domingo, 11 de janeiro de 2015

"Deve ter um monte de piolho nessa merda de cabelo aí!"


Foi o que eu ouvi hoje, 11 de janeiro de 2015, quando subia uma rua mexendo no cabelo para arrumar os cachos ainda molhados.

Foi o que eu Monique Britto Eleotério, 24 anos, mulher, negra, militante, graduanda da UFRJ, aprovada no vestibular para duas universidade federais, artesã, dançarina, escritora, artista plástica, consultora de projetos, aprovada em dois concursos públicos, ouvi hoje.

Foi o que hoje resumiu isso tudo a absolutamente nada e simplesmente me fez chorar.

Uma indivídua gritou isso de um carro vermelho em alto e bom som no meio da rua. Ela obviamente era branca, cabelos liso com mexas loiras, presilha dourada, brincos grandes, um copo de bebida na mão e um sorriso que eu vou odiar para o resto da minha vida. Sim, vi todos os detalhes, porque além de eu ter ficado com a adrenalina de um leão diante da presa, a rua era em curva e quando comecei a xingá-la o carro reduziu a velocidade. Sim, eu respondi, xinguei, gritei, mandei ela parar o carro e voltar, mas o carro seguiu, e o sorriso dela que não foi afetado por nenhuma das minhas palavras também. Certamente se ela tivesse parado o carro eu não estaria aqui escrevendo e sim detida em alguma delegacia. Mas talvez seria melhor do que essa sensação. Do que aquela imagem de sorriso intacto indo embora sem que eu pudesse fazer nada.

Em menos de um minuto senti de novo toda a insegurança de uma vida. Lembrei dos rabos de cavalo apertados no meio da cabeça, que minha vó carinhosamente fazia e que ficavam bonitinhos. Eram a única opção de eu ficar bonitinha e impecável para a escola. Lembrei dos puxões de cabelo do primeiro relaxamento que fui fazer e da voz da cabelereira dizendo "firma a cabeça menina, força". Lembrei da minha decepção quando depois do relaxamento o cabelo secava e ainda ficava "cheio". Lembrei de quando uma parte do meu cabelo quebrou por causa da química e fiquei com uma mecha de cabelo curta bem em cima da cabeça e usava todos os dias uma faixa para disfarçar. Pelo menos podia ter faixas coloridas, uma para cada dia, todos os dias. Lembrei do casaco azul marinho com capuz que eu usava no primeiro ano do ensino médio mesmo quando estava calor porque achava que ficava mais bonita de capuz num dia de sol do que mostrando meu cabelo. Lembrei de quando fiz uma escova em casa porque não tinha dinheiro para fazer uma "escova inteligente" no salão e as meninas da turma 136 de turismo da ETEJK me humilharam falando que eu tinha feito uma escova "espertinha". Elas riram bastante. Lembrei da mulher da agência de modelos dizendo que não podia me vender porque "se pedissem uma negra eu tinha cabelo liso e claro" quando eu finalmente achava que tinha acertado no estilo, quando eu achava que aquele era o meu cabelo. Lembrei da sala de espera para entrevista técnica do concurso onde uma concorrente me perguntou se eu não tinha "medo de alguém implicar com o cabelo" e eu tive. Me lembrei também da vizinha que perguntou por que minha gengiva era preta e gritou aos quatro ventos que meu bico era ridículo. Lembrei também das meninas da escola Agras que disseram que minha mãe era minha prima, porque ela era branca e eu preta. Lembrei de quando não me deixaram dançar bata-do-feijão numa apresentação do grupo folclórico em uma igreja. Me lembrei de quando na oitava série impediram a gente de tocar atabaques numa apresentação da feira de cultura. Juro que me lembrei de tudo isso. Não nessa ordem cronólogica. E talvez tenha lembrado de mais coisa até. Mas o que eu me lembrei mesmo foi da vergonha, foi de me sentir feia e de saber que isso não ia mudar. Meu problema não era pra aparelho ou óculos como o das outras. E lembrei de como sonhava e me imagiava chegando nos lugares e todo mundo me olhando, me admirando e quem sabe até mesmo um menino apaixonado por mim. Eu pensava nisso todos os dias antes de dormir. Lembrei também que ultimamente eu não andava muito bem, voltava a brigar com o espelho e nem tirava muitas fotos.

Lembrei de tudo isso sim, nos minutos que se passaram depois, enquanto andava na rua chorando e tremendo. E ainda estou lembrando de cada sensação que eu tive em todos esses momentos.

Mas um pouco depois lembrei dos olhares das meninas pretas da escola municipal que estagiei e das do Pedro II dizendo que meu cabelo era lindo. Lembrei das tias da limpeza do shopping dizendo que eu tinha que cuidar mesmo, que isso que era cabelo bonito. Lembrei da garota do ônibus com blusa de colégio estadual que me cutucou pra falar que não podia deixar de falar que gostou do meu cabelo e que tava deixando o dela mais solto também. Lembrei da Vivi que se orgulha muito do cabelo que tem. Lembrei da mãe com a bebê e uma bonequinha preta no ponto de ônibus. Lembrei dos meninos que não me assaltaram na Rio Branco e do morador de rua que carregou na cabeça minha mala de mercadorias às 7 horas da manhã na lapa pra me ajudar. Lembrei das mulheres da marcha das mulheres negras, das irmãs do feminismo negro e das do mulherismo também porque muitas me inspiram e me motivam. Lembrei da filha que eu vou ter e do menino que pode vir.

Lembrei de um príncipe que brigou com o taxista racista, de outro príncipe que venceu a morte pra ser um rei no samba, de um que venceu a discriminação para ser um dos príncipes mais lindos, de um príncipe herói que salva meninas presas e meninos perdidos, de um príncipe que venceu por ele mesmo e deu a volta por cima. Lembrei de um também que ainda está caminhando, mas que não tem como fugir de uma das mais nobres realezas.

E então comecei a lembrar das pessoas me chamando de chata, exagerada, cismada que tudo é racismo. Das pessoas me dizendo que "é só brincadeira", que eu deveria levar mais na esportiva. Lembrei dos comunistas que acham que existem causas maiores e das feministas que acham que isso não tem nada a ver.

Parei de lembrar e senti. Senti ódio. Desejei que o carro batesse e ela morresse. E só mudei de idéia porque queria que ela tivesse tempo pra lembrar de mim antes. Eu não perdôo e nem perdoarei. Eu não vou esfriar a cabeça.

Eu choro uma noite e continuo preta por dentro. Eu volto pro trabalho legal, pra faculdade bacana, pros amigos inteligentes. Mas outras não teriam esses refúgios. E meu ódio maior foi porque eu pensei que se fosse com outra mulher podia abrir ferida na alma. Eu já tô com aquela pele de casca de machucado: quando bate dói, mas não sangra mais, não infecciona e uma hora sara. Comigo já não mata.
Lembrei agora de novo daquele sorriso. Eu nunca vou esquecer. Aliás, eu não esqueci de nenhum de vocês.


Sinceramente agradeço. Graças a vocês serei assistente social, mestre, doutura, diplomata e artista. Graças a vocês não deixarei de sambar, de compor, de escrever, de atuar, de pintar, de dar aulas. Graças a vocês eu tenho mais força do que todos vocês juntos, para mim e para as outras e os outros e xs outrxs.

Sinceramente, obrigada, vocês definitivamente criaram um monstro.