sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A Maldição da Mulata

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A poesia apresentada é meramente fictícia e resultado das impressões e sentimentos da autora.
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A Maldição da Mulata




Carregarás contigo para sempre a dúvida
Levarás desde pequena o peso de ser e não ser contra tua vontade
Tentarás sempre, sem êxito, ser uma ou outra e chorarás com o fracasso
Sentirás que todos são os teus, mas não pertencerás nunca de verdade a canto algum.

Te enxergarás um pouco no bem, um pouco no mal
E não poderás se levantar totalmente contra ou a favor de nenhum dos dois
Não poderás ferir o outro, sem ferir a ti mesma
Não poderás ter o inimigo fora de ti, tu não poderás o ver sem ver-te.


Sentirás a todo tempo que trai
Nunca poderás ter um único caminho
Nunca saberás o que é ser reta
Te verás um pouco de caça, um pouco de caçadora
Te verás um pouco heroína, um pouco vilã
Juntarás em ti o bem e o mal e os mostrará sempre, lado a lado, com igual peso.


Receberás os piores olhares: os de dúvida, os de certeza, os de desejo
Serás renegada, negada, calada e não poderás mesmo te defenderes diante disso
Tua única defesa será não te defender, assumir o peso que carregas e usá-lo de escudo pros teus semelhantes, que serão todos
E quanto mais o fizeres, menos saberás do que é, menos certezas terás, mais medo, mais culpa.


Carregarás contigo o peso eterno de ser meio tudo e meio nada
Serás vista, justificada, explicada, enaltecida, destruída
Sentirás dores dúbias, ódios que não poderão se concretizar, amores que não deveriam se realizar
Darás a tua vida sem saber se ao aliado ou ao inimigo
Foste roubada do teu direito de ser
Não mais poderás sofrer totalmente, viver totalmente, lutar totalmente, morrer totalmente
Serás duas. Serás metade. Serás mulata.