domingo, 21 de janeiro de 2018

Chegada

Quando eu chegar, quero ver sorrisos e flores
Quero gritos de alegria e abraços apertados
Quero presentes sem valor e lágrimas nos olhos

Quando eu chegar, quero sentir que fui muito esperada
Quero pensar que não posso ir embora
Quero escutar o quanto eu fiz falta

Quando eu chegar, quero passar todo o tempo mantando saudae
Quero ficar sem saber de outras horas
Quero tentar esticar mais o tempo

Quando eu chegar, quero lembrar como foi dificil a viagem
Quero ver que valeu a pena a partida
Quero saber que não preciso ir embora

Quando eu chegar bem perto de outros corações
Quero que o meu seja porto e navio
Quero ancorar em mar quente de carinho
Quero afogar toda a mágoa e rancor

Quando eu chegar, quero alcançar outros peitos vazios
Quero traçar e ligar mais caminhos
Quero esperar mais chegadas no ninho
Quero morar numa ponte de amor.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Cartas para Babi (2)


Quanto tempo! E como passa o tempo, não é? Dizem que os astros estão mudando e o tempo acelerando. Não sei se é bom, mas confesso que minha ansiedade agradece um pouco.

Sabe, minha querida, após minha iniciação os processos de aprendizado têm sido diferentes.
É como se meu coração e minha mente ficassem mais atentos e comprometidos com as experiências que eu passo. É como se eu tivesse aprendido a valorizar mesmo cada coisa que acontece e force uma barra enorme pra conseguir tirar lições de todas elas.
Bem eu sempre fui o tipo que viaja um pouco tentando refletir sobre tudo na vida (#humanas..rss), mas acho que venho conseguindo fazer isso de forma produtiva agora.
Não, eu não estou falando de ser resignada diante de todas as situações. Muita coisa me deixa bem puta, com o perdão da palavra. E muita coisa eu acho injusta, não injustiça do destino, mas injustiças cometidas pelas pessoas. Mas eu tenho conseguido escolher o que vai me marcar das situações, definir o que eu quero fazer com elas.
É um processo longo e muito confuso: às vezes parece um otimismo meio idiota, às vezes parece que eu fico fugindo de uma realidade óbvia e nada romântica e às vezes parece que eu fico remoendo os fatos mais tempo do que deveria. Mas aos finais de tudo isso, sinto que venho conseguindo me mudar de verdade. Talvez seja o esforço mais real que já fiz na vida pra me tornar a mulher que realmente quero ser. Os resultados são lentos e talvez ninguém vá perceber mudanças significativas agora. Mas o que importa é que pra mim elas têm feito muito sentido.

Algo valioso que aconteceu nos últimos tempos foi repensar o meu conceito de fé.
Fé no sagrado, fé em mim mesma, fé nas pessoas.

Sobre a fé no sagrado venho entendo que não tem nada a ver com abraçar verdades e não questioná-las. Tem a ver com receber orientações e aprender a forma mais sincera de absorvê-las, o jeito mais honesto de acreditar nelas. Nós construímos nossa fé e isso não significa fazer invencionisses na tradição, mas absorvê-la através de experiências e sentimentos que façam sentido pra cada uma de nós. Têm sido maravilhoso perceber que existe uma conexão direta com o sagrado, que não depende de nada nem de ninguém além de mim e da espiritualidade.

Sobre a fé em mim basicamente entendi que ninguém sabe mais sobre mim do que eu mesma. Sim, conselhos são bons, carinho é bem-vindo, mas é preciso entender que por mais boa vontade que o outro tenha, nunca sentirá o que nós sentimos. É necessário ouvir as pessoas que amamos, mas é fundamental colocar um limite para que elas não passem a se achar no direito de nos dizer quem somos. Esse limite preserva as relações e ajuda a manter o respeito pela nossa essência. E se o mundo já deposita na gente milhares de julgamentos, devemos fazer o máximo para que a escolha da forma de como nos projetar nele seja um direito só nosso.
Aprendi revendo certas situações e principalmente lendo coisas antigas, que eu já me disse muitas das coisas que preciso saber e que eu já aprendi certas coisas, mas talvez tenha esquecido. Aprendi que eu tenho muito mais capacidade de seguir em frente e mais força do que eu pensava. Se eu posso dar um conselho nessa vida é: escreva! Registrar os pensamentos ajuda a retomar muitas questões e tem me ajudado a lembrar a mulher que sou em alguns momentos confusos. É como ir construindo um manual sobre si mesma, que mesmo incompleto ajuda a relembrar os consertos que já foram feitos e as potencialidades que já existem de fábrica.

Sobre a fé nas pessoas, bem, continuo achando que muita gente é ruim. Continuo tendo me magoado com muita gente. Continuo preferindo os animais a cada dia que passa. Mas também tenho aprendido que todas as pessoas devem ser olhadas no mínimo três ou quatro vezes. Pois a cada vez que a gente olha elas irão parecer diferentes. Isso significa que gente aparentemente perfeita vai mostrar defeitos e que gente que não gostamos pode se mostrar melhor do que esperávamos. Um processo que pode trazer boas surpresas e nos preparar um pouco melhor para as decepções. As pessoas são como livros de poesias: causam em cada um de nós uma sensação diferente. Podem nos confortar, nos representar, nos chocar, nos emocionar, nos alegrar ou nos fazer chorar. Podem trazer sentimentos diferentes em capítulos diferentes.
As pessoas têm sido agora o meu maior desafio, pois também me vejo enquanto pessoa e, honestamente, duvido muito de que um dia serei totalmente capaz de me controlar e não magoar ninguém. Duvido muito de que um dia serei apenas uma poesia doce, com jeito de brisa mansa e fresca.
Mas eu ainda consigo sentir uma quentura no coração diante de certas pessoas. E já que a decepção é algo que vai acontecer evitando ou não, eu tenho tido menos medo de pensar "Puxa, como eu gosto de fulana!", ou "Mas como cicrana é agradável!", ou até mesmo "Vou me esforçar para estar perto de beltrana!". Acho que vale mais apenas correr o risco de acertar e viver boas experiências do que ficar se prevenindo do inevitável.

Mas são processos, construções e eu não sei se daqui a um tempo voltarei te escrevendo algo totalmente diferente. Pode ser que não deem certo, pode ser que eu mude. Pode ser que eu encontre um caminho de me sentir ainda melhor, que eu certamente vou seguir.
Mas eu já não me preocupo tanto com a exatidão do que será e sim com o benefício do que está sendo.

Espero que esteja muitíssimo bem.
Feliz Ano Novo!

Obs: Desisti do meu pseudônimo, já passou muito tempo e eu não acho que ele seja capaz de me representar. Estou fazendo um sacrifício muito grande tentando descobrir quem sou para me esconder atrás de uma outra pessoa.

Abraços,

Monique










terça-feira, 26 de dezembro de 2017

(In)dependência

Ato de pender de um lado ao outro buscando aceitação.
Negação dos próprios anseios e intuições a fim de garantir a coerência com as expectativas alheias.
Não se ser.
Mudar-se.
Abafar interiormente seus ímpetos em prol do bom julgamento alheio.
Mentir.
Mentir-se.
Despir-se de si.
Vestir-se de outra.
Tomar para si remédios a base de outrém.
Expelir fragmentos de essência paulatinamente.
Decompor-se em variadas espécies independentes entre si.
Desconectar-se visando a compreensão.
Desoriginalizar-se.
Dissolver as ligações das cadeias de sentidos.
Infectar-se do externo.
Nutrir pavor pela existência própria.
Usar sistemas de medidas de terceiros.
Esvair-se.
Perder-se.
Enxergar-se na projeção.
Desconcretizar o que existe.
Negar.
Negar.
Negar.
Buscar insistentemente.
Permanecer cega diante do exposto.
Fratura exposta da alma.
Negar.
Buscar.
Pender.

Semente


Dez horas da noite sonho
Te imagino em meu corpo, fantasio teu jeito, crio teu cheiro
Três horas da manhã pesadelo
Pressinto tua falta, temo tua ausência, adianto tua perda
Não sinto

Me apego à esperanças que não tenho
E planto dentro de mim um ponto de ti, que já partiu
Fertilizo meu peito
Oxigeno meu sangue
Mas não floresces

Espero angustiada o desfecho do pesadelo
Podando qualquer sonho que me impeça de enxergar o fim
Mesmo fértil me torno terra que não gera
Aguardando semente que já não existe em mim.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O último livro

Aos 22 anos finalmente escolhi um presente para dar para ele no dia dos pais.
Não que eu nunca tenha dado um presente, mas só quando era criança e aí não tinha dinheiro nem iniciativa para sair do comum: meia, cueca, camisa. Depois que fui crescendo não passamos dias dos pais próximos. No máximo uma ligação, uma felicitação meio sem graça, de praxe. Algo mais para dizer que eu ainda lembrava dele. Mas nada que chegasse ao ponto de dizer o quanto no fundo do meu coração gostaria que ele estivesse por perto.

Sempre gostei de ler e como não conhecia tão bem os gostos do meu pai resolvi surpreender. Na verdade eu acredito que livros sejam um presente maravilhoso, pelo menos pra mim. E dar algo que eu gostasse muito talvez tenha sido um jeito, na minha falta de jeito, de dar algo especial.
Não sabia qual escolher. Não fazia a menor ideia se ele também gostava de antropologia ou essas coisas de política como eu. Sobre Candomblé ele daria aula, não achei que nada pudesse chegar ao ponto de lhe parecer interessante. Gostaria ele dos meus assuntos de preto? Romance tenho certeza que não. Confesso que eu não entendia bem o que era romance e suas possibilidades incríveis até pouco tempo, quando li Um Defeito de Cor, e naquela época eu ligava romance a coisas chatas, que eu não gostava e ele certamente também não. Mas acima de assuntos interessantes, queria algo que ele lesse e lembrasse de mim de alguma forma. Algo que falasse da relação que quase não tínhamos vivido de pai e filha.

Comprei um livro que falava de paternidade através de diversas crônicas. Eu sempre adorei crônicas. Talvez os livros de literatura trabalhados na escola particular onde fui bolsista no primário tenham tido uma influência definitiva na minha vida. Ainda me lembro do livro de Fernando Sabino, que algumas mães acharam inapropriados, a maioria de meus colegas achou chato ou não entendeu e eu simplesmente adorei. Esse não era de crônicas, "Um corpo de Mulher". Denso, intenso, melancólico, fascinante. Lembro vagamente a história, mas lembro de todas essas conclusões que tirei por volta dos 10 ou 12 anos de idade. Bem, comprei um livro de crônicas.

Na loja pedi um papel de presente e a moça colocou um daqueles envelopes prateados com um laço. Colocou também uma etiqueta da livraria com "de" e "para". Não me lembro porque fui com pressa. Talvez porque eu tenha uma certa dificuldade com horários, talvez porque a rotina daquele mês de visitas aos finais de semana já estivesse me deixado confortável para não me programar tão bem. Cheguei no hospital no horário de visitas e tive que dividir o tempo com outros familiares. Eu sempre preferia ficar por último e acho que ele também. Com toda modéstia, a melhor parte vem sempre no final.

Entreguei o presente e quando ele abriu tive uma surpresa. Os olhos surpresos e a voz agradecida, tão sem jeito quanto a que eu herdei, me disseram que esse era um ótimo presente. Me confessou logo em seguida que não aguentava mais ganhar bonés. Eu entendo a questão dos bonés: depois de uma época meu pai sempre se manteve careca, uma careca brilhante, bem preta, perfeita. Andava muito de boné, mas não significa que precisasse ganhar sempre. Enfim, o presente foi um sucesso e eu percebi que não importava o título, mas sim que para ele livros também eram presentes maravilhosos.

Muita coisa eu refleti sobre o racismo e homens pretos através da figura do meu pai: ausente na maior parte da minha vida, mas presente de uma forma tão intensa e verdadeira durante um pequeno intervalo de tempo. Lembrei esse episódio do livro hoje, na mesma semana que perguntei pra um aluno da escola onde trabalho se ele já tinha lido Machado de Assis e ele disse que não sabia nem o que era isso. Não que eu seja das mais tradicionais e muito menos que eu tenha muita atração pelos clássicos. Mas me incomoda como nossos meninos não lêem e como não se apossam desse poder, como não se dão o direito de ocupar essa condição de leitor. Disse para uns outros alunos também como mensagem antes da formatura que lessem, mesmo que não gostassem, porque somente a leitura nos torna independentes na construção do nosso conhecimento, mesmo quando tentarem mentir para nós e nos dizer o que é certo. Espero que realmente tenham acreditado em mim.

Talvez o que tentassem fazer com meu pai muitas vezes fosse mantê-lo no estereótipo do homem negro, malandro, mulherengo e dos "desenrolos". Mas puxando na memória os breves contatos que tivemos na minha infância comecei a descobrir alguém obstinado, inteligente, ambicioso. A primeira pessoa que me apresentou um computador - e uso a senha que ele me confiou até hoje para a maioria das minhas coisas -, desenhar no Paint, que mundo incrível! Quem me ensinou a dar comida de colher para uma cabra e me disse que não podia ter medo dela. Embora hoje eu saiba que não faz o menor sentido dar comida para uma cabra de colher, trato muito bem todos os animais, os que tenho e os que convivo - E adoro os cabritos. Quem teve o orgulho de me dizer que cursou períodos de Direito e que iria terminar, assim que desse. Quem no meu primeiro dia de visitas no hospital eu encontrei com apostilas, estudando para um concurso público.

Aquele tempo no hospital me fez conhecer o homem que tinha me colocado no mundo. Meus outros 50%. Que na verdade eu preciso admitir que é muito mais do que isso. Se minha mãe formou meu caráter e me deu as condições de me desenvolver e me tornar a mulher que eu sou, meu pai, com todo o mistério da ancestralidade plantou em mim sua personalidade, sua essência. Talvez por isso a grande paixão que eu sempre tenha tido por ele, mesmo quando eu não queria ou quando eu fingia não ter.

O tempo seguinte passou muito rápido, pouco mais de um mês. Tivemos pouco encontros depois e ele me disse que estava lendo o livro e que tinha gostado. Fiquei me sentindo tão certeira quando Michael Jordan.

Coisas ruins aconteceram, pessoas ruins interferiram e eu não pude me despedir do meu pai.
Não o vi na sua última semana de vida e não sabia da sua piora. O dia que resolvi forçar uma visita e encarar a pessoa horrível que nos afastou já era tarde demais. Encontrei meu pai numa sala gelada, dentro de um saco preto, dentro de uma gaveta. Os piores 30 segundos da minha vida.

Cuidei de tudo agradecendo aos orixás por ter um emprego que me desse um seguro pra essas coisas, porque eu não teria a menor ideia do que fazer. Não me lembro bem como o livro parou nas minhas mãos. Gostaria também de não lembrar daquele saco preto, mas não consigo ter essa sorte.
Foi a única coisa dele que eu peguei e apenas guardei o livro na minha estante e durante mais de um ano não tive coragem de mexer nele.
Quando tive coragem de mexer no livro percebi que meu pai tinha tirado a etiqueta do embrulho e colado na contracapa. Ele mesmo escreveu meu nome na parte do "de" e o nome dele na parte do "para". Ainda não consigo me lembrar porque estava com tanta pressa no dia da compra a ponto de eu mesma não ter feito isso. Dentro do livro havia também uma página inicial para dedicatória com o título " Pai, por que você é importante para mim:", onde ele mesmo escreveu "Esta obra pertence a Francinei dos Santos Eleotério - 12/08/2012. P/ Monique Britto Eleotério".

Duas vezes ele escreveu que eu tinha lhe dado o livro. E ele realmente estava lendo, pois tinham panfletos dentro, página marcada.
Eu sabia que tinha acertado, mas não tinha ideia do quanto ele realmente tinha gostado daquilo. Fico imaginando se foi porque ele sabia que era a primeira vez que eu comprava algo pra ele e que por isso demonstrava me importar. Ou se era porque eu, ao contrário de muitas pessoas, o tinha enxergado como alguém que lesse, reconhecendo sua inteligência e seu gosto pelo conhecimento.
Fico pensando no quanto ele pode ter se orgulhado de ter ganho um livro da filha ao ponto de querer registrar isso, duas vezes.

Quando me senti preparada comecei a ler o livro e sinceramente não gostei. Achei chato. E acho que provavelmente ele também tenha achado. Mas talvez, da mesma forma que eu hoje, ele tenha insistido em ler porque era uma coisa entre nós.

Consegui me perdoar por não ter conseguido me despedir a tempo. Mas ainda não me perdoo por não ter escrito a dedicatória do livro. Eu provavelmente não saberia o que escrever na época, mas podia ter colocado um trecho daquela música do Exaltassamba que aprendemos juntos quando eu era criança.

Nunca deixem de escrever uma dedicatória.
































sábado, 11 de novembro de 2017

"Amor, tá levando a identidade?"


Acabei de assistir a 13ª Emenda e ia fazer um post sobre o documentário, mas o Dani foi comprar pão e tive que interromper meu raciocínio.

Sempre que meu marido sai de casa faço a mesma pergunta "tá levando a identidade?". Sei que é normal que mães digam essa frase. Principalmente mães de jovens pretas/os e pobres. Mas eu sou apenas uma companheira de 27 anos, ainda sem filhos.
Bom, você pode me dizer: você é muito maternal. Mas não se trata disso.

Durante o período de escravidão pessoas pretas precisavam de documentos concedidos por seus donos (eu prefiro o termo sequestradoras/es ou exploradoras/es) para poder andar pelas ruas sem supervisão. Após a "abolição" para não se enquadrar nos crimes de vadiagem era preciso que se apresentasse algo que equivalesse a uma carteira de trabalho. Esses são só exemplos bem superficiais de como a documentação passou a funcionar como um passe obrigatório para que nós pretas/os possamos circular nas ruas. Principalmente sob a ótica de garantir com que estejamos sempre sob controle e supervisão.

Você vai me dizer que toda pessoa hoje sai com documentos e se preocupa com isso. Mas a grande questão é que nós pretas e pretos temos um objetivo principal com isso que é não ser presa/o.

Fato, que existirá aquele jovem , negro, bem sucedido que dirá que nunca foi parado pela polícia em seu carro e aquela preta que foi bem tratada pela PM ao sair da boate da zona sul com as amigas brancas. Mas honestamente eu não tenho energia para explicar o óbvio às exceções.

Ao fazer todos os dias ao meu marido a pergunta "você está levando a identidade" eu repito para mim e para ele que ele é preto nessa sociedade racista e por isso precisa sempre tentar se proteger. Eu repito para ele também que me sinto tão ameaçada quanto ele nessa sociedade e que portanto compreendo como ele se sente. Repito para ele que somos iguais e por isso quero protegê-lo.

Quando falo da importância de valorizarmos as relações entre nós é pelo simples fato de que apenas entre nós é possível compartilhar plena e organicamente nossos sentimentos e vivências.

Você pode me dizer que qualquer mulher de outra raça pode saber que seu companheiro é preto e se preocupar com isso. Mas ela nunca poderá compartilhar seu medo e compreender sua dor. Ela nunca sentirá o nó na garganta que ter que abaixar a cabeça e falar "não senhor" para não morrer causa. Ela nunca sentirá o peso ancestral de séculos de injustiça e violência e nunca poderá ajudá-lo a carregar esse peso. Ela nunca poderá segurar sua mão e lhe ajudar a erguer os ombros para continuar caminhando, pois não é puxada pelas mesmas forças que tentam dragar sua resistência.
E o mesmo se aplica a nós, pretas, que talvez sejamos até mais sugadas energeticamente em relacionamentos com homens de outras etnias, absorvidas ao ponto de venerá-los como "redentores" impossíveis de serem julgados.

Ao refazer todos os dias a pergunta "você está levando a identidade", reafirmo meu compromisso enquanto mulher preta de construir uma relação preta de resistência nessa sociedade. Uma relação que sim, deve ter muita alegria, muito amor e bons momentos. Mas uma relação que acima de tudo deve sobreviver e resistir. Que em um futuro possamos focar apenas no amor.







terça-feira, 7 de novembro de 2017

Quando a força se torna fraqueza


Recentemente tenho pensado muito sobre os caminhos que percorri até agora. Não esse mês, não esse ano, mas ao longo de toda a vida.
Talvez já esteja entrando na depressão das festas de final de ano. Talvez só esteja mesmo fazendo um esforço pra relembrar quem eu fui, como me tornei quem eu sou agora e quem eu serei daqui a um tempo.




Bem, o fato é que me deparei pensando em uma série de grandes projetos inacabados e comecei a me perguntar o porque desses abandonos. A primeira resposta foi "Ah, porque eu sou de Áries e ariana se desapaixona com a mesma facilidade com que troca de roupa". Mas, embora uma ariana quase clássica (impedida apenas pelo meu ascendente em touro), eu não sou tão crédula em astrologia e essa resposta não foi suficiente para aquietar minha agonia.

Pensei mais um pouco e uma sensação de frustração foi tomando conta de mim e cada vez mais a pergunta "Mas por que foi que eu fiz isso" aparecia na minha mente sobre diversos assuntos e momentos diferentes. Não espere que no final desse texto eu diga que encontrei as respostas e fiquei satisfeita, porque isso não aconteceu. O que aconteceu foi que aquietei o coração e me dei conta de que se algo que é do passado não pode ser lembrado como aprendizado e abala nossa paz deve permanecer lá pelo tempo necessário até que possa ser digerido com tranquilidade pelo nosso espírito. Não vale a pena gastar tempo remoendo algo que ainda não temos maturidade e sabedoria para superar e compreender.

Mas sobre o que já posso compreender e relembrar com certa tranquilidade, uma coisa me chamou a atenção: os momentos em que minha força se tornou também minha fraqueza.
Percebi que em diversos momentos, fiz escolhas contando com uma força inabalável que eu acreditava ter. Tomei decisões acreditando que o sucesso da empreitada dependia apenas de mim, da minha dedicação, força de vontade e foco. Tentei seguir em frente muitas vezes sem olhar pra mim mesma e para as minhas limitações. Ao mesmo tempo, quando intuitivamente percebia que elas iriam se sobrepor a minha vontade eu girava o curso da vida para outro rumo, fazendo novas escolhas e buscando novas oportunidades. Contando com a mesma força inabalável e a mesma pessoa inatingível que eu acreditava ser. Um ideal de força que consistia em sempre tentar e negar qualquer possibilidade de "não conseguir", mesmo que isso significasse deixar algo inacabado pelo medo da triste realidade do fracasso vir à tona.

Um pouco confuso, eu sei. Mas o que quero dizer é que me chamou a atenção a quantidade de vezes na vida em que fui irresponsável com minhas possibilidades de fracasso. Não, isso não significa que não medi falhas e não pesei bem riscos. Isso significa que muita vezes me negligenciei enquanto pessoa que pode falhar, ou que pode não conseguir. Isso significa que não me dei tempo de vivenciar a derrota e já fui logo me embrenhando em novas tentativas e possibilidades, que pareciam mais atraentes quando as anteriores davam ares de não correr exatamente como o planejado.

E aí você pode me dizer: Mas isso é positivo, você não desanima, corre atrás.

Tive um professor que dizia que não devemos correr atrás e sim na frente (Não acho que leia esse tipo de coisa doida, mas um beijo pro senhor, Seu Luís!). E além de concordar com isso, ainda acrescento que se sempre corremos muito atrás de algo não conseguimos ver o que está adiante disso e principalmente não conseguimos simplesmente parar e observar o que está ao nosso redor.
A questão é que se nos jogamos desenfreadamente em coisas que podem dar certo, sem aguardar até que realmente deêm certo ou não, perdemos a possibilidade de saber o que nos aguarda adiante, o que realmente aquela oportunidade tem a nos oferecer.
Não se tratar de bancar o comandante do Titanic e afundar em atrássem futuro. Mas apenas de assim como as aves, sobrevoar novos horizontes sabendo que precisará pousar para fazer seu ninho.
Se trata de ir, mas ir até o final e principalmente de se dar o privilégio de fracassar algumas vezes.
Se nos achamos fortes demais ao ponto de não querer olhar nossos fracassos e dificuldades, ao ponto de não conseguir dizer "eu não consigo dessa forma" ou "eu não estou pronta para isso", nos tornamos cada vez mais frágeis.

A força forjada de fora para dentro se torna fraqueza no momento em que nos impede de olhar as fissuras de nossa alma, nos deixando assim sem ter como preenchê-las. Uma força falsa, que cansa, desmotiva, suga e enfraquece a cada nova empreitada em que não podemos falhar.

Bem, como eu disse, não achei resposta, mas o coração fica mais tranquilo e a sensação de ter coisas inacabadas menor.
Se não as completei nas devidas épocas, finalmente agora começo a dar um fim ao que me impedia de encerrá-las.
Começo a me sentir menos forte e consequentemente menos fraca para poder olhar para trás e entender o que realmente significaram, se tiveram importância, se merecem ser retomadas, se não foram nada demais, se eu realmente consegui, se não consigo, se quero ou se posso retomar algum projeto.
E se for escrever novos projetos que sejam porque os antigos não me servem mais e não porque me assustam.