terça-feira, 13 de setembro de 2011

O livro dos sonhos

Algumas vezes, quando trabalhava no centro da cidade, optava por um caminho alternativo para voltar para casa. O ônibus desse trajeto passava pela Central do Brasil onde tem a rodoviária e depois entrava em um túnel para prosseguir sentido Avenida Brasil. É uma região pobre da cidade, com muitos vendedores e camelôs. Um lugar extremamente quente nos dias de calor e caótico nos dias de chuva. Para olhares fiéis ao senso comum, um lugar bem feio.
Não gosto de ignorar nenhuma realidade, mesmo que ela me assuste em um primeiro momento. É muito difícil, mas tento me despir das primeiras impressões e apenas observar novos ambientes. E passei a fazer isso com aquele local. Generoso e intrigante, o destino me proporcionou uma visão que não sairia da minha cabeça.
Durante uma tarde, ao usar o tal caminho alternativo, vi que na entrada do túnel havia um amontoado de coisas, panos, pedaços de papelão, uma ou duas caixas e mais algumas coisas que, de onde eu estava, não conseguia distinguir bem. Ao lado de tudo isso, com roupas compridas, mas meio esfarrapadas e uma pano envolvendo a cabeça, estava sentada uma velha (que me perdoem os politicamente corretos, mas no dicionário o contrário de novo é velho e não vejo problemas em usar o termo).
A velha, de pele bem escura e formas arredondadas que se misturavam a seus pertences, tinha em mãos algo que reluzia na entrada daquele túnel estranho: um livro. Segurava o livro com as duas mãos, quase colado no rosto e quase não se mexia. Achei aquela cena fascinante. O que ela estaria lendo? Quem estava alimentando aquela mente? Seria religioso ou um romance? Algum cotidiano de Sabino? Crônicas de Veríssimo? Poemas de Clarice? Inspirações de Xavier? Nunca soube.
Durante muito tempo passava por aquele lugar e via a velha, às vezes catando e arrumando suas coisas, mas na grande maioria das vezes devorando o livro numa postura de concentração e esforço. A mim parecia um pouco até de fé, pois aquela era uma porta que a tirava da entrada do túnel e a levava.
Em alguns momentos parei para pensar em como ela se alimentava, tomava banho, como se protegia da chuva e para onde iria se passasse mal. Mas sempre, sempre era tomada de uma curiosidade imensa de saber quem tinha o poder de tirar aquela alma da Central do Brasil e para onde a teletransportava naquelas tardes. E toda vez ver aquela cena me enchia de alegria por saber que mesmo nas piores situações e nos momentos mais difíceis ainda sonhamos.
Nunca mais vi a velha. Mas acredito que ela não morreu, ao contrário do que os céticos pensariam. Acredito que ela finalmente entrou por inteiro na sua história, se libertando dessa coisa chata que achamos que é a realidade.