quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O último livro

Aos 22 anos finalmente escolhi um presente para dar para ele no dia dos pais.
Não que eu nunca tenha dado um presente, mas só quando era criança e aí não tinha dinheiro nem iniciativa para sair do comum: meia, cueca, camisa. Depois que fui crescendo não passamos dias dos pais próximos. No máximo uma ligação, uma felicitação meio sem graça, de praxe. Algo mais para dizer que eu ainda lembrava dele. Mas nada que chegasse ao ponto de dizer o quanto no fundo do meu coração gostaria que ele estivesse por perto.

Sempre gostei de ler e como não conhecia tão bem os gostos do meu pai resolvi surpreender. Na verdade eu acredito que livros sejam um presente maravilhoso, pelo menos pra mim. E dar algo que eu gostasse muito talvez tenha sido um jeito, na minha falta de jeito, de dar algo especial.
Não sabia qual escolher. Não fazia a menor ideia se ele também gostava de antropologia ou essas coisas de política como eu. Sobre Candomblé ele daria aula, não achei que nada pudesse chegar ao ponto de lhe parecer interessante. Gostaria ele dos meus assuntos de preto? Romance tenho certeza que não. Confesso que eu não entendia bem o que era romance e suas possibilidades incríveis até pouco tempo, quando li Um Defeito de Cor, e naquela época eu ligava romance a coisas chatas, que eu não gostava e ele certamente também não. Mas acima de assuntos interessantes, queria algo que ele lesse e lembrasse de mim de alguma forma. Algo que falasse da relação que quase não tínhamos vivido de pai e filha.

Comprei um livro que falava de paternidade através de diversas crônicas. Eu sempre adorei crônicas. Talvez os livros de literatura trabalhados na escola particular onde fui bolsista no primário tenham tido uma influência definitiva na minha vida. Ainda me lembro do livro de Fernando Sabino, que algumas mães acharam inapropriados, a maioria de meus colegas achou chato ou não entendeu e eu simplesmente adorei. Esse não era de crônicas, "Um corpo de Mulher". Denso, intenso, melancólico, fascinante. Lembro vagamente a história, mas lembro de todas essas conclusões que tirei por volta dos 10 ou 12 anos de idade. Bem, comprei um livro de crônicas.

Na loja pedi um papel de presente e a moça colocou um daqueles envelopes prateados com um laço. Colocou também uma etiqueta da livraria com "de" e "para". Não me lembro porque fui com pressa. Talvez porque eu tenha uma certa dificuldade com horários, talvez porque a rotina daquele mês de visitas aos finais de semana já estivesse me deixado confortável para não me programar tão bem. Cheguei no hospital no horário de visitas e tive que dividir o tempo com outros familiares. Eu sempre preferia ficar por último e acho que ele também. Com toda modéstia, a melhor parte vem sempre no final.

Entreguei o presente e quando ele abriu tive uma surpresa. Os olhos surpresos e a voz agradecida, tão sem jeito quanto a que eu herdei, me disseram que esse era um ótimo presente. Me confessou logo em seguida que não aguentava mais ganhar bonés. Eu entendo a questão dos bonés: depois de uma época meu pai sempre se manteve careca, uma careca brilhante, bem preta, perfeita. Andava muito de boné, mas não significa que precisasse ganhar sempre. Enfim, o presente foi um sucesso e eu percebi que não importava o título, mas sim que para ele livros também eram presentes maravilhosos.

Muita coisa eu refleti sobre o racismo e homens pretos através da figura do meu pai: ausente na maior parte da minha vida, mas presente de uma forma tão intensa e verdadeira durante um pequeno intervalo de tempo. Lembrei esse episódio do livro hoje, na mesma semana que perguntei pra um aluno da escola onde trabalho se ele já tinha lido Machado de Assis e ele disse que não sabia nem o que era isso. Não que eu seja das mais tradicionais e muito menos que eu tenha muita atração pelos clássicos. Mas me incomoda como nossos meninos não lêem e como não se apossam desse poder, como não se dão o direito de ocupar essa condição de leitor. Disse para uns outros alunos também como mensagem antes da formatura que lessem, mesmo que não gostassem, porque somente a leitura nos torna independentes na construção do nosso conhecimento, mesmo quando tentarem mentir para nós e nos dizer o que é certo. Espero que realmente tenham acreditado em mim.

Talvez o que tentassem fazer com meu pai muitas vezes fosse mantê-lo no estereótipo do homem negro, malandro, mulherengo e dos "desenrolos". Mas puxando na memória os breves contatos que tivemos na minha infância comecei a descobrir alguém obstinado, inteligente, ambicioso. A primeira pessoa que me apresentou um computador - e uso a senha que ele me confiou até hoje para a maioria das minhas coisas -, desenhar no Paint, que mundo incrível! Quem me ensinou a dar comida de colher para uma cabra e me disse que não podia ter medo dela. Embora hoje eu saiba que não faz o menor sentido dar comida para uma cabra de colher, trato muito bem todos os animais, os que tenho e os que convivo - E adoro os cabritos. Quem teve o orgulho de me dizer que cursou períodos de Direito e que iria terminar, assim que desse. Quem no meu primeiro dia de visitas no hospital eu encontrei com apostilas, estudando para um concurso público.

Aquele tempo no hospital me fez conhecer o homem que tinha me colocado no mundo. Meus outros 50%. Que na verdade eu preciso admitir que é muito mais do que isso. Se minha mãe formou meu caráter e me deu as condições de me desenvolver e me tornar a mulher que eu sou, meu pai, com todo o mistério da ancestralidade plantou em mim sua personalidade, sua essência. Talvez por isso a grande paixão que eu sempre tenha tido por ele, mesmo quando eu não queria ou quando eu fingia não ter.

O tempo seguinte passou muito rápido, pouco mais de um mês. Tivemos pouco encontros depois e ele me disse que estava lendo o livro e que tinha gostado. Fiquei me sentindo tão certeira quando Michael Jordan.

Coisas ruins aconteceram, pessoas ruins interferiram e eu não pude me despedir do meu pai.
Não o vi na sua última semana de vida e não sabia da sua piora. O dia que resolvi forçar uma visita e encarar a pessoa horrível que nos afastou já era tarde demais. Encontrei meu pai numa sala gelada, dentro de um saco preto, dentro de uma gaveta. Os piores 30 segundos da minha vida.

Cuidei de tudo agradecendo aos orixás por ter um emprego que me desse um seguro pra essas coisas, porque eu não teria a menor ideia do que fazer. Não me lembro bem como o livro parou nas minhas mãos. Gostaria também de não lembrar daquele saco preto, mas não consigo ter essa sorte.
Foi a única coisa dele que eu peguei e apenas guardei o livro na minha estante e durante mais de um ano não tive coragem de mexer nele.
Quando tive coragem de mexer no livro percebi que meu pai tinha tirado a etiqueta do embrulho e colado na contracapa. Ele mesmo escreveu meu nome na parte do "de" e o nome dele na parte do "para". Ainda não consigo me lembrar porque estava com tanta pressa no dia da compra a ponto de eu mesma não ter feito isso. Dentro do livro havia também uma página inicial para dedicatória com o título " Pai, por que você é importante para mim:", onde ele mesmo escreveu "Esta obra pertence a Francinei dos Santos Eleotério - 12/08/2012. P/ Monique Britto Eleotério".

Duas vezes ele escreveu que eu tinha lhe dado o livro. E ele realmente estava lendo, pois tinham panfletos dentro, página marcada.
Eu sabia que tinha acertado, mas não tinha ideia do quanto ele realmente tinha gostado daquilo. Fico imaginando se foi porque ele sabia que era a primeira vez que eu comprava algo pra ele e que por isso demonstrava me importar. Ou se era porque eu, ao contrário de muitas pessoas, o tinha enxergado como alguém que lesse, reconhecendo sua inteligência e seu gosto pelo conhecimento.
Fico pensando no quanto ele pode ter se orgulhado de ter ganho um livro da filha ao ponto de querer registrar isso, duas vezes.

Quando me senti preparada comecei a ler o livro e sinceramente não gostei. Achei chato. E acho que provavelmente ele também tenha achado. Mas talvez, da mesma forma que eu hoje, ele tenha insistido em ler porque era uma coisa entre nós.

Consegui me perdoar por não ter conseguido me despedir a tempo. Mas ainda não me perdoo por não ter escrito a dedicatória do livro. Eu provavelmente não saberia o que escrever na época, mas podia ter colocado um trecho daquela música do Exaltassamba que aprendemos juntos quando eu era criança.

Nunca deixem de escrever uma dedicatória.
































sábado, 11 de novembro de 2017

"Amor, tá levando a identidade?"


Acabei de assistir a 13ª Emenda e ia fazer um post sobre o documentário, mas o Dani foi comprar pão e tive que interromper meu raciocínio.

Sempre que meu marido sai de casa faço a mesma pergunta "tá levando a identidade?". Sei que é normal que mães digam essa frase. Principalmente mães de jovens pretas/os e pobres. Mas eu sou apenas uma companheira de 27 anos, ainda sem filhos.
Bom, você pode me dizer: você é muito maternal. Mas não se trata disso.

Durante o período de escravidão pessoas pretas precisavam de documentos concedidos por seus donos (eu prefiro o termo sequestradoras/es ou exploradoras/es) para poder andar pelas ruas sem supervisão. Após a "abolição" para não se enquadrar nos crimes de vadiagem era preciso que se apresentasse algo que equivalesse a uma carteira de trabalho. Esses são só exemplos bem superficiais de como a documentação passou a funcionar como um passe obrigatório para que nós pretas/os possamos circular nas ruas. Principalmente sob a ótica de garantir com que estejamos sempre sob controle e supervisão.

Você vai me dizer que toda pessoa hoje sai com documentos e se preocupa com isso. Mas a grande questão é que nós pretas e pretos temos um objetivo principal com isso que é não ser presa/o.

Fato, que existirá aquele jovem , negro, bem sucedido que dirá que nunca foi parado pela polícia em seu carro e aquela preta que foi bem tratada pela PM ao sair da boate da zona sul com as amigas brancas. Mas honestamente eu não tenho energia para explicar o óbvio às exceções.

Ao fazer todos os dias ao meu marido a pergunta "você está levando a identidade" eu repito para mim e para ele que ele é preto nessa sociedade racista e por isso precisa sempre tentar se proteger. Eu repito para ele também que me sinto tão ameaçada quanto ele nessa sociedade e que portanto compreendo como ele se sente. Repito para ele que somos iguais e por isso quero protegê-lo.

Quando falo da importância de valorizarmos as relações entre nós é pelo simples fato de que apenas entre nós é possível compartilhar plena e organicamente nossos sentimentos e vivências.

Você pode me dizer que qualquer mulher de outra raça pode saber que seu companheiro é preto e se preocupar com isso. Mas ela nunca poderá compartilhar seu medo e compreender sua dor. Ela nunca sentirá o nó na garganta que ter que abaixar a cabeça e falar "não senhor" para não morrer causa. Ela nunca sentirá o peso ancestral de séculos de injustiça e violência e nunca poderá ajudá-lo a carregar esse peso. Ela nunca poderá segurar sua mão e lhe ajudar a erguer os ombros para continuar caminhando, pois não é puxada pelas mesmas forças que tentam dragar sua resistência.
E o mesmo se aplica a nós, pretas, que talvez sejamos até mais sugadas energeticamente em relacionamentos com homens de outras etnias, absorvidas ao ponto de venerá-los como "redentores" impossíveis de serem julgados.

Ao refazer todos os dias a pergunta "você está levando a identidade", reafirmo meu compromisso enquanto mulher preta de construir uma relação preta de resistência nessa sociedade. Uma relação que sim, deve ter muita alegria, muito amor e bons momentos. Mas uma relação que acima de tudo deve sobreviver e resistir. Que em um futuro possamos focar apenas no amor.







terça-feira, 7 de novembro de 2017

Quando a força se torna fraqueza


Recentemente tenho pensado muito sobre os caminhos que percorri até agora. Não esse mês, não esse ano, mas ao longo de toda a vida.
Talvez já esteja entrando na depressão das festas de final de ano. Talvez só esteja mesmo fazendo um esforço pra relembrar quem eu fui, como me tornei quem eu sou agora e quem eu serei daqui a um tempo.




Bem, o fato é que me deparei pensando em uma série de grandes projetos inacabados e comecei a me perguntar o porque desses abandonos. A primeira resposta foi "Ah, porque eu sou de Áries e ariana se desapaixona com a mesma facilidade com que troca de roupa". Mas, embora uma ariana quase clássica (impedida apenas pelo meu ascendente em touro), eu não sou tão crédula em astrologia e essa resposta não foi suficiente para aquietar minha agonia.

Pensei mais um pouco e uma sensação de frustração foi tomando conta de mim e cada vez mais a pergunta "Mas por que foi que eu fiz isso" aparecia na minha mente sobre diversos assuntos e momentos diferentes. Não espere que no final desse texto eu diga que encontrei as respostas e fiquei satisfeita, porque isso não aconteceu. O que aconteceu foi que aquietei o coração e me dei conta de que se algo que é do passado não pode ser lembrado como aprendizado e abala nossa paz deve permanecer lá pelo tempo necessário até que possa ser digerido com tranquilidade pelo nosso espírito. Não vale a pena gastar tempo remoendo algo que ainda não temos maturidade e sabedoria para superar e compreender.

Mas sobre o que já posso compreender e relembrar com certa tranquilidade, uma coisa me chamou a atenção: os momentos em que minha força se tornou também minha fraqueza.
Percebi que em diversos momentos, fiz escolhas contando com uma força inabalável que eu acreditava ter. Tomei decisões acreditando que o sucesso da empreitada dependia apenas de mim, da minha dedicação, força de vontade e foco. Tentei seguir em frente muitas vezes sem olhar pra mim mesma e para as minhas limitações. Ao mesmo tempo, quando intuitivamente percebia que elas iriam se sobrepor a minha vontade eu girava o curso da vida para outro rumo, fazendo novas escolhas e buscando novas oportunidades. Contando com a mesma força inabalável e a mesma pessoa inatingível que eu acreditava ser. Um ideal de força que consistia em sempre tentar e negar qualquer possibilidade de "não conseguir", mesmo que isso significasse deixar algo inacabado pelo medo da triste realidade do fracasso vir à tona.

Um pouco confuso, eu sei. Mas o que quero dizer é que me chamou a atenção a quantidade de vezes na vida em que fui irresponsável com minhas possibilidades de fracasso. Não, isso não significa que não medi falhas e não pesei bem riscos. Isso significa que muita vezes me negligenciei enquanto pessoa que pode falhar, ou que pode não conseguir. Isso significa que não me dei tempo de vivenciar a derrota e já fui logo me embrenhando em novas tentativas e possibilidades, que pareciam mais atraentes quando as anteriores davam ares de não correr exatamente como o planejado.

E aí você pode me dizer: Mas isso é positivo, você não desanima, corre atrás.

Tive um professor que dizia que não devemos correr atrás e sim na frente (Não acho que leia esse tipo de coisa doida, mas um beijo pro senhor, Seu Luís!). E além de concordar com isso, ainda acrescento que se sempre corremos muito atrás de algo não conseguimos ver o que está adiante disso e principalmente não conseguimos simplesmente parar e observar o que está ao nosso redor.
A questão é que se nos jogamos desenfreadamente em coisas que podem dar certo, sem aguardar até que realmente deêm certo ou não, perdemos a possibilidade de saber o que nos aguarda adiante, o que realmente aquela oportunidade tem a nos oferecer.
Não se tratar de bancar o comandante do Titanic e afundar em atrássem futuro. Mas apenas de assim como as aves, sobrevoar novos horizontes sabendo que precisará pousar para fazer seu ninho.
Se trata de ir, mas ir até o final e principalmente de se dar o privilégio de fracassar algumas vezes.
Se nos achamos fortes demais ao ponto de não querer olhar nossos fracassos e dificuldades, ao ponto de não conseguir dizer "eu não consigo dessa forma" ou "eu não estou pronta para isso", nos tornamos cada vez mais frágeis.

A força forjada de fora para dentro se torna fraqueza no momento em que nos impede de olhar as fissuras de nossa alma, nos deixando assim sem ter como preenchê-las. Uma força falsa, que cansa, desmotiva, suga e enfraquece a cada nova empreitada em que não podemos falhar.

Bem, como eu disse, não achei resposta, mas o coração fica mais tranquilo e a sensação de ter coisas inacabadas menor.
Se não as completei nas devidas épocas, finalmente agora começo a dar um fim ao que me impedia de encerrá-las.
Começo a me sentir menos forte e consequentemente menos fraca para poder olhar para trás e entender o que realmente significaram, se tiveram importância, se merecem ser retomadas, se não foram nada demais, se eu realmente consegui, se não consigo, se quero ou se posso retomar algum projeto.
E se for escrever novos projetos que sejam porque os antigos não me servem mais e não porque me assustam.













terça-feira, 24 de outubro de 2017

Uma carta aos meus dezessete anos


Oi, pode parecer bem louco, mas eu sou você no futuro.
Nossa, sempre quis dizer isso para alguém. Rs

Acho que não vai soar tão louco, porque se você sou eu, nessa altura da vida já está começando a saber que nós podemos fazer muita coisa que nem imaginávamos.
Arrumar um namorado bonito por exemplo, quem diria?? Mas agora aos dezessete você tem um e ele é um fofo né? Você não vai ficar com ele, mas relaxa, essa relação vai ser ótima enquanto durar e você só vai lembrar de coisas boas - exceto no que se refere a sua sogra.
Mas eu não voltei aqui para falar de amenidades e sim sobre coisas importantes que você precisa saber. Escolhi os dezessete anos, porque desde sempre a gente achava que os 17 marcavam a melhor fase da vida: sem a obrigação de um adulto e sem as limitações de criança. Hoje a gente acha que os dezessete foram um período crucial, onde você realmente começou a fazer as escolhas que nos trouxeram até aqui.

Bem, hoje nós estamos em um lugar que você certamente não imagina. Não, você não é rica, desculpe. Não, você também não tem dois filhos e abandonou seus sonhos. Na verdade pensando agora eu acho que estamos até próximas do que você é aos 17: uma mulher que corre atrás de sucesso em todos os campos da vida. Mas ok, vou falar do que você não sabe.
Você vai precisar admitir que sim, com o tempo as experiências mudam e que você vai mudar também. É chato dizer, mas realmente você vai diminuir essa marra e vai ver que não adianta brigar com o mundo todo, porque nem sempre ele te obedece e você precisa aceitar.
Você vai se decepcionar muito com as outras pessoas, de um jeito que você ainda não imagina como dói. Mas vai decepcionar muitas pessoas também e isso também vai doer em você, mas talvez seja necessário. Você vai se decepcionar com você mesma e essa talvez seja a situação mais difícil de superar, na verdade eu acho que nós ainda não conseguimos.

Durante muito tempo você não vai entender porque as pessoas entram e saem da sua vida e vai ter a impressão de que elas não fazem questão de ficar. Você vai achar que talvez não seja interessante o suficiente, ou que não falou ou fez tudo o que podia para mantê-las por perto. Não é bem assim. Ok, você poderia ser mais doce e perder esse medo de ser meiga e parecer ridícula e frágil, mas isso por si só não mudaria os caminhos. Hoje em dia a gente já sabe que as pessoas têm papéis a cumprir nas nossas vidas e que isso envolve tempo, permanência e partida. E a partida não apaga o que deu certo, não amarga o gosto bom que a gente sentiu. Agora a gente já tem menos medo da perda, porque já passou por perdas tão difíceis e dolorosas que mesmo não deixando de sofrer, consegue lembrar que depois ainda pode respirar. E respirar alivia e torna mais leve.

Ah! Essa criatividade que você acha que é só uma coisa boba vai te ajudar nos seus piores momentos. Não, você não vai construir uma invenção revolucionária como tentava sempre que brincava de cientista e nem conseguir elaborar um mega plano pra roubar um banco, como vira e mexe você pensa ( e ainda pensamos...hahaha). Mas ela vai te dar forças pra levantar sempre que você cair. E vai te dar ânimo sempre que você se distrair. Sua criatividade vai te lembrar a pessoa maravilhosa que você é, mesmo quando insistirem em te dizer que você não tem nada de bom ou interessante.

A propósito, vão te dizer isso várias vezes.

(...)

Voltei. É, preciso te avisar que você vai sentir muita falta de tédio e rotina. Porque a rotina mais chata que você terá vai ser tão corrida que vai parecer no mínimo uma maratona. Quando a gente vira adulto o auge da liberdade pode ser simplesmente ficar dentro de casa, embaixo daquele edredom que sua mãe vai comprar daqui uns anos pra você e que você não vai dar muita bola de início, mas depois vai levar pra qualquer lugar do mundo.

Bem, voltando ao fato de não ser uma boa pessoa. Muita gente vai tentar te dizer isso. Hoje a gente não acha que é uma pessoa maravilhosa e na verdade estamos bem longe disso. Mas a gente consegue olhar pras outras pessoas e ver que elas também têm defeitos e não são tão melhores que a gente ao ponto de poderem dizer que nós somos piores do que elas. Parece complicado, mas é bem simples, vai por mim. Vai demorar um pouco, mas vai chegar uma hora que você vai ter coragem suficiente pra não deixar ninguém te convencer de que não é boa o suficiente pra conseguir o que merece. E que o quanto você merece é uma questão sua com o universo, nada que possa ser limitado por outro rélis mortal.
Pelo seu jeito turrão você não tem idéia do quanto as amizades serão importantes na sua vida. Provavelmente nenhuma das que você tem nessa fase vão se manter. Mas continuarão tendo cumprido um papel. E novas surgirão e novas vão acabar. Mas nos momentos mais difíceis em geral você terá alguém com quem falar. Mas nas vezes em que isso não acontecer, você vai sempre poder contar com você mesma. Mas isso, pra ser sincera, a gente tá aprendendo mais nos últimos tempos.

Amores. Eu bem te conheço e sei muito bem que "#loka" pra saber sobre isso. Olha, como eu posso dizer... Você é bem forte sabe. E seus amores vão te ajudar a descobrir isso. Alguns deles aliás vão tentar te enfraquecer de todas as formas, vão conseguir te levar aos seus limites, mas como eu disse, sempre que estiver muito triste você vai perceber que ainda pode respirar. E respirar alivia. Mas você vai ser muito feliz. Muito. Aquela felicidade que talvez aí pra você aos dezessete seja bem mais fácil. Sabe aquele jeito que você cai na gargalhada até a barriga ficar doendo com as próprias piadas? A gente ainda consegue fazer isso de vez em quando. As coisas do coração serão confusas mas nítidas, difíceis mas gratificantes, inexplicáveis, mas fáceis de entender o motivo com o passar do tempo. Mas a melhor coisa que estamos aprendendo, depois de muito tempo tentando, é que amores fazem parte da gente, mas que a gente é um monte de outras coisas também. A gente tá tentando a passo de formiguinha ser maior, se expandir. Então, se isso te anima, acho que estamos melhorando bastante nesse sentido.(hahaha)

Tava lembrando aqui de alguns dias que serão os piores da sua vida. Não são muitos, você realmente é uma garota de muita sorte. Mas vão ser difíceis sim. Hoje eles ainda fazem parte de nós, mas já parecem bem distantes e nós respiramos muito bem mesmo tendo passado por eles.
Você vai chorar muitas noites, muitos dias, muitas tardes e manhãs. Mas você vai rir tanto, mas tanto, que também vai chorar de tanto rir.

Nos últimos dias honestamente eu pensei muito e imaginei que se soubesse o que sei hoje não faria as mesmas escolhas, iria por caminhos melhores e mais seguros e estaria muito melhor em vários sentidos da vida. Fiquei um pouco frustrada e perguntando, "mas por que eu não pensei melhor?", "Por que eu realmente fiz as coisas dessa forma?", "Se eu seguisse o conselho de fulano...".
Foi difícil e, por mais que desanimar não seja uma possibilidade para nós hoje, eu desanimei. Pensei em quanto tempo eu perdi, em quanto atalhos desperdicei. Quantas voltas enormes eu dei para chegar até aqui, que não é nem a metade do caminho que eu gostaria de estar.

Mas falando contigo agora eu me dei conta de que fiz as escolhas que fiz porque eu era você e não eu. E se você não tomou as melhores decisões a coragem que teve pra segurar todas as consequências sempre foi fascinante. Você sempre levantou e isso é fantástico. Pode não ter sido das melhores formas, mas você sempre tentou ir em frente. Talvez com muito mais coragem por volta dos dezessete do que agora, que já temos certas experiências e vícios e escolhemos caminhos mais concretos e seguros. Acredita que a gente se importa com o que pensam a nosso respeito? Que vergonha de te contar isso. Mas prometo que vamos tentar superar esse hábito horrível, de coração.
Tava aqui lembrando a sua vontade de construir tudo, e a sensação que você tem de que o mundo tá todo ali, só esperando você fazer 18 pra poder fazer tudo o que é possível ser feito por você. Confesso que hoje a gente ainda não sabe tudo o que é possível a gente fazer. Mas a gente vem descobrindo devagar e tudo no seu tempo tem sido bom. Lembrei também do jeito que você respirava e enchia os pulmões quando tava irritada e como pensava em bater, em quebrar tudo em botar tudo abaixo quando não achava justo. Quando você defendia suas amigas de escola, quando queria lutar pelo que acreditava. Você é linda e brilhante. E mesmo que daqui uns anos todo esse ímpeto te traga coisas ruins e momentos muito difíceis, vai ser bom lembrar deles e aprender com eles principalmente.

Comecei esse texto achando que não podia perder a oportunidade de te preparar para tudo o que você vai enfrentar pela próxima década. Mas estava totalmente equivocada. Você me preparou todos esses anos. E na verdade eu estou muito orgulhosa de ter sido você. Obrigada. Acho que resume bem, porque eu não tenho muito o que dizer diante da tranquilidade que entrou no meu coração agora.
Viu, continuamos emotivas e bobonas (com o passar do tempo você vai começar a assumir mais isso em público, relaxa).
Acho que eu precisava voltar aqui, olhar você e te dizer: Bom trabalho.
Vou fazer o possível para que daqui a uma década também voltem e me digam isso, prometo.

Prometo também que volto pra falar com você, sempre que as coisas parecerem meio sem sentido.

Um beijo. Se cuida. Eu sei que vai se cuidar.


Obs: Hoje a gente prefere gato à cachorro, pizza a X-bacon e tem evitado comer pipoca com caldo knorr por causa do colesterol. A gente aprendeu a comer comida japonesa (não faz careta!) mas isso na verdade é prejuízo pro bolso. Você continua amando o disco da sua vó do Martinho da Vila e viu que não tem a menor graça em fazer academia e pegar ônibus sozinha.











quinta-feira, 20 de julho de 2017

Ação, reação e o peso do mundo nas nossas costas

"As forças atuam sempre em pares, para toda força de ação, existe uma força de reação."
A frase podia ser minha, ou do horóscopo de capricórnio dessa semana, mas é a terceira Lei de Newton, aquele da Física. Força, na Física também, é considerada uma interação entre dois corpos.

E porque eu, de humanas, estou me metendo a besta nessa conversa? Eu bem que gosto de física, mas na verdade estava pensando aqui sobre todo o peso do mundo que sentimos nas nossas costas de vez em quando. Sabe aqueles momentos, fases ou a vida inteira, que você se sente pressionada, amarrada, que “tem que isso ou que aquilo”? Pois é, acho que dificilmente alguém possa ser tranquila a ponto de levar o #nãosouobrigada no sentido literal pra vida.

A questão é que se as convenções da sociedade (péssima sociedade) em que vivemos nos levam a “ter que isso ou aquilo”, a gente também muitas vezes se vicia em ser obrigada à alguma coisa. Acho que muitas vezes a gente prefere dever fazer à escolher fazer. Pois a escolha nos torna totalmente responsáveis por aquele caminho. Se você precisa, se você não tem outra escolha, se você é obrigada a, por mais sufocante que isso seja, o resultado dessa atitude não é 100% seu. O fracasso vai poder ser justificado. As perdas poderão ser consideradas injustas. Você vai ter uma série de argumentos para apresentar e assim conquistar o respeito dos seus ouvintes/avaliadoras/es.

Por mais massacrante que seja o condicionamento de ações, temos um medo absurdo da liberdade. Liberdade de ir e vir, liberdade de criar, liberdade sobre nossos corpos. Por mais que a conjuntura nos imponha limites para vivenciar essas liberdades publicamente, deveríamos reaprender a não abrir mão delas ou de pelo menos do espaço que ocupam em nossas mentes.
O “eu quero” deveria poder existir independente de justificativas ou aprovações. O “eu não quero” deveria ser livre de culpas ou constrangimentos. A/o outra/o não deveria ter mais influência sobre o que sentimos do que nós mesmas.

Em seu livro Na minha Pele, Lázaro Ramos ( e eu vou citar esse livro até no meu TCC se conseguir..rss..), fala muito sobre a importância para pretas e pretos da liberdade sobre nossos corpos. Ele me fez pensar sobre como certas sensações são um reflexo dos cerceamentos que sofremos na nossa subjetividade. Por exemplo, sempre me senti meio em pânico em estar em algum local público sozinha, qualquer fosse. Nunca consegui relaxar e sentar num banco de praça pra olhar a paisagem e as pessoas. Vira e mexe estou atenta se estou “direitinha”, bem posicionada, expressão neutra, essas coisas. A gente sempre acha que tem alguém olhando. E se eu tropeçar? E se cair alguma coisa? E se eu espirrar? Conforme vou me acostumando com o local a sensação alivia, mas vez ou outra a gente dá aquela corrigida na postura, se ajeita e tal...

E o que que esse exemplo tem com o texto, com Newton e com o peso do mundo? Zoniei como sempre, mas pensa comigo: essa “tensão” de como se posicionar tem ligação direta com a necessidade de aprovação, que tem a ver com a liberdade (ou ausência dela) sobre nossos corpos. A gente não se sente real se isso não for visto e aprovado por outrem. E aí pode ser qualquer um tá?, tanto da galera clichê e padrão, quanto da galera “transgressora”.

Mas queria ir mais além e sair dessa de “a gente é assim ou assado”.
Então, se Newton diz aquela lei lá de cima, eu ja entendo que simplesmente ao existir imprimimos nossa força no mundo e aí é fato que ele vai mandar pra gente a mesma força de volta. Nããão, não estou fazendo a linha “meritocracia-mais-amor- por-favor” e dizendo que você recebe o que emana pro universo. Só quero dizer que se a gente sente o peso de tantas imposições e cobranças, de tantas tentativas de cerceamento e limitações, pode buscar a possibilidade de reagir a elas na mesma intensidade. E esse é um processo cansativo e contínuo. Mas é um processo que pode fazer a gente se entender enquanto agente das nossas vidas.
Tomar as rédeas. Assumir o controle, impor energia, devolver força, reagir. Não seguir o fluxo, mas seguir um fluxo, seu fluxo, mesmo que você não faça a menor idéia de onde ele vai te levar.
Não fui eu que disse, foi Newton. ;)

quinta-feira, 2 de março de 2017

De volta à escrita

Honestamente, estou escrevendo sem saber se vou conseguir chegar ao final desse texto. Para escrever essa primeira frase já foram idas e vindas no teclado: total falta de costume.
E é exatamente sobre isso que eu ando com vontade de falar. Impossível não me olhar hoje e perceber a diferença de dois anos atrás. A fala antes constante, implacável, dura e determinada hoje é mais um campo fértil de (re)pensamentos e ponderações, um grande espaço de considerações e certezas que podem ser, ou não.
Olho muitas outras jovens e me vejo como era um tempo atrás. Longe de orgulho, me preocupo muito. O excesso de certezas ao invés de bem me trouxe muitos problemas, muitas dores, me tomou um bom tempo. Opa! Longe de mim adotar a tendência da relativização eterna. De entrar em uma de que “nunca é bem assim”. Acho apenas que muito mais do que verdades absolutas cimentadas em nossas mentes valem valores e princípios absorvidos pela idéia e pelo espírito.
Quando comecei a olhar para as certezas tão absolutas que tinha e me testar, tentando ir mais afundo e vendo até onde eu realmente sabia o que elas significavam, fiquei chocada. Nada. Aliás, para não ser tão pessimista, um pouco mais do que nada era o que eu realmente tinha absorvido do que defendia, brigava e escrevia.
Mas ao contrário do impulso normal de buscar mais conhecimento teórico eu senti uma vontade enorme de deixar aquilo tudo pra trás e começar do zero. Construir um pensamento a partir de mim. Não me refiro a criar teorias, até porque não tenho a menor qualificação para isso. Me refiro sim, a me permitir vivenciar, sofrer, entender e refletir sobre todos os processos que me envolvem e sobre todas as possíveis respostas que me são apresentadas sobre eles. Me refiro a me permitir ser agente, personagem principal na minha consciência e na minha história.
Arrisco dizer que a maior parte das condutas que assumimos são determinadas pelo medo da crítica ou da rejeição. Como num ciclo, passamos a defender tais posturas com unhas e dentes, em um esforço de impô-las ao outro para conseguir concretizá-la em nós mesmo. Um jogo contínuo de imposição e agressividade, de relações frágeis e superficiais que não resistem a menor presença de uma divergência de ponto de vista.
Nos preocupamos tanto em dominar a “técnica” da resistência que esquecemos de nos deixar dominar pela sua essência. Tentamos dominar a nós mesmas de fora pra dentro, partindo do que nos dizem ser certo para nos construir certas. Conseguimos o feito incrível de complexificar uma existência a tal ponto que se preencha de superficialidades.
Nessa altura do texto eu já sei que minha capacidade de dar voltas ao mundo pensando foi totalmente preservada. (risos)
Mas sobre escrever novamente...sobre o que eu realmente queria falar.
Fiquei por um tempo sem escrever, e acreditava que era por pensar que não tinha conhecimento suficiente para falar sobre assunto algum. Me sentia muito menos capaz do que tantas outras, embebidas em teorias e citações impecáveis, cheias de referências e contextos históricos.
Mas percebi que assim como na escola e na faculdade meu forte nunca foram as citações. O que sempre me fez escrever foi a possibilidade de contar para alguém tudo o que eu pensava sobre alguma coisa. Foi a possibilidade de parar pra pensar sobre algo. De receber uma informação e digerí-la em palavras, usando como órgãos desse processo minhas experiências, meus sentimentos, meu conhecimento. O que sempre me fez escrever foi poder concretizar em palavras minha paixão pela capacidade mais elementar de todos os seres humanos (e não humanos na minha opinião): o pensamento.
Percebi então que na verdade não estava com medo das críticas ou “tretas” como pensei. A verdade é que não sentia a necessidade de limitar as reflexões, de definir, de fechar em linhas. Precisava de mais espaços, ir além de parágrafos, sem ter que me preocupar com erros e coesão. Precisava resgatar a liberdade do meu pensamento para voltar eu mesma a acreditar no potencial dele e assim ter vontade de novo de compartilhá-lo, sabendo que erro, acerto, mudo de idéia e sempre aprendo. Encontrei.