadas existem vidas e pessoas. E pessoas que são mais exploradas que outras pessoas. Existem diferenças. Fico contente em ver vosso empenho para através da vossa perspectiva superar todas as formas de opressão. Mas questiono: Até lá devemos negligenciá-las?
Questiono também se "adaptar-se" e utilizar-se de certos recursos capitalistas é somente uma forma de aderir a ele, como os senhores alegam, ou não é também uma forma de sobrevivência enquanto o mesmo não é superado.
Ser financiado por empresas, por estados e por ONGs, é obviamente fazer parte da máquina capitalista. Mas gostaria de perguntar qual seria a alternativa dos senhores para não fazermos parte dela até que esse sistema seja superado. Sim, porque acredito que os senhores comprem roupas, que os senhores morem, que os senhores viagem para seus congressos, que paguem por seus estudos, que tenham carro (me desculpem a ofensa). Eu acredito por exemplo, que os senhores comam, certo?
Os senhores que se orgulham tanto do vosso senso crítico e capacidade de visão não acreditam na possibilidade de que pessoas possam utilizar-se desses artifícios sem mudar suas ideologias? Sem serem influenciadas ou manipuladas pelo capital? Entendo que o capital tem ferramentas cruéis poderosíssimas, mas se os senhores usam essas ferramentas e conseguem, por que outras pessoas não conseguiriam? Perdoem-me pois não quis ser leviana na afirmação de que usam as ferramentas do capital, mas a educação pública ainda faz parte e é instituída pelo Estado pelo que sei, bolsas de pesquisa, mestrado, doutorado, etc também. E mesmo que seja difícil aceitar, a produção literária, publicações, organizações de encontros, seminários, jornadas também passam por essa máquina, certo? Então se o dinheiro do Estado pode ser usado de uma forma crítica pelos senhores por que não poderia ser utilizados por outras pessoas para comer, por exemplo? Ou para que se organizem e tentem subsidiar a outras pessoas para conseguirem ocupar um espaço dentro da cruel máquina do capital que as permita morar e se vestir, por exemplo?
Obviamente os senhores perceberão que faço parte de uma ONG. Mas eu gostaria de contar com um voto de confiança para dizer que a partir do momento em que curso Serviço Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro compreendo-me completamente dentro de um nicho profissional criado e mantido pelo capital. Compreendo as ONGs dentro da perspectiva de transferência da responsabilidade do Estado para a sociedade civil, como instrumentos de construção de consenso, ajuda na manutenção da ordem social, etc. Eu provavelmente já tive aula com algum dos senhores ou seus amigos, ou algum professor que lhes tenha dado aula.
Talvez a maior diferença então não esteja na nossa formação acadêmica (digo no processo, pois ainda não finalizei a minha), mas sim na nossa forma de ver o mundo. Entendam sou contra qualquer tipo de romantismo em assuntos políticos. Mas sinto que o grande empasse pode estar no campo das perspectivas. Os senhores acreditam que encerrando-se o capital, encerram-se as formas de opressão, certo? Mas sabemos que o tempo histórico é algo relativo.
Vamos a uma situação bem simples. Eu sou a primeira pessoa da minha família a frequentar uma universidade pública. E a segunda a frequentar o ensino superior. Gostaria de ressaltar que a primeira pessoa não foi nenhum parente ascendente e sim uma prima, na mesma faixa etária que eu. Gostaria de lhes perguntar:
1) Eu deveria aguardar a superação do capitalismo para ingressar na universidade?
2) Eu tenho menos senso crítico ou capacidade revolucionária que os senhores por ter utilizado a política de cotas?
3) Por utilizar a política de cotas eu fui contaminada pelo capital e agora estou a serviço dele?
4) Como eu desenvolveria minha capacidade cognitiva, questionadora e meu espírito de luta sem estar no espaço da universidade, o qual eu só consegui acessar através da política de cotas?
5) Eu deveria ficar de fora do seu espaço político até a superação do capitalismo?
Reforço que não tenho o mesmo acúmulo teórico que os senhores e por isso meus questionamentos. E aí retorno a questão das perspectivas. Será que o maior entrave não está no fato de que determinadas pessoas dentro do capitalismo estão em situação de privilégio mesmo sendo contra e ele e outras não estão e por isso vislumbrem caminhos diferentes para o alcance de um mesmo objetivo?
Sim, porque não deslegitimo o vosso sentimento de um mundo justo e igualitário. Mas até lá, seria justo exigir que pessoas que não estão em um mesmo pé de igualdade tenham as mesmas prioridades? Será que devemos sacrificar vidas e oportunidades de consquistas em prol de olhar para um futuro que ainda não tem garantia de existência? Será que enquanto se luta para caminhar e superar um sistema de exploração não é possível olhar para os lados?
Entendam-me senhores, minha maior preocupação é que pessoas morrem. E se isso é culpa do capitalismo, lutar pela vida delas hoje não é também uma forma de combatê-lo? Se a exploração capitalista não atinge a todos os grupos sociais da mesma forma, tentar empoderá-los não é também uma forma de lutar contra ela?
Senhores eu gostaria muitíssimo de saber como se dá seu trabalho de base. Eu realmente não sei. Já ouvi muito sobre, mas não dos senhores. Como os senhores tentam chegar ao proletariado, ao lumpem a todas essas definições que eu vi no primeiro período da universidade? Entendam, nós (mundo acadêmico) somos uma minoria. Como os senhores dialogam com as massas? Ou será que os senhores entendem que sua produção de conhecimento e sua geração de certezas é suficientemente concreta para solucionar todos os problemas da humanidade? Haveria senhores um processo de construção social e político coletivo?

Gostaria de finalizar expressando minha preocupação claramente: Se diante de uma perspectiva teórica os senhores sentem-se tão confortáveis para dizer o que é ou não importante, quem é ou não digno de ter voz e que pensamento é ou não crítico, que garantia eu tenho de que num futuro os senhores não sejam tão opressores quanto o poder que condenam?
Desde já obrigado e todo o meu apoio ao grupos oprimidos e explorados que não tem siglas.