sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O outro lado do que Seu Jorge disse

Sinceramente, acho que precisamos pensar que o Seu Jorge falou o que grande parte das pessoas pensa. Não adianta NADA ficar só valorizando o sentimento de pertencimento à favela, glamurizando a pobreza, se ela hoje ainda cumpre o papel de segregação.

A organização da favela como instrumento para o fortalecimento de identidade cultural e empoderamento é muito importante, claro. Esse espaço como meio de fomento a memória do povo preto e a resistência é fundamental.

Mas o que nós, estudiosos e militantes (infelizmente me incluo), não podemos ignorar é que as pessoas que são oprimidas e violentadas nesses espaços têm sim a vontade de sair dele. E como seres humanos têm o direito de ter essa vontade. Ninguém tem que gostar de ser saco de pancada. Ninguém tem que viver sendo humilhado, ameaçado, passando dificuldade, tendo problemas com saneamento e ignorar tudo isso pensando no bem maior. Para a gente que está em faculdade, que está em coletivo, em movimento social, que anda para lá e para cá com roupinha estampada e falando difícil é fácil querer que as pessoas continuem na favela felizes, para gente poder ter sobre o que escrever e falar. E me desculpem pro capital também. Mas resistência e luta por direito é entender que as pessoas têm direito a resistir e lutar com seus direitos respeitados, com seu direito à vida garantido.

Eu não apoio as declarações do Seu Jorge. Mas acho ingenuidade se virar contra um cara preto como se só por ter dinheiro (agora) o discurso dele não fosse produto dessa sociedade racista que se apropria da gente contra a gente mesmo. Nós falamos tanto de racismo, de embranquecimento, de construção do imaginário social, do mito do racismo reverso, mas parece que achamos que nós negros temos uma proteção natural contra tudo isso. Nós negros, mesmo marginalizados, perseguidos e criminalizados fazemos parte dessa sociedade e consumimos e reproduzimos os pensamentos dela sim. E lembrar que nós, pelas violências que nos são impostas não temos acesso a informação e a certos espaços é fundamental.

Me preocupa muito um segurança negro que acha que o jovem negro é bandido só de olhar, mas me preocupa muitíssimo também a pessoa negra que quer julgar esse segurança como um “traidor”, como quem renega a raça, ignorando que o fato que o leva a fazer isso é uma construção racista da sociedade e é uma violência que ele faz com ele mesmo.

Repito e reforço: não sou a favor das declarações do Seu Jorge. Mas também não sou a favor de programas de TV que dizem que a favela é feliz e que todo mundo deve amar viver lá e continuar lá como se nada estivesse acontecendo, maquiando toda a estratégia de exploração que isso ainda alimenta.

Só acho que a gente pode sim criticar a fala do Seu Jorge, contextualizando isso dentro da realidade do racismo, do machismo, da organização geográfica (segregacionista e racista) e da luta de classes (pra quem gosta, por que não?). Mas dizer “quem não ajuda que não atrapalhe” é, em primeiro lugar, prepotência de achar que pode lutar sozinho com suas verdades e estratégias. E em segundo lugar fingir que não sabe que o buraco é muito, mas muito mais embaixo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

21 de janeiro - Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa

Ontem, dia 21 de janeiro foi o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa e eu não escrevi nada porque além de muito trabalho estava pensando no que dizer. Não acho que seja suficiente pedir respeito, porque todo mundo diz que respeita. Não acho que seja suficiente dizer as atrocidades que a intolerância religiosa comete, porque as pessoas choram por causa de traficante internacional e chargista racista e intolerante, mas ignoram três crianças pretas mortas em uma semana.

Mas vou tentar falar um pouco, daquele jeito que a gente já se entende..

O povo negro foi trazido escravizado da África, certo? Nesse contexto de diáspora e de todas as atrocidades envolvidas, sofremos a imposição de uma nova cultura. Isso todo mundo sabe né? Ou seja, ninguém misturou nada porque quis. Então o sincretismo religioso não é algo interessante que resulta da convivência de povos. É resultado de violência, de assassinato, de massacre e de dominação. Óbvio que foi absorvido culturalmente ao longo de séculos, mas precisamos entender que isso não é e nunca foi algo bom e desejado. Não desrespeito as crenças que advém dessas relações, acredito que a espiritualidade se dá de diversas formas e se adapta sim culturalmente, mas politicamente, a nível de identidade, sincretismo religioso é nada mais que uma estratégia racista de embranqueamento.

Segundo, precisamos entender que seu eu colocar uma cinta-liga azul-clara, asinhas e sair por aí dizendo que sou a virgem Maria no carnaval serei fortemente reprimida, posso ser agredida e até mesmo acionada legalmente (não sei bem pelo quê, mas a igreja católica dará um jeito nisso). Mas quando pessoas ridicularizam o Candomblé nada lhes acontece. Precisamos entender que o que vira piada e o que é passível de comédia é sempre o lado oprimido, vide os exemplos franceses dos últimos tempos.

Ultimamente venho observando um processo de "popularização" das religiões de matriz africana. Amplia-se a literatura, aborda-se nas artes em geral e até filmes no cinema estão previstos para esse ano. Mas não acho que esse processo esteja acontecendo de uma forma positiva. Primeiro porque antes de tudo faz-se questão de se esquecer a origem étnica dessa cultura, ou seja: de todas as formas busca-se eliminar a ligação do candomblé com o povo negro e isso acontece muitas vezes através de discurso rasos sobre a própria espiritualidade infiltrados dentro da própria religião. Quando falamos da cultura negra uma das estratégias mais comuns do racismo no Brasil é apropriar-se dos símbolos que não consegue silenciar utilizando ferramentas para desligá-los da identidade do povo preto. Dessa forma a classe dominante tira das manifestações culturais seu potencial de resistência e fortalecimento de identidade. Outro motivo pelo qual não sou a favor dessa popularização forçada é que seus representantes não veêm nenhum problema em sacrificar a história da religião para que seus produtos sejam consumidos. E isso não é conquistas de direitos, trata-se de uma desconstrução cultural, que submete tradições e as modifica para que sejam consumidas pela sociedade. E se precisamos ser modificados para nos enquadrar não estamos sendo aceitos e sim adestrados.

Quando eu, enquanto candomblecista, abian e mulher preta digo que é absurdo um vídeo com o tema a "galinha preta pintadinha" não é porque não tenho senso de humor. É porque o que está sendo ridicularizado são os meus símbolos sagrados. As pessoas estão rindo e fazendo piada da minha fé. Mas o racismo é tão sórdido e se naturaliza de uma tal forma que entre os próprios praticantes da religião suas violências não são percebidas, ou são relevadas e absorvidas. Ao longo dos tempos essa sociedade racista e patriarcal tentou impor ao Candomblé uma qualidade de subserviência e resignação que não é condizente com os ensinamentos da religião e sim com os dogmas reproduzidos nas doutrinas cristãs em geral muito utilizados nos processos de dominação.

Me desculpem, mas não temos que relevar, nem ser compreensivos. Religião não é piada, não é brincadeira. E principalmente é direito e está na constituição. Com intolerância religiosa não dá para ter meio termo, com racismo não dá para ter meio termo. Porque enquanto vocês pedem para a gente relevar pessoas são demitidas e crianças impedidas de frequentar a escola. Enquanto vocês pedem para que a gente não leve tão a sério templos são destruídos e pessoas assassinadas.

*** *** ***

Meu pai me disse uma vez, pouco antes de morrer: "Candomblé quem viu, viu. Quem não viu não vai ver mais." Eu estremeci por dentro, senti muito medo e disse que isso não ia acontecer. Meu compromisso se firmou aí.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Vamos falar de TPM

Então pessoas: TPM (tensão pré-menstrual) não é uma frescura, nem aquele período do mês em que a sua companheira fica "chata pra caraca".

TPM é algo clinicamente comprovado e explicado. E joguem no google para saber sobre essa parte porque eu não escrevo sobre biologia.Eu só queria compartilhar como mulher preta que sempre teve sérios problemas com TPM, que muito me incomoda a banalização de um quadro que é sim clínico.

Somos desde a primeira menstruação adestradas a sentir dor sem mudar nossa rotina, porque isso seria frescura. Menstruação é natural, é todo mês e por isso você não pode parar sua vida - seja nas rotinas da casa, no estudo ou no trabalho.
Nós simplesmente invisibilizamos e desmerecemos a menstruação, como fazemos com grande parte do que diz respeito às mulheres. E isso se dá de várias formas. A primeira e mais comum é inferiorizar: a menstruação é vista como algo feio, sujo, que tem que ser escondido e disfarçado, seja dizendo que se está com dor de cabeça, ou usando absorventes ninjas que prometem quase a invisibilidade. A segunda forma é tratar o tema de uma forma totalmente técnica, banalizando as particularidades físicas, psicológicas e sociais que ele envolve.

Ora meus queridXs, vocês acham que é mesmo tranquilo durante no mínimo quatro dias sangrar e ter um monte de sensaçõs diferentes que podem ser enjoo, inchaço nas pernas, no abdomen, dores de cabeça, nas pernas, sintomas de depressão, fome excessiva, ansiedade, pressão baixa, etc?
Sinto lhes decepcionar, mas não é. E não ache que a gente passa por tudo isso porque é forte ou porque o nosso corpo é preparado. Nós somos adestradas a resistir a isso tudo para poder viver dentro das regras de normalidade da sociedade. Somos coagidas a sentir dor e tocar a vida.

As mulheres modernas sofrem com a tal história do "ué, mas vocês não quiseram direitos iguais?". Isso pode ser traduzido da seguinte forma: vamos usar as suas particularidades contra vocês mas nunca vamos respeitá-las a seu favor. Ou ainda "vamos negar determinadas oportunidades a você alegando que há uma necessidade de divisão sexual do trabalho, mas nunca vamos usar essa mesma perspectiva para lhe conceder direitos". E não venha me falar que a licença maternidade já dá conta. Ela é uma conquista incr[ivel, mas só é tão "respeitada" porque serve para garantir a reprodução de mais trabalhadores, ou seja, a gente vai "parindo mão-de-obra", e eles - o pessoal do capital - querem garantir minimamente que essa mão-de-obra sobreviva, para poder trabalhar.

Saindo do mundo profissional e entrando nos relacionamentos não melhora muita coisa. Porque afinal a gente "não pode descontar nos outros". Mas os outros também não podem ver com seriedade uma questão de saúde. A sociedade não está preparada para a TPM: ou ela acha frescura, ou ela acha maluquice. Nunca me esqueço a vez que dentro do carro de um ex namorado eu, que estava na TPM, tive uma crise compulsiva de choro e o rapaz ficou tão assustado que parou o carro em um posto de gasolina e ficou do lado de fora me esperando parar, pálido. Coitado.
Mas isso acontece no universo masculino e no feminino também. Nós mulheres em geral não somos solidárias com a TPM e o período menstrual alheio, porque como eu já disse, somos adestradas a resistir e achamos que comportamentos diferentes são sinal de fraqueza. Isso não quer dizer que somos incompreensivas ou desunidas e sim que as construções sociais são fortes ao ponto de fazer com que a gente não se enxergue dentro da nossa própria realidade. Mas é claro que isso envolve também diferenças de acordo com a cor e camada social. Uma médica pode não ir trabalhar porque não se sente bem. Mas uma vendedora do Saara não tem o menor direito a passar mal se quiser pagar as contas do mês. E o colorido das bonequinhas desse exemplo a gente sabem bem como é.

E aí você me pergunta: Mas então você acha que todo mês a mulher deveria ter dispensa menstruação? ( já me perguntaram isso nestes termos...)
Olha, eu acho. Sabe por quê? Porque quem criou esse ritmo todo de vida foi essa sociedade aí: quem criou mês, carga horária, salário, folga e tudo que diz respeito a organização do trabalho foi a sociedade. Mas a sociedade não criou o aparelho reprodutor feminino. Ou seja caríssimos: nossa menstruação vem antes dessa papagaiada toda. Então o certo seria isso tudo se adaptar a gente sim! Mas eu não sou tão utópica, ainda. Por isso me conformo, por enquanto, em pedir que: por favor, não banalizem nosso período menstrual! NÃO é fácil, NÃO é frescura, NÃO é questão de autocontrole nem boa vontade. É sim uma questão de saúde. Nos deixem viver nossa menstruação da forma que for possível e melhor para nós mesmas. Se, ainda não podemos mudar leis nem contar com o apoio da maioria dos profissionais de medicina para reconhecer nossas particularidades formalmente, contar com o respeito já é de grande valia.


Não sei se fui muito clara, estou totalmente confusa aqui. Eu tenho a sensação de que tem uma bolinha de ping-pong pulando na minha cabeça e estou chorando desde que eu comecei a escrever esse texto. Além do fato de que a cólica, as pernas doloridas e o enjoo também não estão me deixando pensar direito. E também tem esse sono, porque a pressão estava 9/5 uns 40 minutos atrás.
Não, não tô usando a criatividade pra descrever isso.
Se alguém quiser comprovar pode vir me visitar, só não repara a expressão péssima, a voz rouca e por favor e obrigatoriamente : traga chocolates.

domingo, 11 de janeiro de 2015

"Deve ter um monte de piolho nessa merda de cabelo aí!"


Foi o que eu ouvi hoje, 11 de janeiro de 2015, quando subia uma rua mexendo no cabelo para arrumar os cachos ainda molhados.

Foi o que eu Monique Britto Eleotério, 24 anos, mulher, negra, militante, graduanda da UFRJ, aprovada no vestibular para duas universidade federais, artesã, dançarina, escritora, artista plástica, consultora de projetos, aprovada em dois concursos públicos, ouvi hoje.

Foi o que hoje resumiu isso tudo a absolutamente nada e simplesmente me fez chorar.

Uma indivídua gritou isso de um carro vermelho em alto e bom som no meio da rua. Ela obviamente era branca, cabelos liso com mexas loiras, presilha dourada, brincos grandes, um copo de bebida na mão e um sorriso que eu vou odiar para o resto da minha vida. Sim, vi todos os detalhes, porque além de eu ter ficado com a adrenalina de um leão diante da presa, a rua era em curva e quando comecei a xingá-la o carro reduziu a velocidade. Sim, eu respondi, xinguei, gritei, mandei ela parar o carro e voltar, mas o carro seguiu, e o sorriso dela que não foi afetado por nenhuma das minhas palavras também. Certamente se ela tivesse parado o carro eu não estaria aqui escrevendo e sim detida em alguma delegacia. Mas talvez seria melhor do que essa sensação. Do que aquela imagem de sorriso intacto indo embora sem que eu pudesse fazer nada.

Em menos de um minuto senti de novo toda a insegurança de uma vida. Lembrei dos rabos de cavalo apertados no meio da cabeça, que minha vó carinhosamente fazia e que ficavam bonitinhos. Eram a única opção de eu ficar bonitinha e impecável para a escola. Lembrei dos puxões de cabelo do primeiro relaxamento que fui fazer e da voz da cabelereira dizendo "firma a cabeça menina, força". Lembrei da minha decepção quando depois do relaxamento o cabelo secava e ainda ficava "cheio". Lembrei de quando uma parte do meu cabelo quebrou por causa da química e fiquei com uma mecha de cabelo curta bem em cima da cabeça e usava todos os dias uma faixa para disfarçar. Pelo menos podia ter faixas coloridas, uma para cada dia, todos os dias. Lembrei do casaco azul marinho com capuz que eu usava no primeiro ano do ensino médio mesmo quando estava calor porque achava que ficava mais bonita de capuz num dia de sol do que mostrando meu cabelo. Lembrei de quando fiz uma escova em casa porque não tinha dinheiro para fazer uma "escova inteligente" no salão e as meninas da turma 136 de turismo da ETEJK me humilharam falando que eu tinha feito uma escova "espertinha". Elas riram bastante. Lembrei da mulher da agência de modelos dizendo que não podia me vender porque "se pedissem uma negra eu tinha cabelo liso e claro" quando eu finalmente achava que tinha acertado no estilo, quando eu achava que aquele era o meu cabelo. Lembrei da sala de espera para entrevista técnica do concurso onde uma concorrente me perguntou se eu não tinha "medo de alguém implicar com o cabelo" e eu tive. Me lembrei também da vizinha que perguntou por que minha gengiva era preta e gritou aos quatro ventos que meu bico era ridículo. Lembrei também das meninas da escola Agras que disseram que minha mãe era minha prima, porque ela era branca e eu preta. Lembrei de quando não me deixaram dançar bata-do-feijão numa apresentação do grupo folclórico em uma igreja. Me lembrei de quando na oitava série impediram a gente de tocar atabaques numa apresentação da feira de cultura. Juro que me lembrei de tudo isso. Não nessa ordem cronólogica. E talvez tenha lembrado de mais coisa até. Mas o que eu me lembrei mesmo foi da vergonha, foi de me sentir feia e de saber que isso não ia mudar. Meu problema não era pra aparelho ou óculos como o das outras. E lembrei de como sonhava e me imagiava chegando nos lugares e todo mundo me olhando, me admirando e quem sabe até mesmo um menino apaixonado por mim. Eu pensava nisso todos os dias antes de dormir. Lembrei também que ultimamente eu não andava muito bem, voltava a brigar com o espelho e nem tirava muitas fotos.

Lembrei de tudo isso sim, nos minutos que se passaram depois, enquanto andava na rua chorando e tremendo. E ainda estou lembrando de cada sensação que eu tive em todos esses momentos.

Mas um pouco depois lembrei dos olhares das meninas pretas da escola municipal que estagiei e das do Pedro II dizendo que meu cabelo era lindo. Lembrei das tias da limpeza do shopping dizendo que eu tinha que cuidar mesmo, que isso que era cabelo bonito. Lembrei da garota do ônibus com blusa de colégio estadual que me cutucou pra falar que não podia deixar de falar que gostou do meu cabelo e que tava deixando o dela mais solto também. Lembrei da Vivi que se orgulha muito do cabelo que tem. Lembrei da mãe com a bebê e uma bonequinha preta no ponto de ônibus. Lembrei dos meninos que não me assaltaram na Rio Branco e do morador de rua que carregou na cabeça minha mala de mercadorias às 7 horas da manhã na lapa pra me ajudar. Lembrei das mulheres da marcha das mulheres negras, das irmãs do feminismo negro e das do mulherismo também porque muitas me inspiram e me motivam. Lembrei da filha que eu vou ter e do menino que pode vir.

Lembrei de um príncipe que brigou com o taxista racista, de outro príncipe que venceu a morte pra ser um rei no samba, de um que venceu a discriminação para ser um dos príncipes mais lindos, de um príncipe herói que salva meninas presas e meninos perdidos, de um príncipe que venceu por ele mesmo e deu a volta por cima. Lembrei de um também que ainda está caminhando, mas que não tem como fugir de uma das mais nobres realezas.

E então comecei a lembrar das pessoas me chamando de chata, exagerada, cismada que tudo é racismo. Das pessoas me dizendo que "é só brincadeira", que eu deveria levar mais na esportiva. Lembrei dos comunistas que acham que existem causas maiores e das feministas que acham que isso não tem nada a ver.

Parei de lembrar e senti. Senti ódio. Desejei que o carro batesse e ela morresse. E só mudei de idéia porque queria que ela tivesse tempo pra lembrar de mim antes. Eu não perdôo e nem perdoarei. Eu não vou esfriar a cabeça.

Eu choro uma noite e continuo preta por dentro. Eu volto pro trabalho legal, pra faculdade bacana, pros amigos inteligentes. Mas outras não teriam esses refúgios. E meu ódio maior foi porque eu pensei que se fosse com outra mulher podia abrir ferida na alma. Eu já tô com aquela pele de casca de machucado: quando bate dói, mas não sangra mais, não infecciona e uma hora sara. Comigo já não mata.
Lembrei agora de novo daquele sorriso. Eu nunca vou esquecer. Aliás, eu não esqueci de nenhum de vocês.


Sinceramente agradeço. Graças a vocês serei assistente social, mestre, doutura, diplomata e artista. Graças a vocês não deixarei de sambar, de compor, de escrever, de atuar, de pintar, de dar aulas. Graças a vocês eu tenho mais força do que todos vocês juntos, para mim e para as outras e os outros e xs outrxs.

Sinceramente, obrigada, vocês definitivamente criaram um monstro.

Carta para Babi (1)

Rio de Janeiro, 11 de Janeiro de 2015.


Começo justificando o porquê de Babi, já que nunca te chamei por esse apelido: sempre li que os escritores famosos usavam pseudônimos e se correspondiam assim também. Não somos ainda escritoras famosas, mas um dia nós seremos e quem sabe quem vai ler essa carta, é preciso imponência.
Descobri recentemente que existem dois tipos diferentes de pessoas: as que têm objetivos e as que têm sonhos. Não acho nenhuma melhor do que a outra, cada um sabe o que lhe convém e o que lhe faz bem. Eu posso falar pelo segundo tipo apenas.
As pessoas que têm sonhos passam grandes dificuldades na vida, pois sonho, mesmo que compartilhado se sonha sozinho. O sonho é um não-sei-o-quê que fica dentro da gente igual uma bolinha de tênis. Às vezes ele fica parado, às vezes ele fica rolando de um lado pro outro devagar, às vezes ele quica descontrolado e bate em tudo que é parte de dentro do nosso corpo. Mas a maior verdade é que mesmo que a gente finja que desistiu dele, ele não sai de lá.
Já quis ser veterinária, bombeira, bailarina, executiva, professora. Sonhei essas coisas uma vez e de vez em quando elas aparecem num imaginar distraído. Se sonhou, está sonhado, o que se pode fazer é encontrar sonhos maiores e mais completos que vão deixar os outros descansarem em um cantinho da gente, tranquilamente, sem frustração. O problema é quando queremos parar de sonhar só por parar. Aí a vaca vai pro brejo. Porque aí os sonhos não ficam tranqüilos, ficam parados contra a vontade em um canto e começam a juntar uma poeira que dá alergia na gente. E o coração começa a fingir que não sonhou aquele sonho como remédio para essa alergia. E todo mundo sabe que remédio para alergia dá sono. E a alma com sono diminui o ritmo, distrai, não vai além.
Como eu já disse pessoas que sonham passam grandes dificuldades. E as outras pessoas são a maior delas. Existem as pessoas diretas que simplesmente dizem “você não conseguir” ou “isso é bobeira”, e dessas é mais fácil se defender. Existem as pessoas transversais aquelas que supostamente entendem seus sonhos, mas que usam uma série de argumentos racionais (ou não) para te convencer de que eles “não são possíveis”, “não são pé no chão”, “não funcionam na realidade” ou “não são pra gente como você”. Por fim, existem as pessoas invertidas, que são as que aparentemente apóiam seu sonho, mas não dão nenhum apoio para que você continue com ele, pelo contrário, disfarçadamente tentam ir te empurrando na direção contrária.
Entenda querida que não acho que algum dos casos que citei esteja ligado obrigatoriamente a más intenções. Acredito até mesmo que em via de regra são fruto da distração que envolve a preocupação entre pessoas que se gostam. Porque o gostar tem desses descaminhos, dessas curvas que podiam ser retas e que a gente paga pedágio sem saber porquê. O que eu digo é que a maioria das pessoas não vai apostar no seu sonho e que nenhuma delas vai sonhar com ou por você. Sonhar é sim uma tarefa individual. Mas não afaste-se delas, não de todas, a não ser que queira. Apenas entender que seus sonhos são só seus já lhe dará mais tranqüilidade para depender menos do apoio dos outros. Digo menos, porque não depender minimamente seria um grau de evolução demorado e até meio triste na minha opinião. Depender menos do apoio significa dizer um “não vou, tenho que estudar” sem medo de perder as amizades. Significa dizer um “não posso, preciso economizar” sem medo de perder o respeito”. Significa dizer “não gosto, obrigado” sem medo de perder uma suposta oportunidade. Sonhos exigem dedicação e coragem. E isso também ninguém poderá te ajudar a conseguir.
Entenda minha flor, que só mostro essa cara individual dos sonhos para que possamos pensar no bem do coletivo. Porque se todos puderem sonhar seus sonhos individuais dos seus jeitos poderão até pensar em construir sonhos coletivos (olha que incrível!). Só não podemos nos iludir achando que podemos passar aos coletivos antes. Os sonhos coletivos são aparentemente mais fáceis: divide-se tarefas, dores, tem-se o apoio ao menos de quem está “sonhando junto”. Mas lembre-se do que eu já disse: ninguém sonha igual e o sonho está dentre da gente. Um sonho coletivo não é então um sonho, mas um conjunto de pessoas sonhando sonhos que se parecem e que se complementam. E esses sonhos para se complementar precisam estar completos, não no sentido de acabados óbvio, mas no sentido de serem peças de quebra-cabeça bem desenhadas.
Portanto e somente, venho te dizer minha cara que você pode e deve permanecer entre as pessoas que sonham e que deve descobrir sozinha todas essas coisas que eu falei. Como disse, ninguém pode fazer por você, muito menos eu. Proponho então que sonhemos nossos sonhos, não juntas, mas lado a lado. E que tenhamos muitíssimo cuidado para que o mundo não nos distraia e nos torne diretas, transversais e nem invertidas. Sonhemos intensamente, completamente, descontroladamente. Mas sempre sonhemos, sempre.

P.s.: Você nunca me disse um pseudônimo, portanto improvisei um, mas me avise se o manterá ou não que mudo nas próximas.

Atenciosamente,

Edinéia Silva.

Liberdade de expressão ou de opressão?

Desde que comecei minha militância contra o racismo, a intolerância religiosa e o machismo ouço muito sobre liberdade de expressão.
A liberdade de expressão para algumas camadas da sociedade é igual caviar: "nunca vi nem comi, eu só ouço falar". (PAGODINHO, 2002)
O que quero lembrar meus caros é que no mundo em que eu vivo trabalhadores não tem liberdade de expressão para falar com seus chefes sem risco de demissão, mulheres não tem liberdade de expressão pra responder assédio sem risco de violências, religiosos não tem liberdade de expressão pra realizar seus cultos sem risco de humilhação e agressão, negros não tem liberdade de expressão pra questionar a abordagem policial sem risco de morte.
Eu fui criada com a consciência de que certas coisas podem ser ditas em certos lugres e em certos momentos. Sabe como é, educação de pobre não é muito libertária, por uma simples questão de sobrevivência.
E ai se pra você liberdade de expressão é poder ridicularizar tudo que as outras pessoas acreditam sem receber nenhuma reação eu pergunto: se você acha que as pessoas não tem que se importar pois é apenas SUA opinião, qual diferença impor essa opinião sobre algo que não lhe diz respeito fará na sua vida? O que isso tem de fato com a sua liberdade?
Há um sério risco de você estar confundindo liberdade com opressão..
Sim porque se você se acha no direito de subjugar ou inferiorizar culturas diferentes da sua para obter privilégios (status, influência intelectual, ascensão social e poder em geral) você está tentando estabelecer relações de poder.
Me chamem de ditadora, mas eu não sou a favor dessa liberdade de expressão que serve pra humilhar e ridicularizar. Que direito alguém tem de tentar destruir os valores de mundo que outro alguém tem?
Opressão gera sofrimento e sofrimento é dor, não tem graça.
Se não for assim, porque não fazer um desenho de certos cartunistas cheio de furinhos igual a queijo em pedacinhos sendo comidos por uns caras armados rindo e dizendo "salut" no pé da Torre Eiffel?
Talvez pra quem nunca passou fome, pra quem nunca foi barrado de entrar em algum lugar, pra quem nunca foi detido pra averiguação por estar passando, pra quem nunca foi torturado por lutar por direitos básicos de vida ou pra quem nunca não pôde entrar ou sair de casa liberdade seja mesmo uma coisa meio rasa.
Talvez pra quem nunca teve vergonha do seu corpo, do seu cabelo, dos seus traços, pra quem nunca ouviu todos os amiguinhos da escola rindo de você na hora da fila, pra quem nunca foi xingado na rua por estar de branco e fios de conta, pra quem nunca náo conseguiu entender porque o mundo tentava fazer ela se sentir mal por ser quem ela era, pra quem nunca teve que ser duas vezes melhor em tudo pra justificar o merecimento de ser algo, talvez para quem não passou nada disso, uma opinião seja inofensiva.
Vamos disfarçar e fingir que não dei um toque pessoal nesse ultimo parágrafo. Só quero finalizar lembrando que opiniões fizeram povos serem dizimados e escravizados. Opiniões estupram, matam, amarram no poste, queimam corpos na calçada, tiram orgãos de crianças.
Uma pessoa é feita por suas opiniões, elas não são balõezinhos que estão fora de você flutuando e sem consequências que nem nos desenhos. Assumir a responsabilidade e gravidade do que se pensa é fundamental. Assim como aceitar que toda ação tem reação. E isso não é politicagem, é física.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

TV, juventude e relacionamentos interraciais

Venho percebendo uma nova estratégia da dramaturgia racista da TV brasileira: a representação de relacionamentos interraciais entre jovens.

Além do que já falamos sempre, como por exemplo a ausência de famílias negras nas novelas, como se negrxs se inserissem sempre individualmente nos grupos sociais ou não constituíssem núcleos familiares convencionais, percebo um crescimento de casais jovens interraciais.
Óbvio que estamos vendo um pseudo-estímulo da auto-estima da juventude negra, através da moda e da música principalmente, que são instrumentos de fácil apropriação pelo mercado, servem para construção de consenso e consequentemente auxiliam na manutenção da ordem social e do falso mito de democracia racial. Mas é preciso construir estratégias que garantam sua "neutralidade" já que esses elementos em sua essência natural têm um caráter de fortalecimento social e arrisco até a dizer revolucionário.

A juventude, de acordo com a construção social predominante que temos, representa o questionamento humano no auge de sua potência o que é um risco a qualquer tipo de dominação. Essa fase da vida contém o período de formação de caráter, absorção de informação, criação de julgamentos, amadurecimento e escolha de ponto de vistas. Isso não significa que após esse período o pensamento esteja engessado e muito menos que antes dele não haja a formação do indivíduo. A questão é que durante a juventude, de acordo com os padrões sociais vigentes, estamos no ápice do nosso processo de formação e por isso recebemos o maior número de informações e temos acesso a mais oportunidades de experiências. Ou seja, ter a juventude como público vai além de buscar um mercado consumidor: é atuar diretamente na construção do imaginário social do presente e do futuro, um investimento a curto e longo prazo. Quando se vende a jovens a idéia de que não precisam sair de suas comunidades, por exemplo, implicitamente se garante que permaneçam nesses lugares e que perpetuem a existência de uma camada da sociedade excluída e explorada nesses locais. A questão é que nesse caso a suposta valorização da auto-estima não tem como objetivo emancipar esses jovens ou contribuir para que superem as desigualdades pelas quais passam valorizando suas origens e sim fazer com que se conformem com essas desigualdades em um processo de glamurização da pobreza e da opressão.

Nesse contexto em que temos a juventude como símbolo do desenvolvimento das potencialidades humanas e do direcionamento das mesmas, podemos pensar em como os relacionamentos interraciais jovens na dramaturgia podem servir para perpetuação do racismo através de uma perspectiva de embranquecimento. Em geral esses relacionamentos quando são apresentados com o suposto objetivo de problematizar o racismo, colocam as dificuldades nos relacionamentos entre jovens brancxs e negrxs como um obstáculo a ser superado pelos negrxs através da demonstração de seu valor e merecimento. Perco a conta de quantos rapazes negros se apaixonaram por jovens brancas e tiveram que durante as tramas provar sua honestidade e ascender economicamente para poder "calar a boca" dos pais das jovens donzelas. Esse tipo de relação reforça a idéia da ascensão social dos jovens negros através do relacionamento com jovens brancas e desses relacionamentos como símbolo de valor e merecimento. No caso das jovens negras a ascensão econômica não é a principal proposta pois nesse caso além do racismo, atua o machismo que também não permite que jovens negros e jovens negras assumam o mesmo valor social. As jovens negras são então representadas como objetos de paixões incontroláveis, de beleza irrestível, numa perspectiva de encantamento, de feitiço que envolve o jovem branco e o faz assumir a dianteira na "luta" contra o preconceito. Ou seja, a jovem negra é apresentada como algo ao qual se deveria, mas não é possível resistir, um tipo de relação quase irracional, que é resultado da sexualização da mulher negra e travestido na ideia de "sorte" em conquistar um homem branco, além da meritocracia justificada nos padrões de beleza dominantes. Além dos relacionamentos interraciais reforçarem o ideal de ascensão social, há também o processo de desconstrução sócio-cultural dos jovens negrxs através da idéia de inserção destes como seres isoladxs na sociedade, que não se reconhecem e não se identificam com outrxs jovens negrxs e portanto que não se relacionam entre si. Junto a esses elementos podemos observar também a presença da instituição dos padrões de beleza, que definem claramente as características físicas dxs jovens que farão parte desses relacionamentos: quem corresponde ao padrão aceitável (com traços físicos embranquecidos) obtém relacionamentos e quem não corresponde permanece ao longo das tramas sem envolvimentos amorosos ou com tentativas amorosas cômicas e frustradas.

O intuito de observar esses elementos não é julgar a legitimidade dos sentimentos nos relacionamentos interraciais jovens e sim pensar nos processos que constroem as preferências sociais envolvidas nesses relacionamentos. Se a TV é uma das mais poderosas ferramentas na construção do imaginário social nenhum dos símbolos e representações contidos nelas são fruto do acaso ou da liberdade de mentes critivas e sensíveis. Todas as relações trazem uma simbologia que produz e reproduz os valores sociais aos quais somos submetidos. Não poderemos deixar de falar sobre os relacionamentos interraciais enquanto o racismo e o machismo continuarem sendo injetados em doses cavalares nas veias da sociedade através de todos os seus símbolos.