terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Passistas femininas: resistência e autoestima da mulher negra

Tenho pensado muito sobre o significado de ser passista. Por algum motivo extraordinário as pessoas ficam extremamente surpresas quando descobrem que sou passista de escola de samba. Mas apenas as pessoas que me conhecem nos espaços acadêmicos, de trabalho ou de militância, ou seja, as pessoas que me vêem expressar minhas opiniões e posicionamentos políticos. Para essas pessoas, por mais que elas não digam, ser passista contraria todos esses posicionamentos. Para essas pessoas ser passista é muito pouco ou é inapropriado para quem “tem consciência”.

Ser passista no pensamento dessas pessoas é corresponder a um estereótipo sexualizado da mulher negra, é incentivar o pensamento sexual dos turistas estrangeiros, é se exibir e se vender. E isso é um grande e grave equívoco.
As passistas surgem dentro da cultura das escolas de samba como o reconhecimento das mulheres da comunidade que melhor representam a dança do samba. Essas mulheres têm basicamente a função de defender o pavilhão de sua escola e conquistar a simpatia e admiração do público. Representar o pavilhão de uma escola significa representar toda uma comunidade, uma região e o trabalho de muitas, mas muitas pessoas. E fazemos isso através da nossa dança e dos nossos corpos. É preciso lembrar que no Brasil as concepções que temos de corpo e vestuário são embasadas por valores predominantemente europeus. Ou seja, nossos hábitos e costumes foram sim resultado de “mistura” da cultura de negros, indígenas e brancos, mas foram os valores brancos que moralizaram essa construção, por uma questão óbvia de dominação. Então, se hoje, mesmo em um calor de 40° usamos calça comprida e blusa de manga para estarmos “sociais” é pela moralidade européia que nos é imposta. Se hoje temos danças como o balé consideradas como clássicas e o funk e seus movimentos discriminados, agradeçamos a essa moralidade que hierarquiza como clássico e culto o que vem da cultura branca e como inapropriado e inferior o que vem da cultura negra.
A criminalização e a inferiorização da cultura negra sempre estiveram presentes: o próprio samba que hoje é exaltado, já foi marginalizado e criminalizado. A questão é que a resistência das manifestações culturais populares faz com a classe dominante, vendo que não pode destruí-las, passe a querer se apropriar delas. E isso aconteceu com o samba e com seus símbolos. E quando há essa apropriação outra estratégia também usada é o esvaziamento dos significados dos elementos das culturas. Ou seja, tenta-se distorcer as reais representações que aqueles elementos têm para aquela comunidade, buscando dessa forma tirar seu potencial revolucionário.
As passistas de escola de samba têm um potencial revolucionário: contra o racismo e contra o machismo também. Ser passista é o ponto alto na autoestima de muitas meninas e mulheres negras, muitas vezes o único. É o momento em que nós mulheres negras assumimos nosso posto (de direito) de referência e orgulho para nossa comunidade. É o momento em que nossas meninas mais novas nos olham e se espelham para construir sua feminilidade. É o momento em que nossos homens reconhecem a nossa beleza. Ser passista é um espaço de resistência da mulher negra.
Entendo e concordo quando Lélia Gonzalez diz que os desfiles das escolas de samba são um momento de atualização do mito da democracia racial, pois viramos princesas durante quatro dias e depois voltamos ao estereótipo de doméstica. Eles funcionariam como uma válvula de escape das tensões sociais. Mas sabemos que não fomos nós negras/os, nossos hábitos e tradições que criaram esse mito. O racismo através do mito da democracia racial se apropria de determinados aspectos culturais para dizer que há uma igualdade. Além disso, o que é preciso entender também é que não se é passista durante quatro dias e nem de dezembro a fevereiro. Quem é passista, é passista 365 dias do ano. Ser passista não é uma simples atividade que se desenvolve, é uma realidade de vida. O corpo, a mente e os sentimentos de uma passista são peculiares de uma passista. A dedicação, os relacionamentos, o trabalho, o estudo, tudo da nossa vida em algum momento e de alguma forma está ligado a essa arte que carregamos. E é orgulho dessa arte que muitas vezes nos sustenta e fortalece para enfrentarmos as violências de uma sociedade desigual. É o orgulho dessa arte que faz com que por mais que tentem fazer com que olhemos para o chão e que sejamos subalternos, continuemos olhando para cima, enfrentando preconceitos e cultivando a nossa realeza interior.
É muito difícil uma passista viver de seu samba financeiramente. Mas mesmo que em escala pequena ser passista promove mudanças nas vidas das meninas e mulheres negras. Uma simples apresentação pode fazer com que uma menina negra de comunidade circule por novos espaços da cidade e sabemos que vencer essas limitações que a precariedade de transporte e de segurança nos impõem é um passo muitíssimo importante. Pertencer a um grupo também promove grandes mudanças, visto que comprovadamente na adolescência mulheres negras sofrem muito com a dificuldade de inserção e aceitação nos grupos sociais e têm mais problemas de autoestima. Participar de um ambiente seguro, coletivo e de troca de saberes numa experiência prazerosa é também uma oportunidade diferenciada para jovens e mulheres negras que, sabemos bem, em geral não tem acesso à grande maioria das atividades culturais da cidade. Ou seja, ser passista traz oportunidades e vivências fortalecedoras para a mulher negra.
Sobre a sensualidade, bom, precisamos entender que uma das características dessa sociedade patriarcal é punir e julgar as mulheres que dispõem de seus corpos e de suas belezas como querem. O uso da sensualidade é condenado, a liberdade de expressá-la é punida violentamente. O pensamento moralista/cristão que permeia as bases do imaginário social demoniza a sensualidade e sexualidade. As mulheres negras foram sexualizadas, seus corpos animalizados, suas posturas e características gestuais ridicularizadas. Mas esse é um processo externo a nós e também é parte daquela história lá de cima de se apropriar de determinada cultura e esvaziar seus símbolos. Nesse ponto uma estratégia importantíssima de resistência é não pensar nossos corpos, nossa sensualidade e nossa sexualidade a partir dos princípios moralistas eurocêntricos. Criminalizadas e demonizadas, principalmente pela fé cristã, a beleza, a sensualidade e a sexualidade nessa sociedade patriarcal só deveriam ser usadas para a satisfação dos homens ou no processo de construção das instituições sociais aceitas (casamento, geração de filhos). Porém usar a beleza e a sensualidade sempre foi nos ensinado através do Itans da Yabás como uma estratégia memorável e eficiente de luta, além de serem características respeitadas, consideradas bênçãos fundamentais para a construção e o equilíbrio do mundo.
Repito: ser passista é um ato de resistência da mulher negra. É uma forma de nos mantermos nos espaços da nossa cultura e de nos apropriarmos das oportunidades que hoje eles oferecem. É uma forma de lutarmos para que o real significado de ser passista não se perca. É uma forma de irmos contra tudo e todos que dizem que não temos direito sobre nosso corpo, que nossa arte não é clássica e que nossa cultura não é apropriada. É uma forma de pensar nas nossas meninas pretas e seus olhares de admiração e nas nossas pretas mais velhas e seus olhares de saudade e realização.
Peço sinceramente e de coração que nunca desistamos de passar a nossa mensagem, da forma como NÓS sentimos, como NÓS aprendemos, como NÓS vivemos. Da forma como NÓS herdamos. Por mais que TVs e jornais interpretem e desconstruam. Por mais que estrangeiros “confundam”, por mais que nossos próprios homens reprovem. Peço que mantenhamos o nosso orgulho de sermos mulheres negras, representando a cultura negra, levando a bandeira de negros e pobres.
O mito da democracia racial faz com que, para a sociedade, tenhamos “quatro dias” como rainhas. E não precisamos abrir mão deles. O que precisamos é enfiar goela abaixo da sociedade nossas coroas e mantos nos outros 361 dias do ano, sem nenhum passo atrás.

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