quinta-feira, 20 de julho de 2017

Ação, reação e o peso do mundo nas nossas costas

"As forças atuam sempre em pares, para toda força de ação, existe uma força de reação."
A frase podia ser minha, ou do horóscopo de capricórnio dessa semana, mas é a terceira Lei de Newton, aquele da Física. Força, na Física também, é considerada uma interação entre dois corpos.

E porque eu, de humanas, estou me metendo a besta nessa conversa? Eu bem que gosto de física, mas na verdade estava pensando aqui sobre todo o peso do mundo que sentimos nas nossas costas de vez em quando. Sabe aqueles momentos, fases ou a vida inteira, que você se sente pressionada, amarrada, que “tem que isso ou que aquilo”? Pois é, acho que dificilmente alguém possa ser tranquila a ponto de levar o #nãosouobrigada no sentido literal pra vida.

A questão é que se as convenções da sociedade (péssima sociedade) em que vivemos nos levam a “ter que isso ou aquilo”, a gente também muitas vezes se vicia em ser obrigada à alguma coisa. Acho que muitas vezes a gente prefere dever fazer à escolher fazer. Pois a escolha nos torna totalmente responsáveis por aquele caminho. Se você precisa, se você não tem outra escolha, se você é obrigada a, por mais sufocante que isso seja, o resultado dessa atitude não é 100% seu. O fracasso vai poder ser justificado. As perdas poderão ser consideradas injustas. Você vai ter uma série de argumentos para apresentar e assim conquistar o respeito dos seus ouvintes/avaliadoras/es.

Por mais massacrante que seja o condicionamento de ações, temos um medo absurdo da liberdade. Liberdade de ir e vir, liberdade de criar, liberdade sobre nossos corpos. Por mais que a conjuntura nos imponha limites para vivenciar essas liberdades publicamente, deveríamos reaprender a não abrir mão delas ou de pelo menos do espaço que ocupam em nossas mentes.
O “eu quero” deveria poder existir independente de justificativas ou aprovações. O “eu não quero” deveria ser livre de culpas ou constrangimentos. A/o outra/o não deveria ter mais influência sobre o que sentimos do que nós mesmas.

Em seu livro Na minha Pele, Lázaro Ramos ( e eu vou citar esse livro até no meu TCC se conseguir..rss..), fala muito sobre a importância para pretas e pretos da liberdade sobre nossos corpos. Ele me fez pensar sobre como certas sensações são um reflexo dos cerceamentos que sofremos na nossa subjetividade. Por exemplo, sempre me senti meio em pânico em estar em algum local público sozinha, qualquer fosse. Nunca consegui relaxar e sentar num banco de praça pra olhar a paisagem e as pessoas. Vira e mexe estou atenta se estou “direitinha”, bem posicionada, expressão neutra, essas coisas. A gente sempre acha que tem alguém olhando. E se eu tropeçar? E se cair alguma coisa? E se eu espirrar? Conforme vou me acostumando com o local a sensação alivia, mas vez ou outra a gente dá aquela corrigida na postura, se ajeita e tal...

E o que que esse exemplo tem com o texto, com Newton e com o peso do mundo? Zoniei como sempre, mas pensa comigo: essa “tensão” de como se posicionar tem ligação direta com a necessidade de aprovação, que tem a ver com a liberdade (ou ausência dela) sobre nossos corpos. A gente não se sente real se isso não for visto e aprovado por outrem. E aí pode ser qualquer um tá?, tanto da galera clichê e padrão, quanto da galera “transgressora”.

Mas queria ir mais além e sair dessa de “a gente é assim ou assado”.
Então, se Newton diz aquela lei lá de cima, eu ja entendo que simplesmente ao existir imprimimos nossa força no mundo e aí é fato que ele vai mandar pra gente a mesma força de volta. Nããão, não estou fazendo a linha “meritocracia-mais-amor- por-favor” e dizendo que você recebe o que emana pro universo. Só quero dizer que se a gente sente o peso de tantas imposições e cobranças, de tantas tentativas de cerceamento e limitações, pode buscar a possibilidade de reagir a elas na mesma intensidade. E esse é um processo cansativo e contínuo. Mas é um processo que pode fazer a gente se entender enquanto agente das nossas vidas.
Tomar as rédeas. Assumir o controle, impor energia, devolver força, reagir. Não seguir o fluxo, mas seguir um fluxo, seu fluxo, mesmo que você não faça a menor idéia de onde ele vai te levar.
Não fui eu que disse, foi Newton. ;)

quinta-feira, 2 de março de 2017

De volta à escrita

Honestamente, estou escrevendo sem saber se vou conseguir chegar ao final desse texto. Para escrever essa primeira frase já foram idas e vindas no teclado: total falta de costume.
E é exatamente sobre isso que eu ando com vontade de falar. Impossível não me olhar hoje e perceber a diferença de dois anos atrás. A fala antes constante, implacável, dura e determinada hoje é mais um campo fértil de (re)pensamentos e ponderações, um grande espaço de considerações e certezas que podem ser, ou não.
Olho muitas outras jovens e me vejo como era um tempo atrás. Longe de orgulho, me preocupo muito. O excesso de certezas ao invés de bem me trouxe muitos problemas, muitas dores, me tomou um bom tempo. Opa! Longe de mim adotar a tendência da relativização eterna. De entrar em uma de que “nunca é bem assim”. Acho apenas que muito mais do que verdades absolutas cimentadas em nossas mentes valem valores e princípios absorvidos pela idéia e pelo espírito.
Quando comecei a olhar para as certezas tão absolutas que tinha e me testar, tentando ir mais afundo e vendo até onde eu realmente sabia o que elas significavam, fiquei chocada. Nada. Aliás, para não ser tão pessimista, um pouco mais do que nada era o que eu realmente tinha absorvido do que defendia, brigava e escrevia.
Mas ao contrário do impulso normal de buscar mais conhecimento teórico eu senti uma vontade enorme de deixar aquilo tudo pra trás e começar do zero. Construir um pensamento a partir de mim. Não me refiro a criar teorias, até porque não tenho a menor qualificação para isso. Me refiro sim, a me permitir vivenciar, sofrer, entender e refletir sobre todos os processos que me envolvem e sobre todas as possíveis respostas que me são apresentadas sobre eles. Me refiro a me permitir ser agente, personagem principal na minha consciência e na minha história.
Arrisco dizer que a maior parte das condutas que assumimos são determinadas pelo medo da crítica ou da rejeição. Como num ciclo, passamos a defender tais posturas com unhas e dentes, em um esforço de impô-las ao outro para conseguir concretizá-la em nós mesmo. Um jogo contínuo de imposição e agressividade, de relações frágeis e superficiais que não resistem a menor presença de uma divergência de ponto de vista.
Nos preocupamos tanto em dominar a “técnica” da resistência que esquecemos de nos deixar dominar pela sua essência. Tentamos dominar a nós mesmas de fora pra dentro, partindo do que nos dizem ser certo para nos construir certas. Conseguimos o feito incrível de complexificar uma existência a tal ponto que se preencha de superficialidades.
Nessa altura do texto eu já sei que minha capacidade de dar voltas ao mundo pensando foi totalmente preservada. (risos)
Mas sobre escrever novamente...sobre o que eu realmente queria falar.
Fiquei por um tempo sem escrever, e acreditava que era por pensar que não tinha conhecimento suficiente para falar sobre assunto algum. Me sentia muito menos capaz do que tantas outras, embebidas em teorias e citações impecáveis, cheias de referências e contextos históricos.
Mas percebi que assim como na escola e na faculdade meu forte nunca foram as citações. O que sempre me fez escrever foi a possibilidade de contar para alguém tudo o que eu pensava sobre alguma coisa. Foi a possibilidade de parar pra pensar sobre algo. De receber uma informação e digerí-la em palavras, usando como órgãos desse processo minhas experiências, meus sentimentos, meu conhecimento. O que sempre me fez escrever foi poder concretizar em palavras minha paixão pela capacidade mais elementar de todos os seres humanos (e não humanos na minha opinião): o pensamento.
Percebi então que na verdade não estava com medo das críticas ou “tretas” como pensei. A verdade é que não sentia a necessidade de limitar as reflexões, de definir, de fechar em linhas. Precisava de mais espaços, ir além de parágrafos, sem ter que me preocupar com erros e coesão. Precisava resgatar a liberdade do meu pensamento para voltar eu mesma a acreditar no potencial dele e assim ter vontade de novo de compartilhá-lo, sabendo que erro, acerto, mudo de idéia e sempre aprendo. Encontrei.