domingo, 19 de abril de 2015

Racismo e subjetividade: pressões e silenciamento nas relações afetivas

Uma das formais mais sutis e cruéis de silenciamento do racismo são as pressões que nós, negras e negros sofremos dentro de nossas relações afetivas. Entendendo que pelo processo de miscigenação elencado a alienante crença do mito da democracia racial somos predominantemente inseridas/os em espaços raciais “relativamente” mistos, nossas relações afetivas são perpassadas por reproduções racistas o tempo inteiro.
Não me refiro a reproduções racistas na imagem popularmente mais violenta da expressão, mas sim nos seus aspectos mais refinados - que não significa menos cruéis.
Enquanto integrantes de núcleos familiares em geral interraciais, por exemplo, somos constantemente cobradas/os pela instituição família a abrir mão da luta por direitos em prol de laços de afetividade "superiores" as relações de desigualdade estabelecidas. Lutar e se posicionar politicamente é então percebido com um ato de traição a valores e sentimentos. Somos culpabilizadas/os por identificar o outro como ser social, que dispõe de privilégios de acordo com suas formas de inserção na sociedade, privilégios estes que não se extinguem no momento em que consideramos as relações familiares. Somos pressionadas/os a assumir sempre posicionamentos políticos subjetivos e relativizados, definindo pessoas as quais se apliquem e locais nos quais seja adequada sua exposição. Não recebemos apoio para uma luta real por direitos, porque ela implicaria dizer "você, mesmo tendo vínculos sanguíneos/afetivos comigo, não é igual a mim, dispõe de privilégios, é racista e precisa repensar e abrir mão de boa parte de seus valores".
Dentro das relações de amizade o processo se desenvolve de forma similar mesmo que não haja a existência de laços supostamente "indestrutíveis". Mas ao mesmo tempo em que não existem laços obrigatórios há uma ligação direta com a inserção em círculos sociais e portanto um papel fundamental na construção e manutenção de nossa autoestima. A rejeição por parte de amigas/amigos é um fator desestruturante na nossa construção social. E da mesma forma que nas relações familiares a cobrança por posturas relativistas que não visualizem o outro como ser social e portador de privilégios é freqüente.
As pressões que nós negras e negros sofremos dentro de relações mistas faz com que muitas vezes nos sintamos culpados por lutar por nossos direitos, traindo relacionamentos pessoais ou ferindo diretamente pessoas com quem nos relacionamos. Junto a isso, o julgamento moral, feito sob uma perspectiva falsamente igualitária, de nossas ações como desnecessárias, agressivas ou ingratas por exemplo, fundamenta uma rejeição a negras e negros que se posicionem de forma efetiva na luta contra o racismo e suas diversas formas de dominação.
Com base nessas reflexões, muito primárias sobre alguns aspectos de nossas relações pessoais, podemos entender que culpa e rejeição são fatores que passam a fazer parte constante das estratégias de silenciamento e neutralização que nós, negras e negros sofremos cotidianamente. Entender que o racismo, para além de ações pontuais constitui um sistema complexo de opressão que perpassa todos os níveis de construção social, indo dos espaços mais coletivos aos mais individuais, não é uma tarefa fácil e muito menos reconfortante, mas é fundamental para a desconstrução dos valores morais que o legitimam e reproduzem.