quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Branca de Neve Negra: mais uma estratégia do mito da democracia racial?

A repercussão da atuação de Cacau Protásio como Branca de Neve no desfile da Escola de Samba União da Ilha traz à tona uma importante reflexão.
Num contexto onde o racismo e os padrões de beleza destroem a autoestima de meninas e mulheres negras a escolha da atriz para representar uma princesa de contos de fadas parece uma genuína ferramenta de luta contra a opressão.
Mas é importante não cair no erro de pensar que representatividade é apenas se inserir na cultura da classe dominante. Ocupar espaços é sempre importante e preciso, porém pensar em suas conseqüências é fundamental.
A personagem Branca de Neve vive sua história em uma determinada região do mundo, retratando um povo e todo povo tem e sempre terá características físicas. O fato de ser branca por si só não torna a personagem racista. O racismo se desenvolve, por exemplo, através do consumo massificado das culturas brancas de origem européia e norte-americana que se tornam referências e padrão para a sociedade ao serem consideradas melhores que as demais.
Simplesmente colocar atrizes negras ou bonecas negras no lugar de pessoas brancas para representar personagens, originalmente brancos, pode ser perigoso ao contribuir com o processo de deslocamento de identidade cultural que já é conhecido entre as estratégias de dominação e exploração dos povos. Tornar a cor da pele um mero “detalhe” é uma das bases da construção do mito da democracia racial.
Não se trata de incentivar uma segregação entre as culturas e povos, mas sim de garantir que a identidade e cultura negra não sejam apagadas através de uma pseudo representação do povo negro em histórias que não são originárias de suas tradições.
Não precisamos nos inserir nas histórias e nas culturas hegemônicas para buscar aceitação. Precisamos valorizar a história e a cultura africana e afro-brasileira, nos sentirmos representados nelas, lutar por espaço, respeito e reconhecimento para elas.
Obviamente, enquanto não há igualdade e respeito entre as raças/etnias, esse tipo de representação é sim importante, principalmente para a autoestima das nossas crianças. Mas é preciso não perder o foco da luta por uma realidade onde todos os povos e culturas tenham suas histórias valorizadas e preservadas. Onde todas as culturas tenham seus direitos garantidos e desfrutemos de igualdade para poder escolher como vamos nos representar e com quem vamos nos identificar.