quinta-feira, 20 de julho de 2017

Ação, reação e o peso do mundo nas nossas costas

"As forças atuam sempre em pares, para toda força de ação, existe uma força de reação."
A frase podia ser minha, ou do horóscopo de capricórnio dessa semana, mas é a terceira Lei de Newton, aquele da Física. Força, na Física também, é considerada uma interação entre dois corpos.

E porque eu, de humanas, estou me metendo a besta nessa conversa? Eu bem que gosto de física, mas na verdade estava pensando aqui sobre todo o peso do mundo que sentimos nas nossas costas de vez em quando. Sabe aqueles momentos, fases ou a vida inteira, que você se sente pressionada, amarrada, que “tem que isso ou que aquilo”? Pois é, acho que dificilmente alguém possa ser tranquila a ponto de levar o #nãosouobrigada no sentido literal pra vida.

A questão é que se as convenções da sociedade (péssima sociedade) em que vivemos nos levam a “ter que isso ou aquilo”, a gente também muitas vezes se vicia em ser obrigada à alguma coisa. Acho que muitas vezes a gente prefere dever fazer à escolher fazer. Pois a escolha nos torna totalmente responsáveis por aquele caminho. Se você precisa, se você não tem outra escolha, se você é obrigada a, por mais sufocante que isso seja, o resultado dessa atitude não é 100% seu. O fracasso vai poder ser justificado. As perdas poderão ser consideradas injustas. Você vai ter uma série de argumentos para apresentar e assim conquistar o respeito dos seus ouvintes/avaliadoras/es.

Por mais massacrante que seja o condicionamento de ações, temos um medo absurdo da liberdade. Liberdade de ir e vir, liberdade de criar, liberdade sobre nossos corpos. Por mais que a conjuntura nos imponha limites para vivenciar essas liberdades publicamente, deveríamos reaprender a não abrir mão delas ou de pelo menos do espaço que ocupam em nossas mentes.
O “eu quero” deveria poder existir independente de justificativas ou aprovações. O “eu não quero” deveria ser livre de culpas ou constrangimentos. A/o outra/o não deveria ter mais influência sobre o que sentimos do que nós mesmas.

Em seu livro Na minha Pele, Lázaro Ramos ( e eu vou citar esse livro até no meu TCC se conseguir..rss..), fala muito sobre a importância para pretas e pretos da liberdade sobre nossos corpos. Ele me fez pensar sobre como certas sensações são um reflexo dos cerceamentos que sofremos na nossa subjetividade. Por exemplo, sempre me senti meio em pânico em estar em algum local público sozinha, qualquer fosse. Nunca consegui relaxar e sentar num banco de praça pra olhar a paisagem e as pessoas. Vira e mexe estou atenta se estou “direitinha”, bem posicionada, expressão neutra, essas coisas. A gente sempre acha que tem alguém olhando. E se eu tropeçar? E se cair alguma coisa? E se eu espirrar? Conforme vou me acostumando com o local a sensação alivia, mas vez ou outra a gente dá aquela corrigida na postura, se ajeita e tal...

E o que que esse exemplo tem com o texto, com Newton e com o peso do mundo? Zoniei como sempre, mas pensa comigo: essa “tensão” de como se posicionar tem ligação direta com a necessidade de aprovação, que tem a ver com a liberdade (ou ausência dela) sobre nossos corpos. A gente não se sente real se isso não for visto e aprovado por outrem. E aí pode ser qualquer um tá?, tanto da galera clichê e padrão, quanto da galera “transgressora”.

Mas queria ir mais além e sair dessa de “a gente é assim ou assado”.
Então, se Newton diz aquela lei lá de cima, eu ja entendo que simplesmente ao existir imprimimos nossa força no mundo e aí é fato que ele vai mandar pra gente a mesma força de volta. Nããão, não estou fazendo a linha “meritocracia-mais-amor- por-favor” e dizendo que você recebe o que emana pro universo. Só quero dizer que se a gente sente o peso de tantas imposições e cobranças, de tantas tentativas de cerceamento e limitações, pode buscar a possibilidade de reagir a elas na mesma intensidade. E esse é um processo cansativo e contínuo. Mas é um processo que pode fazer a gente se entender enquanto agente das nossas vidas.
Tomar as rédeas. Assumir o controle, impor energia, devolver força, reagir. Não seguir o fluxo, mas seguir um fluxo, seu fluxo, mesmo que você não faça a menor idéia de onde ele vai te levar.
Não fui eu que disse, foi Newton. ;)

quinta-feira, 2 de março de 2017

De volta à escrita

Honestamente, estou escrevendo sem saber se vou conseguir chegar ao final desse texto. Para escrever essa primeira frase já foram idas e vindas no teclado: total falta de costume.
E é exatamente sobre isso que eu ando com vontade de falar. Impossível não me olhar hoje e perceber a diferença de dois anos atrás. A fala antes constante, implacável, dura e determinada hoje é mais um campo fértil de (re)pensamentos e ponderações, um grande espaço de considerações e certezas que podem ser, ou não.
Olho muitas outras jovens e me vejo como era um tempo atrás. Longe de orgulho, me preocupo muito. O excesso de certezas ao invés de bem me trouxe muitos problemas, muitas dores, me tomou um bom tempo. Opa! Longe de mim adotar a tendência da relativização eterna. De entrar em uma de que “nunca é bem assim”. Acho apenas que muito mais do que verdades absolutas cimentadas em nossas mentes valem valores e princípios absorvidos pela idéia e pelo espírito.
Quando comecei a olhar para as certezas tão absolutas que tinha e me testar, tentando ir mais afundo e vendo até onde eu realmente sabia o que elas significavam, fiquei chocada. Nada. Aliás, para não ser tão pessimista, um pouco mais do que nada era o que eu realmente tinha absorvido do que defendia, brigava e escrevia.
Mas ao contrário do impulso normal de buscar mais conhecimento teórico eu senti uma vontade enorme de deixar aquilo tudo pra trás e começar do zero. Construir um pensamento a partir de mim. Não me refiro a criar teorias, até porque não tenho a menor qualificação para isso. Me refiro sim, a me permitir vivenciar, sofrer, entender e refletir sobre todos os processos que me envolvem e sobre todas as possíveis respostas que me são apresentadas sobre eles. Me refiro a me permitir ser agente, personagem principal na minha consciência e na minha história.
Arrisco dizer que a maior parte das condutas que assumimos são determinadas pelo medo da crítica ou da rejeição. Como num ciclo, passamos a defender tais posturas com unhas e dentes, em um esforço de impô-las ao outro para conseguir concretizá-la em nós mesmo. Um jogo contínuo de imposição e agressividade, de relações frágeis e superficiais que não resistem a menor presença de uma divergência de ponto de vista.
Nos preocupamos tanto em dominar a “técnica” da resistência que esquecemos de nos deixar dominar pela sua essência. Tentamos dominar a nós mesmas de fora pra dentro, partindo do que nos dizem ser certo para nos construir certas. Conseguimos o feito incrível de complexificar uma existência a tal ponto que se preencha de superficialidades.
Nessa altura do texto eu já sei que minha capacidade de dar voltas ao mundo pensando foi totalmente preservada. (risos)
Mas sobre escrever novamente...sobre o que eu realmente queria falar.
Fiquei por um tempo sem escrever, e acreditava que era por pensar que não tinha conhecimento suficiente para falar sobre assunto algum. Me sentia muito menos capaz do que tantas outras, embebidas em teorias e citações impecáveis, cheias de referências e contextos históricos.
Mas percebi que assim como na escola e na faculdade meu forte nunca foram as citações. O que sempre me fez escrever foi a possibilidade de contar para alguém tudo o que eu pensava sobre alguma coisa. Foi a possibilidade de parar pra pensar sobre algo. De receber uma informação e digerí-la em palavras, usando como órgãos desse processo minhas experiências, meus sentimentos, meu conhecimento. O que sempre me fez escrever foi poder concretizar em palavras minha paixão pela capacidade mais elementar de todos os seres humanos (e não humanos na minha opinião): o pensamento.
Percebi então que na verdade não estava com medo das críticas ou “tretas” como pensei. A verdade é que não sentia a necessidade de limitar as reflexões, de definir, de fechar em linhas. Precisava de mais espaços, ir além de parágrafos, sem ter que me preocupar com erros e coesão. Precisava resgatar a liberdade do meu pensamento para voltar eu mesma a acreditar no potencial dele e assim ter vontade de novo de compartilhá-lo, sabendo que erro, acerto, mudo de idéia e sempre aprendo. Encontrei.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Equação do medo preto: 2 X + = ? (Duas vezes mais é igual o quê?)

Apesar da proposta do título, este texto não é exato. Não tem verdades, nem certezas absolutas. Como sempre, apenas vamos pensando.

Hoje pude assistir na faculdade apresentações de trabalhos de pesquisa de outros alunos. Foram muito bem apresentados. Mas sem demérito de nenhum dos meus colegas, pensei, de repente, que eu poderia ter apresentado também e que eu tinha plena capacidade de fazer o que eles estavam fazendo. Aliás, eu já tinha feito. Logo em seguida lembrei do porque não apresentei nada: muito mais do que tempo para fazer pesquisa, eu realmente não me sentia apta para falar de nenhum assunto assim, "academicamente falando". E então me dei conta de que não era uma questão de conteúdo, de experiência, era uma questão de uma preta se sentir pronta para ir em frente.

Para nós pretas e pretos nos sentirmos capazes de assumir a dianteira de determinados lugares nos cobramos quase sempre de muito mais tempo e muito mais qualificação do que uma pessoa branca se cobraria para tal. Eu não pretendo falar aqui sobre o quê e como a sociedade nos exige (que dá pano pra manga, pra gola, pra blusa inteira aliás), mas de como nós mesmas nos exigimos.

A pergunta principal é: Por que nós nos exigimos?
Já ouviu alguma vez na infância que VOCÊ tem que ser limpinha? Que VOCÊ tem que ser educado? Que VOCÊ tem que ser mais do que bom? Essas frases, que poderiam ser ouvidas por qualquer pessoa, para nós pretas e pretos vêm com outra entonação. Vêm com a idéia implícita de que temos que compensar algo. De que temos que equilibrar na balança de qualidades o peso do defeito de ser preto.
Ao longo de séculos nos foi tirado pelo racismo o orgulho de nossa origem. Foi colocado em nosso inconsciente coletivo através de várias formas de violência uma vergonha de ser preta ou preto. Nosso povo foi colocado como símbolo de inferioridade e de tudo que há de ruim socialmente falando.
O desdobramento dessa ideologia foi tão bem planejado e bem-sucedido que passamos a culpar nossa identidade preta pelas mazelas que o racismo branco impôs ao nosso povo. Um exemplo: se diante do grande número de desemprego, alto nível de exploração, ausência de oportunidades de qualificação e violência institucional uma parcela da população preta e pobre se envolve em atividades criminosas a culpa seria única e exclusivamente de sua índole marginal e jamais de todo sofrimento imposto pela dominação e exploração dos colonizadores. Desse pensamento também resultou a imagem de que não temos uma história, afinal se tudo que vem de nós é ruim, não há nada importante a ser lembrado. Precisaríamos então nos curvar e absorver tudo que vêm das boas referências da cultura branca.

Ok, dei uma volta ao mundo. Voltando.
Uma resposta pra pergunta acima poderia ser: nos exigimos porque no fundo acreditamos que somos incapazes, inferiores e duvidamos de qualquer qualquer bom desempenho que possamos ter. Isso tudo compõe um sentimento crônico chamado INSEGURANÇA.
A insegurança sempre faz com que exitemos muito em dar um passo adiante ou simplesmente faz com que a gente não dê passo nenhum. E ao contrário do que possa se pensar isso não tem nada a ver com zona de conforto: aliás é um lugar de desconforto imenso. É como ter uma bola de ferro invisível presa nos pés. É carregar um peso que torna a caminhada exaustiva e te impede de levantar a cabeça.
É nesse sentido que a gente olha lugares como faculdade e acha que não são pra gente, que a gente acha que não pode ser médica, que escolhe sempre as mesmas profissões "populares", que se convence sempre por outras referências "mais qualificadas".
Um comportamento que muita gente pode criminalizar como "acomodação", mas que é muito mais um grande medo de ir além do que tudo que te ensinaram que era o seu limite. Se você acredita que não tem asas não vai querer tentar voar.
Se foi construído no imaginário de todo um povo que ele não é capaz e que ele não é digno, como não estaria cravado dentro de cada uma e cada um de nós esses sentimentos?
Desse fato surge a alternativa: ser duas vezes melhor. Uma equação totalmente falha que aparentemente insinuaria que a competência de duas pessoas negras equivaleria a de uma pessoa branca. A idéia de ser duas vezes melhor não traz pra nós uma elevação de orgulho: ela reforça o pensamento que diz que somos inferiores, que somos menos, ela diz que somos metade do que o branco é.
Quando falamos de ser mais, de ser melhor, na verdade nunca está definido o que é isso. Se fosse pra comparar mais na matemática acho que seria tipo uma dízima periódica. É certo que nesse sentido não temos uma meta exata a ser alcançada. É uma eterna insatisfação e uma eterna não suficiência. Ou não damos passos adiante, ou damos passos carregados de um super esforço que vem imediatamente seguido de uma nova necessidade a ser superada, de uma série de provas que precisamos dar para justificar aonde chegamos e o que conquistamos, seja o que for. Nunca nos bastamos por nós mesmas, por nossa felicidade, por nosso querer: temos uma apresentação pronta, cheia de referências e de justificativas por sermos o que somos, "mesmo sendo" pretas ou pretos.

Ops. Outra volta ao mundo? Já chega.

Pensei sobre tudo isso e só entendi mesmo que grande parte da cobrança que faço a mim mesma é muito mais por insegurança e por me julgar incapaz do que por rigor e gosto pela excelência. Aliás, eu sou de Áries, nem ligo tanto pra perfeição assim. Ligo para movimento. E o movimento de dar o passo adiante tem que ser feito. E se a partir daí precisarmos dar passos atrás que o façamos. Mas vamos olhando as amarras, vamos soltando aos poucos. Vamos (re)apendendo a nos sentir capazes, fortes, seguras. Vamos aprendendo a acreditar que podemos sim. Podemos tudo.






sexta-feira, 26 de agosto de 2016

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Quanto mais nos esforçamos para "construir" e "desconstruir" dentro dessa sociedade mais ficamos incapazes de desenvolver uma perspectiva preta.
A "integração" é uma das formas mais cruéis de castrar nossa força de luta porque nos coloca em constantes situações de "escolha" nas quais somos levadas a ceder para ajustar nossa necessidade a da coletividade. Coletividade essa leia-se supremacia branca. Somos forçadas a relevar, a compreender, a calar, a aceitar o menos mal, a ter cuidado para não magoar a outra ou outro. Artimanhas dissimuladas para que possamos até nos indignar, mas não tanto. Para que possamos nos colocar como pretas, mas até aonde interessa.

É impossível construir ou descontruir um povo que tem como base a exploração de outro.
A negação de todos os direitos do povo preto é feita dentro dessa sociedade eurocêntrica, em todas as instâncias: seja por quem se considere conservador, como por quem se considere revolucionário. E o fato de negar não significa que um dia poderão nos "conceder", mas sim que sempre se reinventarão para continuar negando.

A intelectualidade preta sofre ataques dos mais repulsivos pelos setores ditos revolucionários brancos. Todos os movimentos sociais têm medo da auto-organização preta. Afinal, perderiam suas massas de manobras, sua força bruta. Perderiam quem no desespero de ter seus direitos e vozes calados soma com todas as suas forças esses espaços que se intitulam "a única opção" ou ainda "a melhor saída". Perderiam quem engrossa seus discursos de que "está ruim pra todo mundo". Perderiam seus casos trágicos, suas histórias de superação, suas vírgulas do "mas no caso dos negros é ainda pior". Perderiam muito nas suas disputas de poder dentro da sociedade da qual fazem parte organicamente. Então, a demonização do pensamento preto afrocentrado e de qualquer referência que venha de África e não inclua os processos e interesses brancos é a melhor forma de manter os corpos pretos a serviço da branquitude.

Existem incontáveis provas de que a revolução branca não nos inclui e de que nenhum movimento social é realmente integrador. Não vou me deter neles, basta abrir os olhos e pesquisar. Aliás, existem fatos óbvios de que a integração é uma falácia usada na mesma proporção da idéia de paraíso pós-vida usada pela fé cristã para a dominação e construção de consenso.
Nos dar conta dessa mentira e dessa impossibilidade de "aliança" é um processo doloroso, decepcionante e inclui reagir de uma forma diferente às "escolhas" que nos são dadas como óbvias. É um processo mais difícil, novo para a maioria de nós que nunca se deu o direito de pensar que poderia ser mais e que tem um lugar para si, um pensamento seu e todo um povo seu também. É um ato de coragem que não precisa começar cheio de definições, teorias e julgamentos, mas sim de confiança em uma história milenar de conquistas e lutas. É um ato que só acontece junto com o esforço de se reconectar a ancestralidade e deixar que venham à tona todas as certezas já marcadas em nosso íntimo sobre todas as mentiras, apropriações e violências que sofremos em todos os espaços da branquitude. É um ato que precisa ser, precisa acontecer, o mais rápido possível.

Bom dia.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Ação e Reação: reflexões sobre o caso Micah Xavier Johnson

A primeira reação que tive ao saber da notícia do caso Micah Xavier Johnson, onde durante um protesto do Black Lives Matter em Dalas, Johnson atirou e matou policiais norte americanos foi pensar: Olodumare nos proteja, a reação deles será violenta, agora é que irão nos matar.
Mergulhei num mar de angústias, dúvidas e certezas e percebi que o caso é muito mais complexo do que podemos pensar em um primeiro momento.


A primeira questão: O medo da reação branca.
Para começar explico que quando falo em "nós" me refiro a pessoas pretas, quando falo "eles" me refiro a pessoas não pretas. Seguindo..
A primeira angústia que senti foi o desespero de termos nos tornado alvo fácil, com justificativa para sofrermos com a vingança da polícia dos Estados Unidos. Agora eles iriam nos matar, entrar em nossas comunidades, atirar, violentar, agredir qualquer uma/um que fosse preta/o. Agora teríamos uma "imagem suja" perante a sociedade, que compreenderia as atrocidade cometidas como uma "resposta", uma correção necessária e ficaria cega diante dos crimes cometidos pelo Estado.
A questão é: isso já acontece. Todos os assassinatos de negras e negros cometidos por policiais já são a concretização dessa prática. Já nos matam todos os dias, já tripudiam de nossa existência, já destilam seu ódio violentamente contra nossas comunidades sempre. E o imaginário social já legitima isso, já entende que casos "acontecem", já nega que sejam crimes, já nos enxerga como marginais e sendo assim passíveis de correção e condenação sem julgamento. Nossa imagem é suja antes mesmo que possam ver nossos rostos, fazemos por merecer a morte apenas por estarmos vivas/os.
Então, se a reação branca seria nos matar, nada se acrescentaria de novo na dinâmica internacional de genocídio do povo negro.

A segunda questão: O medo da alienação preta.
Num contexto em que o povo preto se auto-odeia, por ter absorvido uma referência imposta da superioridade branca, o ativismo preto já é criminalizado. Ao mesmo tempo em que brancas e brancos nos matam, nos humilham, nos ridicularizam e nos exploram, repetimos mantras como "somos todos iguais", "a cor da pele não importa", "não podemos discriminar ninguém" ou (um dos que mais escuto) "não podemos reagir ao ódio com ódio". Esses pensamentos foram enfiados no nosso imaginário coletivo principalmente através da imposição dos valores tradicionais cristãos, tendo a religião se demonstrado uma das armas mais poderosas na construção das bases da supremacia branca. Se analisarmos os dez mandamentos de forma crítica por exemplo, observaremos que eles tem um papel fundamental na manutenção da ordem social: não matar, não roubar, não cobiçar as coisas alheias, por exemplo, podem fazer referências diretas à submissão e ao conformismo diante das desigualdades sociais. A questão é que dogmas que a princípio poderiam garantir a paz e a igualdade, impostos e absorvidos por povos dominados cumprem basicamente o papel de adestradores sociais.
Pensando sobre isso, e sobre como nós fomos atingidos e contaminados pela supremacia branca, fiquei angustiada com o fato de ficarmos ainda mais longe de obter legitimidade diante de nossas irmãs e irmãos pretos. Defender que pretos e brancos são diferentes e não querer "se juntar" e sim ter o devido direito ao poder é algo que causa mais pavor do que a expressão "cinco jovens negros foram assassinados". Direcionar alguma ação contra pessoas brancas seria então mais inconcebível que o inconcebível neste mundo onde o racismo existe, a supremacia branca existe, mas fazer qualquer ligação entre isso e pessoas brancas é um pecado (ironia do termo). As próprias pessoas pretas se voltariam contra o ativismo preto.
A mídia branca não exitou em gritar aos quatro cantos que Johnson era ativista negro e mesmo que ele tenha declarado atuar sozinho, fazer ligações através de suas redes sociais ao "Black Power" (Poder Preto) e movimentos como Novas Panteras Negras. Ou seja, usar o fato para comprovar a tese de que movimentos pretos são extremistas. Nos acusar de odiadores, assassinos e nos "igualar" no imaginário social aos que cometem o genocídio do povo preto, que a propósito, não são eles mesmos (ironia novamente).
A questão é: isso também já é uma realidade. Ativistas negros que defendem o mínimo de autonomia pro povo preto já são consideradas/os radicais, extremistas, odiadores de pessoas brancas, violentas/os, "racistas". E nenhuma iniciativa direta no sentido de explicitar essa linha de pensamento terá espaço em veículos de comunicação. O menor sinal de orgulho preto, a menor menção de poder já abre precedentes para julgamentos de exagero, apologia a violência e a segregação, vide a repercussão do clipe Formations de Beyoncé. O que é aceito, no que somos aceitas/os, ouvidas/os, o que "nos deixam" propagar e "até concordam" nunca será algo capaz de acabar com a supremacia branca e com a exploração do povo preto. Em grande escala, nossa imagem já é criminalizada e quando não é no máximo cooptada para construir um consenso, para forjar uma igualdade que não existe em nenhum país da diáspora.
Então, se a reação de pessoas pretas seria nos julgar extremistas e nos condenar por odiar brancas e brancos idefesos, nada se acrescentaria de novo na dinâmica internacional de genocídio do povo negro.


A terceira questão: a tristeza pela morte de um irmão

Sim. Micah Xavier Johnson era um irmão preto. Eu considero assim todas e todos africanas e africanos do continente e em diáspora. Longe de fazer qualquer referência idealizada e equivocada de África, traço essa irmandade como um referencial identitário político e de resistência. O que não tem nada a ver com homogeneidade ou amor romântico. Mais um homem preto, africano morto. Micah, ao contrário de milhares de atiradores brancos não estava entediado ou motivado por um sentimento de rejeição pessoal. Não era uma insatisfação dele com o mundo. E por mais que telejornais tenham tentado a resumir a "estar irritado com a morte de jovens negros pela polícia" sabemos que a motivação de Johnson era o acúmulo de séculos de assassinatos e violações. E se discordarmos da idéia de ancestralidade por julgarmos subjetiva e espiritualista, ao menos uma vida de agressões diárias à sua pessoa ou às pessoas do mesmo grupo social do qual pertence toda e todo negro tem. Acordar todos os dias e saber que alguém igual a você foi morta ou morto exatamente por se parecer com você mata um pouco de todas e todos nós a cada dia. Pensar que um irmão, no sentido político já mencionado, chegou à ações extremas e perdeu sua própria vida nos mata e desespera também. Johnson foi assassinado, gradativamente, até chegar diante da bomba da polícia de Dalas que o matou por "legítima defesa".

A quarta questão: o recado a pretas e pretos ativistas

Vamos destruir vocês. Isso que ouvi e li a cada matéria que consegui ter acesso. Em tempos onde Beyoncé, uma das maiores cantoras pop internacionais, começa a apresentar uma postura mais incisiva na defesa da vida do povo preto, o contra golpe na tentativa de criminalizar qualquer postura de resistência preta continua sendo desferido. Me pergunto quanto tempo demorará, se já não aconteceu, para insinuarem que a ação de Johnson poder ter sido incitada ou alimentada pelo clipe de Bey. Isso me preocupa, ao mesmo que me impele a pensar o quanto já estamos sem a possibilidade de retroceder e o quanto isso significa sacrifício. Mas também me leva a pensar o quanto a estratégia pode permitir que esse "sacrifício" quando iniciado por nós mesmas/os pode ser feito de forma estratégica, por exemplo: ao se ter poder econômico, visibilidade, etc.
A questão é: isso sempre existiu. Movimentos pretos sempre foram criminalizados e ativistas pretas e preto sempre execradas/os, perseguidas/os e neutralizadas/os.
Então, se a reação seria condenar e perseguir ativistas pretas/os nada se acrescentaria de novo na dinâmica internacional de genocídio do povo negro.

Para além dessas questões me pergunto sobre muitos outros pontos como não termos uma estrutura concreta de organização e resistência transnacional, sobre as doenças e dores que absorvemos a cada dia que passa, sobre como nossa fragmentação e a reprodução dos ideias de hegemonia brancos nos enfraquecem, sobre como o sistema anti negras e negros construiu muito bem suas bases e castra nossas tentativas e poda nossas energias para a luta, etc.

Mas a questão é que do medo, das angústias e das dúvidas não sobra um indício de que a ação de Micah Xavier Johnson possa ter sido um agravo na fúria da branquitude contra o povo preto. Não consigo vislumbrar espaço vazio, ainda não preenchido de ódio pela branquitude, para isso acontecer. A dinâmica do sistema anti negras e negros é muito maior, contínua e complexa do que podemos imaginar.












quarta-feira, 29 de junho de 2016

Meu amor escrito


Procurei entre amores escritos e não tive
Nenhum que me desse a mesma paz do teu riso
Nenhum que trouxesse o calor dos teus braços
Nenhum que fizesse lembrar dos teus traços
Nenhum que me fosse tão bom como amigo

Nem ao menos um tão familiar quanto o teu corpo
E cada palavra era como borracha na tinta de caneta seca
Não mexia, não mudava
Nenhuma linha alinhava a saudade
Nenhuma vírgula entremeava a angústia
Não escrevia, nem copiava

Resolvi então escrever de amor na folha do tempo
Grifei as alegrias, as completudes, os olhares mais doces
Segui linha por linha, sem dar muito espaço
Criei, reescrevi, fiz meu novo dicionário
E com novos significados, minha alma escreve a cada momento
E sem pontos finais sigo adiante
Te enviando meus eus poemas
Até que acabem as letras do mundo.

(Para Danilo)

A velha e a passista

Em um tempo não muito simples de se medir se encontraram na estrada da vida uma velha e uma passista.

A primeira, carregando as marcas de todas as décadas já vividas e a segunda carregando todos as ansiedades sobre as décadas que estavam por vir.
Uma nunca havia realmente visto a outra. Olharam-se, estranharam-se, reconheceram-se totalmente como diferentes. Tanto que chegavam a ser familiares. E as estradas que eram distantes se encontraram. E começou assim uma nova história.
A jovem passista aprendia àquela época tudo que era de novo sobre seu próprio espírito. A velha perdia aos poucos tudo que a mente havia registrado ao longo da vida. Inventava. Inventavam. Uma por não saber, outra por não lembrar.
A velha que já não tinha então em quem confiar, amedrontada por seus próprios fantasmas, viu na passista uma alma nova, desconhecida, e do topo de todos os seus anos pensou “por que não arriscar?”. Afinal, se não fosse aquela jovem com quem contar diante de tantos inimigos que flutuavam em suas próprias memórias embaralhadas?
A passista que ainda não tinha nada de certo para o futuro, amedrontada por todas as suas dúvidas, viu na velha uma certeza de resistência, de existência, e mesmo com toda sua agilidade pensou “por que ir tão depressa e deixá-la pra trás?”. Afinal, se pudesse ser como aquela velha gostaria que alguém estivesse com ela, pelo menos às vezes.
A velha contava a passista suas histórias que nunca viveu, fruto de suas memórias substitutas. Permitia-lhe acesso a seus lugares, confiava seus bens de valor sentimental. Sabia que se não fosse com ela, não poderia ter tranqüilidade da presença de mais ninguém.
A passista ouvia as mentiras sinceras, compenetrada em tentar traduzir para verdade símbolos ou significados. Deixava suas urgências. Sabia que se não fosse com a velha, não poderia dedicar aquele sentimento tão desinteressado a mais ninguém.
Não necessariamente se entendiam, ou sabiam do que a outra falava. Se comunicavam. Trocavam sorrisos e olhares. E o simples fato de existir uma outra mulher presente, vivente e sensível já lhes trazia a companhia melhor do mundo.
Dançavam as duas. Cada uma em seu ritmo, cada uma em seu tempo. Mas sem dúvida era um gosto em comum. Gosto que não precisaram dizer uma a outra. Era algo bem maior do que elas para precisar ser apresentado. Talvez uma dançasse para extravasar e canalizar sua energia abundante de juventude. E talvez a outra dançasse para tentar conservar as poucas energias que ainda tinha nos músculos do corpo. Mas independente do porquê, dançavam. E quando viam-se dançando se encantavam. Se admiravam e dançavam uma para a outra, uma com a outra, sem muitas vezes nem mesmo se olharem.
Celebravam a pequena doçura de ter a paz de presenciar outra existência feminina.
Celebravam-se assim ancestrais: uma na presença da mais antiga, da que viria a ser um dia e a outra na presença da mais nova, do que já havia sido.
Ancestrais de si mesmas, futuro de si mesmas. Cominhos e recomeços de si mesmas.
Celebravam-se independentes de seus passados ou de seus futuros.
Contavam com elas para vibrar pela eternidade.