quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

21 de janeiro - Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa

Ontem, dia 21 de janeiro foi o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa e eu não escrevi nada porque além de muito trabalho estava pensando no que dizer. Não acho que seja suficiente pedir respeito, porque todo mundo diz que respeita. Não acho que seja suficiente dizer as atrocidades que a intolerância religiosa comete, porque as pessoas choram por causa de traficante internacional e chargista racista e intolerante, mas ignoram três crianças pretas mortas em uma semana.

Mas vou tentar falar um pouco, daquele jeito que a gente já se entende..

O povo negro foi trazido escravizado da África, certo? Nesse contexto de diáspora e de todas as atrocidades envolvidas, sofremos a imposição de uma nova cultura. Isso todo mundo sabe né? Ou seja, ninguém misturou nada porque quis. Então o sincretismo religioso não é algo interessante que resulta da convivência de povos. É resultado de violência, de assassinato, de massacre e de dominação. Óbvio que foi absorvido culturalmente ao longo de séculos, mas precisamos entender que isso não é e nunca foi algo bom e desejado. Não desrespeito as crenças que advém dessas relações, acredito que a espiritualidade se dá de diversas formas e se adapta sim culturalmente, mas politicamente, a nível de identidade, sincretismo religioso é nada mais que uma estratégia racista de embranqueamento.

Segundo, precisamos entender que seu eu colocar uma cinta-liga azul-clara, asinhas e sair por aí dizendo que sou a virgem Maria no carnaval serei fortemente reprimida, posso ser agredida e até mesmo acionada legalmente (não sei bem pelo quê, mas a igreja católica dará um jeito nisso). Mas quando pessoas ridicularizam o Candomblé nada lhes acontece. Precisamos entender que o que vira piada e o que é passível de comédia é sempre o lado oprimido, vide os exemplos franceses dos últimos tempos.

Ultimamente venho observando um processo de "popularização" das religiões de matriz africana. Amplia-se a literatura, aborda-se nas artes em geral e até filmes no cinema estão previstos para esse ano. Mas não acho que esse processo esteja acontecendo de uma forma positiva. Primeiro porque antes de tudo faz-se questão de se esquecer a origem étnica dessa cultura, ou seja: de todas as formas busca-se eliminar a ligação do candomblé com o povo negro e isso acontece muitas vezes através de discurso rasos sobre a própria espiritualidade infiltrados dentro da própria religião. Quando falamos da cultura negra uma das estratégias mais comuns do racismo no Brasil é apropriar-se dos símbolos que não consegue silenciar utilizando ferramentas para desligá-los da identidade do povo preto. Dessa forma a classe dominante tira das manifestações culturais seu potencial de resistência e fortalecimento de identidade. Outro motivo pelo qual não sou a favor dessa popularização forçada é que seus representantes não veêm nenhum problema em sacrificar a história da religião para que seus produtos sejam consumidos. E isso não é conquistas de direitos, trata-se de uma desconstrução cultural, que submete tradições e as modifica para que sejam consumidas pela sociedade. E se precisamos ser modificados para nos enquadrar não estamos sendo aceitos e sim adestrados.

Quando eu, enquanto candomblecista, abian e mulher preta digo que é absurdo um vídeo com o tema a "galinha preta pintadinha" não é porque não tenho senso de humor. É porque o que está sendo ridicularizado são os meus símbolos sagrados. As pessoas estão rindo e fazendo piada da minha fé. Mas o racismo é tão sórdido e se naturaliza de uma tal forma que entre os próprios praticantes da religião suas violências não são percebidas, ou são relevadas e absorvidas. Ao longo dos tempos essa sociedade racista e patriarcal tentou impor ao Candomblé uma qualidade de subserviência e resignação que não é condizente com os ensinamentos da religião e sim com os dogmas reproduzidos nas doutrinas cristãs em geral muito utilizados nos processos de dominação.

Me desculpem, mas não temos que relevar, nem ser compreensivos. Religião não é piada, não é brincadeira. E principalmente é direito e está na constituição. Com intolerância religiosa não dá para ter meio termo, com racismo não dá para ter meio termo. Porque enquanto vocês pedem para a gente relevar pessoas são demitidas e crianças impedidas de frequentar a escola. Enquanto vocês pedem para que a gente não leve tão a sério templos são destruídos e pessoas assassinadas.

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Meu pai me disse uma vez, pouco antes de morrer: "Candomblé quem viu, viu. Quem não viu não vai ver mais." Eu estremeci por dentro, senti muito medo e disse que isso não ia acontecer. Meu compromisso se firmou aí.