quarta-feira, 29 de junho de 2016

A velha e a passista

Em um tempo não muito simples de se medir se encontraram na estrada da vida uma velha e uma passista.

A primeira, carregando as marcas de todas as décadas já vividas e a segunda carregando todos as ansiedades sobre as décadas que estavam por vir.
Uma nunca havia realmente visto a outra. Olharam-se, estranharam-se, reconheceram-se totalmente como diferentes. Tanto que chegavam a ser familiares. E as estradas que eram distantes se encontraram. E começou assim uma nova história.
A jovem passista aprendia àquela época tudo que era de novo sobre seu próprio espírito. A velha perdia aos poucos tudo que a mente havia registrado ao longo da vida. Inventava. Inventavam. Uma por não saber, outra por não lembrar.
A velha que já não tinha então em quem confiar, amedrontada por seus próprios fantasmas, viu na passista uma alma nova, desconhecida, e do topo de todos os seus anos pensou “por que não arriscar?”. Afinal, se não fosse aquela jovem com quem contar diante de tantos inimigos que flutuavam em suas próprias memórias embaralhadas?
A passista que ainda não tinha nada de certo para o futuro, amedrontada por todas as suas dúvidas, viu na velha uma certeza de resistência, de existência, e mesmo com toda sua agilidade pensou “por que ir tão depressa e deixá-la pra trás?”. Afinal, se pudesse ser como aquela velha gostaria que alguém estivesse com ela, pelo menos às vezes.
A velha contava a passista suas histórias que nunca viveu, fruto de suas memórias substitutas. Permitia-lhe acesso a seus lugares, confiava seus bens de valor sentimental. Sabia que se não fosse com ela, não poderia ter tranqüilidade da presença de mais ninguém.
A passista ouvia as mentiras sinceras, compenetrada em tentar traduzir para verdade símbolos ou significados. Deixava suas urgências. Sabia que se não fosse com a velha, não poderia dedicar aquele sentimento tão desinteressado a mais ninguém.
Não necessariamente se entendiam, ou sabiam do que a outra falava. Se comunicavam. Trocavam sorrisos e olhares. E o simples fato de existir uma outra mulher presente, vivente e sensível já lhes trazia a companhia melhor do mundo.
Dançavam as duas. Cada uma em seu ritmo, cada uma em seu tempo. Mas sem dúvida era um gosto em comum. Gosto que não precisaram dizer uma a outra. Era algo bem maior do que elas para precisar ser apresentado. Talvez uma dançasse para extravasar e canalizar sua energia abundante de juventude. E talvez a outra dançasse para tentar conservar as poucas energias que ainda tinha nos músculos do corpo. Mas independente do porquê, dançavam. E quando viam-se dançando se encantavam. Se admiravam e dançavam uma para a outra, uma com a outra, sem muitas vezes nem mesmo se olharem.
Celebravam a pequena doçura de ter a paz de presenciar outra existência feminina.
Celebravam-se assim ancestrais: uma na presença da mais antiga, da que viria a ser um dia e a outra na presença da mais nova, do que já havia sido.
Ancestrais de si mesmas, futuro de si mesmas. Cominhos e recomeços de si mesmas.
Celebravam-se independentes de seus passados ou de seus futuros.
Contavam com elas para vibrar pela eternidade.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Preto pessimismo

Aos pouco volto para o mundo sem a menor vontade.
O país está um caos e a sensação de que nada pode ser feito está na cabeça e no peito da maioria de nós. Acredito que não esteja apenas naqueles que são ricos e poderosos, e portanto podem mexer seus pauzinhos e fazer algo para defender o que lhes interessa; e na cabeça daqueles idealistas, muito idealistas.
Não sei a quantas anda o cenário de movimento negro, mas quanto tento estudar sobre, mais me desanimo. Penso em que lugar vamos parar. Extremamente massacradas/os, matando uns aos outros, traçando inimigas e inimigos em nós mesmas. Consigo ver muita teoria e pouquíssima prática. Esforço para unidade, não vejo. São muitas verdades e soluções absolutas para que haja alguma possibilidade de diálogo. E se somos todas/os pretas e pretos, a menor discordância de idéias faz com isso caia por terra, enquanto a menor afinidade garante o direito de decidir pela outra ou outro.

Sei que é repetitivo, mas constato que o serviço racista branco foi muitíssimo bem feito: perdidas/os de nossas origens, sem referências culturais e sem confiança e respeito por nós mesmas/os zanzamos no mundo, nos batendo e nos odiando, tudo em nome do nosso próprio bem.

Defendemos valores e culturas que na maioria das vezes não temos mais a capacidade de praticar ou de simplesmente compreender. Nos abandonamos constantemente, nos viramos as costas, nos julgamos sem muitas vezes termos nos olhado nos olhos uma única vez. Cobramos o que não podemos dar. Esquecemos que faz parte da resistência um constante reaprendizado, um redescobrimento, processos que levam tempo e nos quais cada uma/um tem seu tempo. Sabemos todas as formas com as quais a supremacia branca nos adoece, teorizamos seus desdobramentos, mas não conseguimos reconhecer no nosso povo as deficiências imputadas e ter paciência e compreensão diante delas.

Longe de fazer qualquer análise de conjuntura esse microtexto tem a única e exclusiva função de registar: estamos mal, muitíssimo mal.
Focos e grupo se acham potentes, se intitulam referências, ressurgimentos, novas frentes. Mas estamos aos cacos, perdidas e perdidos.
E enquanto não conseguirmos olhar para os lado e realmente nos ver será daqui para pior. Continuaremos sendo usadas/os contra nós mesmas/os, sendo setoriais, massa de manobra, número no sindicato, pauta de coletivo pra garantir a diversidade. Continuaremos perpetuando através de nossas bocas outras vozes.
Reivindicamos-nos como Dandaras, Zumbis, rainhas e reis, mas não temos a mínima capacidade de compreender o significado de estratégia, aliança e resistência. Perdemos nosso faro ancestral para batalhas, nossa inteligência general.Viramos as costas para referências pretas que construíram, lutaram, escreveram. Achamos que descobrimos ontem o problema, que encontramos hoje a solução e que ninguém teve capacidade e empenho para isso antes. Sucumbimos como abelhas no criadouro, que tontas com o vapor tóxico produzem mel para outrem e o entregam sem resistência.

Aguardo os desdobramentos dos próximos capítulos dessa história sabendo que eles contém a morte de jovens pretos, de jovens pretas, de mulheres pretas, de homens pretos, de crianças pretas e de idosas e idoso pretos também. Sabendo que quando não a morte, a dor, a tristeza e o sofrimento de nosso povo estará incluído também. Sabendo que quando o simples desgosto pela vida se fará presente.

Pessimistamente preta, sigo.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Relatos da minha Ansiedade

Hoje eu queria falar sobre nossa mente, aliás sobre a minha.
Não é algo que eu goste muito de comentar, mas eu tenho/tive (recaio sei lá) transtorno de ansiedade.
Sempre fui muito pilhada com tudo, sempre quis planejar tudo, estar preparada pra não ficar triste com os resultados ruins. Em parte isso vêm de algumas dificuldades na infância que me causaram certas frustrações.

A questão é que depois de aprofundar mais meus estudos e militância preta, comecei a ter crises de ansiedade. Por ter uma rinite que não me larga, a alergia foi meu start e eu simplesmente achava que minha garganta ia fechar e eu ia morrer. A esse pensamento juntavam-se os sintomas mais comuns da crise de ansiedade: falta de ar, tremor, taquicardia, tontura, mãos geladas e principalmente medo.

Na primeira vez fui parar na UPA porque achava que ia desmaiar, que ia morrer e que estava em crise alérgica, depois de uma série de espirros - mesmo espirrar sendo parte da minha rotina. A médica me explicou que minha garganta não fecharia por esse tipo de alergia, explicou como seria caso isso acontecesse com alguém, me recomendou um alergista pra eu fazer um tratamento contínuo e me disse para ficar tranquila.
Eu não acreditei. A mente da gente é capaz de construir um laudo perfeito, de forjar sintomas, de puxar lembranças de fatos soltos e montar um quebra-cabeças que faz a resposta de uma clínica-geral parecer furada.
Seguiram dias de crise, ou melhor, noites. Às vezes com alguns intervalos, em alguns dias eu estava bem. Mas quando chegava em casa a noite e todas dormiam meus sintomas começavam. Um dia na academia tive uma queda de pressão e quase desmaiei, afinal sempre comi mal antes de ir pra academia. Mas foi mais um fato pra minha mente reforçar a idéia de que eu poderia morrer a qualquer momento. Já não podia ver cenas fortes de novelas ou séries, nada que remetesse a situações de angústia, medo ou tensão. As cenas da Grazi na cracolandia naquela minisseria da TV por exemplo já me davam falta de ar. Um ator chorando, alguma notícia sobre doença, qualquer sentimento mais tenso era absorvido por mim rapidamente.
Eu, como passista, antes das apresentações tinha que controlar o meu pânico e a idéia de que eu ia passar mal, de que eu estava sem ar, de que eu ia morrer, de que eu não podia sambar porque meu corpo não ia aguentar. Eu ficava tão nervosa que não conseguia curtir, só queria que acabasse logo.
No ônibus as vezes pensava que ia passar mal e que no meio da Avenida Brasil não ia dar tempo de ninguém me socorrer. Precisei viajar de avião a trabalho e ficar em um hotel onde as janelas não abriam e quase saí no meio da madrugada de um hotel em outra cidade, porque não conseguia respirar. A volta do avião foi um tormento e 1 hora pareceu uma eternidade de pensamentos ruins.
Quase ninguém sabia quando eu estava em crise. Na maioria das vezes ou eu estava sozinha, ou tinha vergonha de comentar, ia ter que explicar muita coisa.

Depois de um tempo, por achar que eu tinha algo marquei clínico-geral e marquei alergista.
Mas antes disso, em um dia de crise fui em uma emergência: tinha os mesmos sintomas e o medo gigante de morrer.
O clínico que me atendeu me disse: "você pode ter alergia, mas esses sintomas indicam transtorno de ansiedade.". Me indicou um psiquiatra, me explicou que não tinha nada a ver com ser maluca, me falou sobre possíveis causas. E disse para eu ir na consulta e fazer os exames que tinha marcado, pois sabia que só a palavra dele não seria suficiente para minha ansiedade.
Saí do consultório atordoada. Me senti fraca. Me senti uma mulher frouxa que não segura a onda dos problemas da vida. Sempre a menorzinha, a bonitinha, a menininha que tinha bronquite e se comportava igual a uma mocinha, depois a braba, a marrenta, a que dá nó em pingo d'água, a que corre atrás, que faz e acontece. Eu não fazia a menor idéia de onde estavam todas essas. Eu só vi uma pessoa fraca, que um médico, embora com muito cuidado e atenção, falou que tinha um transtorno. Eu fiquei com muita vergonha também.

Depois do choque da notícia, passei a perceber que realmente meus sintomas tinham hora e situações para aparecer. Percebi também que quando eu estava distraída com alguma coisa eles sumiam. Percebi que de todas as noites que eu estive em pânico com a certeza de que ia morrer eu domi, vencida pelo cansaço e acordei viva. Comecei a me desafiar a me equilibrar e foi dando um pouco certo. Mas para ficar mais tranquila eu precisava ter a certeza de que estava bem. Fiz exames e principalmente o teste da alergia, que afastou a idéia de alergias alimentares, que eram meu maior medo. Eu cismava que qualquer coisa que estava comendo poderia me dar uma reação alérgica grave, mesmo sendo coisas que eu sempre comi: abacaxi, camarão, ovo, tempero, alho. Eu parei no meio de várias refeições e joguei a comida fora por medo de acabar de comer.

Enfim, exames feitos, comecei a fazer um esforço mental enorme. A fé nos orisás também me ajudou muito. Falando de mente a parte racional e objetiva apenas não daria conta. Me afastei de certos tipos de espaços políticos e de discussões. Desisti de acreditar em certas atitudes e estratégias. Abandonei em parte minha postura de militante. Compartilhei com algumas pessoas em busca de apoio e acolhimento, mas sinceramente não encontrei muito. Acho que por ansiedade ser uma palavra normal ninguém leva muito a sério. Algumas pessoas achavam frescura, outras que era só "superar" ou "não pensar nessas coisas". Em casa eu não quis falar muito sobre, pra não preocupar ninguém. Um ex me ajudou em certos momentos, mas quando se separa tudo se acaba e certos relacionamentos acabam se tornando pontos de fragilidade e tensão que levam justamente à.....ansiedade. Duas grandes amigas me ouviam e se preocupavam, mas nem sempre eu tinha vontade de compartilhar, de pedir ajuda ou de falar "Estou passando mal, será que você pode conversar comigo?". Dava vergonha.

Enfim, a trancos e barrancos melhorei muito. Melhorei minha alimentação, mudei certos hábitos e posturas, passei a desenhar mais, voltei a compor e cantar, cantar muito. Passo dias sem me ligar nisso, sem ter pensamentos assustadores. Mas as vezes, em épocas de muito stress ou tristeza minha ansiedade sai do controle de novo.
Agora é muito mais fácil me controlar e superar os sintomas. Mas ainda é um exercício.
Nos últimos dias trabalhei muito, estou com muitas preocupações, lembranças, expectativas. O dia foi difícil, cansativo, corrido. Agora a noite fui comer e novamente os sintomas vieram a tona. Já no preparo pensei "mas e se me der alergia". E me respondi "mas você não tem alergia a isso. Aliás vc comeu anteontem, lembra?". E aí fiz a comida, comi e no final do prato cocei a mão. Rapidamente pensei numa reação alérgica e senti algo na garganta. O medo voltou..Tremor, suor frio. E todo o exercício recomeça: observar que tudo o que estou sentindo se deve a minha reação de pânico. Me acalmar para que passe. Apelar pros resultados de exames, pra saúde que tá em dia. Olhar pra mim e assumir que estou cansada, que fico triste, que estou com medo de um monte de coisas e na expectativa de um monte de outras coisas.

Eu sei que esse texto ficou enorme e que não tem nenhuma graça, nem nenhuma teoria diferente, nem nenhuma opinião sobre nada. Mas hoje, eu resolvi tentar mais uma coisa pra me ajudar a controlar meus sintomas. Ao longo desses meses resolvi não procurar um psiquiatra, mas buscar outros aconselhamentos e terapias (Não quero induzir ninguém a fazer o mesmo, é uma decisão delicada, que precisa ser acompanhada e muito avaliada, cuidem-se!). Estou me experimentando, me cuidando, me entendendo aqui comigo e me ouvindo em todos os sentidos. Estou aprendendo a respeitar meu sentimento sem julgar a intensidade das minhas reações, estou me respeitando, me adaptando. E isso não tem nada a ver com a falsa idéia de se amar e ser plena e completa. Tem muito mais a ver com a idéia de se reconhecer humana, limitada, com necessidades e sentimentos.


A comida estava ótima, coloquei um molho bacana. E eu também nunca tive alergia a molho. Eu não tenho alergia a essa comida, nem ao molho, nunca tive e não vou morrer por causa disso hoje. Eu já repeti isso pra mim várias vezes ao longo desse texto.

Enfim, acho que agora consigo dormir. Amanhã acordarei bem de novo. Escrever faz bem, sempre fez.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Não existe solidão da mulher negra.

Não existe solidão da mulher negra. (tá virando um mantra)
O que existe é um povo alienado de seus valores e cultura, que foi sequestrado pra uma sociedade doentia que pra começar nem sabe se relacionar afetivamente, provavelmente por que se desenvolveu em regiões de clima e natureza mais "hostis".
O que existe são mulheres e homens pretas/os que não se enxergam como seres maravilhosos, ricos e iluminados que são por essência e carregam um sentimento de culpa e uma necessidade de "melhorar" sempre, impostos ao longo de séculos nas nossas consciências por assassinos e estupradores racistas e dominadores.
O que existe são pretas e pretos que foram socialmente adestrados para ver no outro alguém indigno de respeito e confiança. E isso é mútuo e no mesmo pé de igualdade, só se desenvolve de formas diferentes pelas diferenças que essa cultura eurocêntrica impõe a mulheres e homens.
Como qualquer mulher nessa sociedade, que tem o machismo como uma de suas bases, eu já fui muito assediada. Por homens brancos e pretos, sim. Mas homens pretos nunca me chamaram pra fazer programa enquanto eu lanchava depois do trabalho, ou enquanto estava parada com uma amiga na pedra do sal. Homens pretos nunca colocaram uma nota de 50 reais na minha mesa e se acharam no direito de passar a mão em mim. Homens pretos nunca tentaram me abordar enquanto eu estava andando na rua com minha cahorrinha e tinha uns 9, 10 anos, sei lá. Homens pretos nunca se aproveitaram do fato de eu cochilar num onibus de viagem pra se masturbar do meu lado. Homens pretos nunca me sarraram no ônibus. Homens pretos nunca fingiram incentivar um trabalho artístico pra depois cobrar "consideração". Homens pretos nunca tentaram me forçar a transar sem camisinha ao ponto de eu ter que agredí-lo e ir embora. Todas essas situações e algumas outras, que eu ainda prefiro não falar, aconteceram com homens brancos, no exercício de seu poder de homem branco sobre uma mulher preta.
Homens pretos foram os maiores parceiros que eu encontrei ao longo da minha vida. Os caras mais batalhadores, mais amorosos, mais fraternais. Foram os caras que me apoiaram, que me deram colo, que me ouviram. Foram os homens que mesmo sem nada dessas firulas de militância da boca pra fora me trataram como rainha. Foram os homens pretos que me ajudaram quando passei mal na rua. Foram os homens pretos que interromperam o trabalho no ônibus e me deixaram na porta de casa quando eu fui dopada com boa cinderela na balada. Foram os homens pretos que me perguntaram o que tinha contecido pra eu levantar assustada do onibus de viagem e falaram "senta aqui do lado menina, tá tudo bem?". Foram os homens pretos que me ensinaram o que é amor e que a gente pode sim confiar num parceiro, mesmo que não dure pra sempre. Foram os homens pretos que me mostraram que você pode ficar longe da sua filha durante anos e que a sociedade vai fazer de tudo pra te mostrar como um safado mal caráter, mas que quando vocês tocarem um samba juntos uma magia vai acontecer e tudo, tudo mesmo vai ser explicado e vocês serão suas maiores paixões por toda a eternidade, por todas as eras. Foram os homens pretos que me ensinaram que professores pretos, por mais conservadores que sejam, sempre vão te cobrar mais quando você for preta, porque no fundo ele quer que com você seja diferente. Foram homens pretos que me disseram que candomblé é candomblé e que semana santa é outra coisa, portanto os biricuticos não tem nada a ver com isso. Foram os homens pretos que me acalmaram de madrugada quando eu estava em crise de ansiedade. Foram homens pretos que carregaram o caixão do meu pai e cantaram e rezaram e me ensinaram o que é respeito e amizade sincera. Foram homens pretos que me contaram histórias de amor e que me mostraram olhando nos meus olhos que eles também são humilhados, desrespeitados, subestimados e usados. Foram homens pretos que me falaram de ser pai, de ter suas casinhas e de que mesmo com um sacríficio, tem que levar as crianças num parque de vez enquando.
Ao longo do caminho esses homens pretos encontraram mulheres pretas e muitos continuaram com elas. Em outros casos eles procuravam sim mulheres brancas, por que queriam se sentir importantes e dignos. Muitas vezes uma mulher branca ao tratar seu homem como preto, como ela sempre sabe que ele é, faz com que ele se sinta especial. "Meu preto é ótimo, é trabalhador, é bom de cama, é um excelente pai.." Não num sentido de valorizar sua raça, mas sim porque é preciso sempre relembrar as qualidades de um homem preto, pra justificar o fato de estar com ele, pode até ser "inconsciente", mas é obrigatoriamente verdade que essa necessidade existe.
Esses foram exemplinhos simples e básicos de como essa história de mulher preta culpabilizar homem preto e se colocar como um pontinho isolado de opressão não tem o menor fundamento e nem embasamento empírico (na prática/realidade não se sustenta). Homens pretos não são opressores em potencial, não tem privilégio nenhum nessa sociedade e muito menos são insensíveis à vida e luta das mulheres pretas.
O fato é que nós, pretas e pretos, fomos/somos agredidas/os e inferiorizadas/os ao longo da história. Colocadas/os umas contra os outros e vice-versa. E isso é justamente para destruir nossa afetivade e uma de nossas armas mais fortes de resitência, a união. NÓS nos agredimos. NÓS nos abandonamos. NÓS nos viramos as costas. De várias formas diferentes..
Mas NÓS somos sim uma responsabilidade nossa se realmente quisermos lutar pela nossa liberdade.
"Enquanto acreditarmos que o fato de ser um tijolo já significa ser a base nunca construiremos nada."

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

NÃO PEGUE A PISTA SELETIVA

Nos últimos dias, tive vários exemplos da seletividade da "moral" e da comoção das pessoas. Não vou ser agressiva dessa vez, prometo, então pense comigo.

Fato que quando alguém morre na favela a desculpa é que é bandido, ou quase bandido, ou tinha bandido na família, ou andava com o espírito de um bandido encostado, enfim, de alguma forma estava errado.
Descobrem se o cara cometeu qualquer delito nas últimas três encarnações. Essas informações são fuçadas, ou inventadas.
Quando morre um empresário, um médico ou um playboy qualquer ninguém nunca olha a ficha. Não importa, se já roubou, se já matou, se era agressor, se vendia drogas "de boas" no AP na zona sul, a rapaziada/mulherada é vítima.
Aí você vai me dizer, "Monique você está sendo leviana, as minas/os caras morreram."
Vamos à segunda reflexão: o fato de você ficar horrorizada/o com aquela ou aquele amiga/o do "movimento negro" que posta coisas sobre racismo. Afinal ela ou ele são muito agressivos, muito radicais, magoam as pessoas com suas opiniões insensíveis. Pois bem, pense em quantas vezes você recriminou essa amiga ou esse amigo, porque afinal não dava pra não comentar aquele post tão absurdo? Agora pense quantas vezes você recriminou o seu amigo ou sua amiga que postou que pessoas deveriam ser mortas ou espancadas (ignorando que temos um sistema penal), que mulheres deveriam ser estupradas, ou que esse ou aquele tipo de comportamento tira os direitos de alguém. Deu vergonha né? Essa galera você simplesmente ignora porque não concorda, mas não leva a mal, afinal eles não te incomodam.

Eu poderia falar mais sobre a criminalização das vítimas e das/dos militantes. De como isso faz parte de um sistema cruel de silenciamento e violência. Afinal essas questões, sobretudo a primeira, merecem ser desenvolvidas com muito respeito, atenção e profundidade.

Mas por hoje deixo essas duas provocações e pergunta:

Eu sei que o caminho é mais fácil e mais rápido, mas bora da sair da seletiva?

domingo, 23 de agosto de 2015

O reinado dentro de todos nós


Quadra da Império Serrano. Disputa de sambas. Semi-final.
Mesmo com um dia especial de eventos, a essência se mantém e certos hábitos se repetem. Um dos mais característicos e marcantes é a vivência dos reinados individuais. Talvez, vistas a olho nu sejam apenas cenas particulares, momentos de pessoas sozinhas. Mas passando levemente um filtro preto no olhar, percebemos que todos têm algo em comum.

Sempre vejo pessoas sambando sozinhas no meio da quadra, no meio de todos. Podem até estar acompanhadas, mas sambam sozinhas.Uma espécie de êxtase que envolve os corpos e liberta mentes por alguns instantes. A maioria de nós, pode inicialmente julgar certa falta de técnica aqui, certo excesso de requebrado ali, uma interpretação da música muito emocionada acolá. Na verdade, em geral rimos. Achamos engraçado aqueles e aquelas que se apresentam sem serem convidados, que fecham os olhos e sentem a música e que simplesmente evoluem com a certeza de que estão fazendo seu melhor e portanto sem se preocupar em fazer isso.

A verdade é que nós, meras e meros mortais, presos à convenções e necessidades de fazer bonito, muito nos incomodamos com toda essa liberdade e desprezo pelo julgamento alheio. Num arroubo de honestidade algumas vezes intercalamos ente deboches e recalques certas exclamações de admiração e respeito pelo menos pela coragem alheia. Já é um grande passo. Mas ainda é muito pouco.
O samba enquanto dança preta – única e exclusivamente preta – tem um certo dom de libertar o reinado que existe dentro de todos nós. Extravasamos, relaxamos, nos divertimos. Mas acima de tudo, exercemos nossas realezas particulares.

Quando vejo uma senhora com seus sessenta e poucos anos na frente da roda de samba, vejo nela uma rainha. Ela não se preocupa neste momento com a conta da luz ou com a dor nas costas. Por um segundo a dor do filho preso ou o medo do neto morto se aquieta em respeito a alegria. Por alguns instantes ela pensa que o remédio para a pressão, que não tem dinheiro para comprar, não lhe fará falta. Olho para ela e a vejo simplesmente sambando, forte, altiva, determinada em ser. Ela não tem medo dos olhares de repreensão, muito menos das opiniões sobre seu corpo. Se o ritmo de seus passos não é o mais apropriado tecnicamente, é o melhor pro compasso de seu peito. Ela está totalmente livre naqueles instantes e isso, para mim, é reinar.

Quando olho um homem que tem sua roupa especial de todo sábado, que dança sozinho e dança e dança e sorri, vejo nele um rei. Ele não tem espaço para se preocupar ou para ouvir qualquer outro. É nítido que o samba além de ondas sonoras pelo ar, corre nas suas veias e liberta uma alma que nunca ficará presa novamente. Ele dança, ele sorri e eu tenho a nítida impressão de que talvez ele simplesmente se apagará quando deixar a quadra e só voltará a existir no próximo samba. E como eu invejaria alguém tem o dom de só existir quando quer e onde quer. E se ele pode definir quando existe, o que lhe importa e quem chega até ele, para mim, ele também sabe reinar.
Admiro a competência desses e de muitos outro personagens que pegam nas mãos sua essência e jogam pro alto deixando ela cair em suas cabeças e se espalhar no tempo.

Espero que algum dia, resgatemos nos nossos olhares a simplicidade das danças de batuque, que mesmo com passos marcados, com ritmos definidos, dão liberdades aos nossos corpos e nos permitem cultuá-los com alegria. Que possamos passar o filtro preto na lente de nossos olhares e esquecer os julgamentos, deixar de lado as técnicas e avaliações, os moralismos e concorrências e que possamos olhar os nossos e vê-los lindos como são. Espero que peguemos de volta nosso samba, nosso orgulho de nós mesmos e nosso carinho por todos nós. Que larguemos de lado esses julgamentos que não são nossos e simplesmente voltemos a apreciar a alegria e o espírito do outro, no seu jeito, na sua unicidade, na sua realeza intrínseca. Que nós comportemos mais como reis e rainhas, que sejamos livres de verdade e que apreciemos com reverência e alegria a liberdade dos nossos.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Guardar

Não parei de escrever porque quis.
Tento e não consigo.
Já tentei algumas vezes nas últimas semanas.
Não sei se a decepção por ser execrada pelos que se diziam aliados.
Não sei se a impaciência de ser importunada pelos inimigos.
Não sei se o medo de tanto escrever e deixar escapar pelas mãos as minhas crenças.
Algo secou a tinta da caneta da minha alma.
Comecei a guardar e hoje me sinto mais escudo do que lança.
Observo, leio, ouço, vejo, sinto e finjo que não.
Guardar.
Aguardar.
Aguardar o momento certo é um desafio.
Os momentos errados e as falsas batalhas são tão fascinantes.
Eles nos dão a sensação de que estamos acontecendo, de sermos reais.
Mas ser real não é ser verdade e acontecer não é necessariamente existir.
Guardar.
Aguardar.
Dissimular.
Reagir.
Guardar.
Aguardar.
Reagir.