segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Não existe solidão da mulher negra.

Não existe solidão da mulher negra. (tá virando um mantra)
O que existe é um povo alienado de seus valores e cultura, que foi sequestrado pra uma sociedade doentia que pra começar nem sabe se relacionar afetivamente, provavelmente por que se desenvolveu em regiões de clima e natureza mais "hostis".
O que existe são mulheres e homens pretas/os que não se enxergam como seres maravilhosos, ricos e iluminados que são por essência e carregam um sentimento de culpa e uma necessidade de "melhorar" sempre, impostos ao longo de séculos nas nossas consciências por assassinos e estupradores racistas e dominadores.
O que existe são pretas e pretos que foram socialmente adestrados para ver no outro alguém indigno de respeito e confiança. E isso é mútuo e no mesmo pé de igualdade, só se desenvolve de formas diferentes pelas diferenças que essa cultura eurocêntrica impõe a mulheres e homens.
Como qualquer mulher nessa sociedade, que tem o machismo como uma de suas bases, eu já fui muito assediada. Por homens brancos e pretos, sim. Mas homens pretos nunca me chamaram pra fazer programa enquanto eu lanchava depois do trabalho, ou enquanto estava parada com uma amiga na pedra do sal. Homens pretos nunca colocaram uma nota de 50 reais na minha mesa e se acharam no direito de passar a mão em mim. Homens pretos nunca tentaram me abordar enquanto eu estava andando na rua com minha cahorrinha e tinha uns 9, 10 anos, sei lá. Homens pretos nunca se aproveitaram do fato de eu cochilar num onibus de viagem pra se masturbar do meu lado. Homens pretos nunca me sarraram no ônibus. Homens pretos nunca fingiram incentivar um trabalho artístico pra depois cobrar "consideração". Homens pretos nunca tentaram me forçar a transar sem camisinha ao ponto de eu ter que agredí-lo e ir embora. Todas essas situações e algumas outras, que eu ainda prefiro não falar, aconteceram com homens brancos, no exercício de seu poder de homem branco sobre uma mulher preta.
Homens pretos foram os maiores parceiros que eu encontrei ao longo da minha vida. Os caras mais batalhadores, mais amorosos, mais fraternais. Foram os caras que me apoiaram, que me deram colo, que me ouviram. Foram os homens que mesmo sem nada dessas firulas de militância da boca pra fora me trataram como rainha. Foram os homens pretos que me ajudaram quando passei mal na rua. Foram os homens pretos que interromperam o trabalho no ônibus e me deixaram na porta de casa quando eu fui dopada com boa cinderela na balada. Foram os homens pretos que me perguntaram o que tinha contecido pra eu levantar assustada do onibus de viagem e falaram "senta aqui do lado menina, tá tudo bem?". Foram os homens pretos que me ensinaram o que é amor e que a gente pode sim confiar num parceiro, mesmo que não dure pra sempre. Foram os homens pretos que me mostraram que você pode ficar longe da sua filha durante anos e que a sociedade vai fazer de tudo pra te mostrar como um safado mal caráter, mas que quando vocês tocarem um samba juntos uma magia vai acontecer e tudo, tudo mesmo vai ser explicado e vocês serão suas maiores paixões por toda a eternidade, por todas as eras. Foram os homens pretos que me ensinaram que professores pretos, por mais conservadores que sejam, sempre vão te cobrar mais quando você for preta, porque no fundo ele quer que com você seja diferente. Foram homens pretos que me disseram que candomblé é candomblé e que semana santa é outra coisa, portanto os biricuticos não tem nada a ver com isso. Foram os homens pretos que me acalmaram de madrugada quando eu estava em crise de ansiedade. Foram homens pretos que carregaram o caixão do meu pai e cantaram e rezaram e me ensinaram o que é respeito e amizade sincera. Foram homens pretos que me contaram histórias de amor e que me mostraram olhando nos meus olhos que eles também são humilhados, desrespeitados, subestimados e usados. Foram homens pretos que me falaram de ser pai, de ter suas casinhas e de que mesmo com um sacríficio, tem que levar as crianças num parque de vez enquando.
Ao longo do caminho esses homens pretos encontraram mulheres pretas e muitos continuaram com elas. Em outros casos eles procuravam sim mulheres brancas, por que queriam se sentir importantes e dignos. Muitas vezes uma mulher branca ao tratar seu homem como preto, como ela sempre sabe que ele é, faz com que ele se sinta especial. "Meu preto é ótimo, é trabalhador, é bom de cama, é um excelente pai.." Não num sentido de valorizar sua raça, mas sim porque é preciso sempre relembrar as qualidades de um homem preto, pra justificar o fato de estar com ele, pode até ser "inconsciente", mas é obrigatoriamente verdade que essa necessidade existe.
Esses foram exemplinhos simples e básicos de como essa história de mulher preta culpabilizar homem preto e se colocar como um pontinho isolado de opressão não tem o menor fundamento e nem embasamento empírico (na prática/realidade não se sustenta). Homens pretos não são opressores em potencial, não tem privilégio nenhum nessa sociedade e muito menos são insensíveis à vida e luta das mulheres pretas.
O fato é que nós, pretas e pretos, fomos/somos agredidas/os e inferiorizadas/os ao longo da história. Colocadas/os umas contra os outros e vice-versa. E isso é justamente para destruir nossa afetivade e uma de nossas armas mais fortes de resitência, a união. NÓS nos agredimos. NÓS nos abandonamos. NÓS nos viramos as costas. De várias formas diferentes..
Mas NÓS somos sim uma responsabilidade nossa se realmente quisermos lutar pela nossa liberdade.
"Enquanto acreditarmos que o fato de ser um tijolo já significa ser a base nunca construiremos nada."

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

NÃO PEGUE A PISTA SELETIVA

Nos últimos dias, tive vários exemplos da seletividade da "moral" e da comoção das pessoas. Não vou ser agressiva dessa vez, prometo, então pense comigo.

Fato que quando alguém morre na favela a desculpa é que é bandido, ou quase bandido, ou tinha bandido na família, ou andava com o espírito de um bandido encostado, enfim, de alguma forma estava errado.
Descobrem se o cara cometeu qualquer delito nas últimas três encarnações. Essas informações são fuçadas, ou inventadas.
Quando morre um empresário, um médico ou um playboy qualquer ninguém nunca olha a ficha. Não importa, se já roubou, se já matou, se era agressor, se vendia drogas "de boas" no AP na zona sul, a rapaziada/mulherada é vítima.
Aí você vai me dizer, "Monique você está sendo leviana, as minas/os caras morreram."
Vamos à segunda reflexão: o fato de você ficar horrorizada/o com aquela ou aquele amiga/o do "movimento negro" que posta coisas sobre racismo. Afinal ela ou ele são muito agressivos, muito radicais, magoam as pessoas com suas opiniões insensíveis. Pois bem, pense em quantas vezes você recriminou essa amiga ou esse amigo, porque afinal não dava pra não comentar aquele post tão absurdo? Agora pense quantas vezes você recriminou o seu amigo ou sua amiga que postou que pessoas deveriam ser mortas ou espancadas (ignorando que temos um sistema penal), que mulheres deveriam ser estupradas, ou que esse ou aquele tipo de comportamento tira os direitos de alguém. Deu vergonha né? Essa galera você simplesmente ignora porque não concorda, mas não leva a mal, afinal eles não te incomodam.

Eu poderia falar mais sobre a criminalização das vítimas e das/dos militantes. De como isso faz parte de um sistema cruel de silenciamento e violência. Afinal essas questões, sobretudo a primeira, merecem ser desenvolvidas com muito respeito, atenção e profundidade.

Mas por hoje deixo essas duas provocações e pergunta:

Eu sei que o caminho é mais fácil e mais rápido, mas bora da sair da seletiva?

domingo, 23 de agosto de 2015

O reinado dentro de todos nós


Quadra da Império Serrano. Disputa de sambas. Semi-final.
Mesmo com um dia especial de eventos, a essência se mantém e certos hábitos se repetem. Um dos mais característicos e marcantes é a vivência dos reinados individuais. Talvez, vistas a olho nu sejam apenas cenas particulares, momentos de pessoas sozinhas. Mas passando levemente um filtro preto no olhar, percebemos que todos têm algo em comum.

Sempre vejo pessoas sambando sozinhas no meio da quadra, no meio de todos. Podem até estar acompanhadas, mas sambam sozinhas.Uma espécie de êxtase que envolve os corpos e liberta mentes por alguns instantes. A maioria de nós, pode inicialmente julgar certa falta de técnica aqui, certo excesso de requebrado ali, uma interpretação da música muito emocionada acolá. Na verdade, em geral rimos. Achamos engraçado aqueles e aquelas que se apresentam sem serem convidados, que fecham os olhos e sentem a música e que simplesmente evoluem com a certeza de que estão fazendo seu melhor e portanto sem se preocupar em fazer isso.

A verdade é que nós, meras e meros mortais, presos à convenções e necessidades de fazer bonito, muito nos incomodamos com toda essa liberdade e desprezo pelo julgamento alheio. Num arroubo de honestidade algumas vezes intercalamos ente deboches e recalques certas exclamações de admiração e respeito pelo menos pela coragem alheia. Já é um grande passo. Mas ainda é muito pouco.
O samba enquanto dança preta – única e exclusivamente preta – tem um certo dom de libertar o reinado que existe dentro de todos nós. Extravasamos, relaxamos, nos divertimos. Mas acima de tudo, exercemos nossas realezas particulares.

Quando vejo uma senhora com seus sessenta e poucos anos na frente da roda de samba, vejo nela uma rainha. Ela não se preocupa neste momento com a conta da luz ou com a dor nas costas. Por um segundo a dor do filho preso ou o medo do neto morto se aquieta em respeito a alegria. Por alguns instantes ela pensa que o remédio para a pressão, que não tem dinheiro para comprar, não lhe fará falta. Olho para ela e a vejo simplesmente sambando, forte, altiva, determinada em ser. Ela não tem medo dos olhares de repreensão, muito menos das opiniões sobre seu corpo. Se o ritmo de seus passos não é o mais apropriado tecnicamente, é o melhor pro compasso de seu peito. Ela está totalmente livre naqueles instantes e isso, para mim, é reinar.

Quando olho um homem que tem sua roupa especial de todo sábado, que dança sozinho e dança e dança e sorri, vejo nele um rei. Ele não tem espaço para se preocupar ou para ouvir qualquer outro. É nítido que o samba além de ondas sonoras pelo ar, corre nas suas veias e liberta uma alma que nunca ficará presa novamente. Ele dança, ele sorri e eu tenho a nítida impressão de que talvez ele simplesmente se apagará quando deixar a quadra e só voltará a existir no próximo samba. E como eu invejaria alguém tem o dom de só existir quando quer e onde quer. E se ele pode definir quando existe, o que lhe importa e quem chega até ele, para mim, ele também sabe reinar.
Admiro a competência desses e de muitos outro personagens que pegam nas mãos sua essência e jogam pro alto deixando ela cair em suas cabeças e se espalhar no tempo.

Espero que algum dia, resgatemos nos nossos olhares a simplicidade das danças de batuque, que mesmo com passos marcados, com ritmos definidos, dão liberdades aos nossos corpos e nos permitem cultuá-los com alegria. Que possamos passar o filtro preto na lente de nossos olhares e esquecer os julgamentos, deixar de lado as técnicas e avaliações, os moralismos e concorrências e que possamos olhar os nossos e vê-los lindos como são. Espero que peguemos de volta nosso samba, nosso orgulho de nós mesmos e nosso carinho por todos nós. Que larguemos de lado esses julgamentos que não são nossos e simplesmente voltemos a apreciar a alegria e o espírito do outro, no seu jeito, na sua unicidade, na sua realeza intrínseca. Que nós comportemos mais como reis e rainhas, que sejamos livres de verdade e que apreciemos com reverência e alegria a liberdade dos nossos.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Guardar

Não parei de escrever porque quis.
Tento e não consigo.
Já tentei algumas vezes nas últimas semanas.
Não sei se a decepção por ser execrada pelos que se diziam aliados.
Não sei se a impaciência de ser importunada pelos inimigos.
Não sei se o medo de tanto escrever e deixar escapar pelas mãos as minhas crenças.
Algo secou a tinta da caneta da minha alma.
Comecei a guardar e hoje me sinto mais escudo do que lança.
Observo, leio, ouço, vejo, sinto e finjo que não.
Guardar.
Aguardar.
Aguardar o momento certo é um desafio.
Os momentos errados e as falsas batalhas são tão fascinantes.
Eles nos dão a sensação de que estamos acontecendo, de sermos reais.
Mas ser real não é ser verdade e acontecer não é necessariamente existir.
Guardar.
Aguardar.
Dissimular.
Reagir.
Guardar.
Aguardar.
Reagir.

domingo, 31 de maio de 2015

Não quero

Não quero.
Não por hoje e talvez por amanhã também.
Contento-me com o não querer pacífico, tranquilo.
Detenho-me nessa ausência de vontade, nessa falta de anseio.

Estou bem assim.
Por mais que me questionem, me respondi a tempos.
Tenho guardadas as respostas que ainda não li.
Mas que já passam a agunia das perguntas que não são minhas.

Faço o nada.
Satisfaço-me no inexistente presente em mim.
Vejo melhor pela transparência do vazio que me ocupa.
Contemplo a mim e ao meu nada.

Não quero.
Agradeço, mas deixe-me na quietude do meu não.
Na amplitude de minha restrição
No sagrado templo da minha descrença.

E assim, quem sabe um dia, de tanta calmaria mar se revolte
De tanto sol o tempo de feche
De tanto ar a respiração falte

Quem sabe um dia
Mas hoje não quero.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Homens negros e o mito do privilégio na segregação do povo negro

Depois de algum tempo sem escrever resolvi falar sobre algo que para mim é muito importante e urgente. Entendo que uma parte das mulheres negras que me lêem vão querer parar depois da próxima frase, mas convido-as a fazer um esforço para vencer os gatilhos de aversão e desprezo e irem até o final. Hoje eu preciso falar sobre os homens negros.


Minha trajetória de militância é extremamente recente, cerca de dois anos, mas a primeira e mais marcante questão foi: “por que preciso escolher entre ser mulher e ser negra?”. E pensei nela com as palvaras nessa ordem, provavelmente porque na vida primeiro eu soube que era mulher e muito, mas muito depois eu soube que era negra. Mas a solução apareceu de uma forma prática e muito clara no feminismo negro, que me disse que sou uma mulher negra, ainda nessa ordem, mas adicionando palavras como especificidade, particularidade e interseccionalidade. Eu fazia então parte de um “grupo social” que é único, separado e por isso não teria possibilidade de dialogar com outros, pois todos seriam naturalmente seus opressores. Supostamente.
Mas eu falei que iria falar sobre homens negros. Tempos atrás eu percebi que tinha medo de homens negros, medo que não acontecia de uma forma ampla e explícita, por eu já ser supostamente um pouco “liberta” do senso comum. Percebi esse medo numa situação simples: eu me sentia confiante e disposta para o debate com mulheres brancas, com homens brancos e com mulheres negras, mas não com homens negros. Eu, que sempre participei de ferrenhas discussões pela internet sem me preocupar com segurança, evitava debater com homens negros pois lembrava que poderia ser perigoso. Eu ouvia dos homens negros as mesmas palavras que ouvia dos homens brancos, mas via nos homens negros um tom absurdamente violento. Eu enxergava os homens negros “naturalmente” como mais perigosos e agressivos e no meu caso, esse foi o ponto de partida para começar a pensar politicamente minha relação com eles.

Não era coincidência e muito menos verdade a idéia de ver nos negros um perfil mais violento e agressivo, um instinto bestial. Sabemos todas e todos que isso foi construído ao longo da história racista da sociedade em que vivemos. Assim como sabemos que separar famílias negras era uma das estratégias mais básicas, óbvias e cruéis para dominação de negras e negros escravizados. Hoje teoricamente não somos mais escravizadas/os, mas as estratégias de dominação e separação continuam vivas e atuantes. Não nos identificamos como iguais, ao contrário, somos incentivadas/os ao ódio, incentivo que acontece através das guerras de facções, da manipulação por teorias religiosas e hoje, notavelmente pela segregação e oposição proporcionada por pensamentos políticos eurocêntricos. Uma onda de militantes negras que odeiam militantes negros cresce a cada dia.

Como eu disse antes, supostamente me identificava em um grupo de militância que entendia não ser contemplado em nenhum outro. Diante disso, o diálogo com o movimento negro - uso o termo para os movimentos/organizações negros de uma forma geral – era apresentado como desnecessário em vistas de um movimento considerado machista. A questão é que o feminismo negro dialoga com o feminismo branco (racista), dialoga com partidos de esquerda (racistas e machistas) e dialoga com o marxismo (racista e machista), além de outros com as mesmas “peculiaridades”. Nesses casos é percebida a necessidade de ocupação dos espaços, de diálogo e de contribuição no processo de “desconstrução” dos opressores. A grande questão é: não é no mínimo estranho que o movimento negro seja um espaço considerado perdido, abandonado, defasado e impossível enquanto todos os outros são no mínimo considerados espaços de disputa? Não é estranho, é um desdobramento do racismo: dos relacionamentos até a construção política, aprendemos que os homens negros são um caso perdido e não valem à pena.

Enquanto nos basearmos em teorias eurocêntricas seremos sempre levadas a reprodução e legitimação do racismo. É duro assumir, é duro ouvir, mas não há outra resposta e não adianta por a palavra “negro” no final pra resolver o problema. Enquanto nutrirmos uma visão de mundo branca seremos incapazes de lutar por uma real libertação enquanto negras. É impossível lutar contra o racismo através de uma rivalidade de gênero que é uma necessidade e uma criação eurocêntrica. Quando falamos de patriarcado, estamos cientes de que o homem é entendido como pilar principal nesse tipo de sociedade, como referência e como base estruturante. Sob esse prisma, não por acaso uma das estratégias do racismo é neutralizar o homem negro seja o deslegitimando, invisibilizando, criminalizando ou matando. Tornar os homens negros inimigos ou simplesmente invisíveis tem sido um bom negócio. E infelizmente a militância feminina vêm sendo usada nesse processo. Sendo através da contribuição para um ideário de violência sobre os homens negros ou através de lutas por políticas públicas exclusivamente com recorte de gênero servimos como base limitadora para uma luta que não é nociva a estrutura racista em que vivemos.

É óbvio e repetitivo dizer que homens negros são os que mais morrem. Mas esse é um dado básico, irrefutável e portanto é bom que esteja aqui para sabermos que a tal pirâmide de opressões é uma falácia. Mas para além dos dados, os argumentos subjetivos – muito usados na legitimação dos movimentos atuais – também não se sustentam para a construção da “rivalidade” entre negras e negros. Auto-estima, relacionamentos amorosos, inserção política e acadêmica, mercado de trabalho e saúde são questões muito caras à negras e negros, não de forma maior ou menor, mais diferente. Vejamos indicadores sobre dependência química, inserção universitária, abandono e segurança pública por exemplo. Na saúde pensemos nos dados e pautas sobre a saúde do homem negro, que são quase nenhum. Exercitemos o suposto pensamento crítico de que dispomos para analisar qual seria o real privilégio que um homem negro dispõe por ser homem. A violência praticada contra a mulher pelo homem negro não é legitimada pelo pensamento social, é encarcerada. A superioridade nos relacionamentos exemplificada pela infidelidade, por exemplo, gera abandono e desestruturação familiar. As melhores inserções no mercado de trabalho se dão em campos predominantemente tecnológicos e executivos, o que os afasta dos espaços de intelectualidade ligados ao pensamento social e filosófico. Poderia criar uma série de apontamentos, mas vou parar por aqui perguntando: Privilégios do homem negro ou estratégia racista de segregação do povo negro?

Quando falamos de machismo estamos nos referindo a uma construção social. Precisamos então lembrar que a atual organização da sociedade é baseada em valores brancos, eurocêntricos, assim como todos os seus desdobramentos e formas de violência, assim como as formas de luta e construções filosóficas que surgem dentro dela. Apenas retomando uma perspectiva de luta baseada em valores afrocentrados conseguiremos nos libertar das limitações e estranhamentos no que diz respeito aos nossos irmãos negros. Apenas entendendo que essas violências, essas opressões e esses valores não nos pertencem, não contemplam e não nos representam poderemos caminhar rumo a superação do racismo e das formas de exploração e violência exercidas sobre a mulher negra. Somente compreendendo e buscando conhecimento negro conseguiremos enegrecer nossas perspectivas sobre gênero de uma forma harmônica e satisfatória que não gere desdobramentos vazios, infundados e unicamente teóricos que só servem para causar mais segregação e dor. Unicamente resgatando nossa essência, filosofia e teoria negra conseguiremos nos enxergar como irmãs e irmãos e lutar como tais rumo a libertação.

domingo, 26 de abril de 2015

Vazio


Nos últimos dias vaguei mais do que de costume
Desviei mais
Procurei mais
Perdi mais tempo

Nos últimos dias falei menos que deveria
Briguei menos
Sorri menos
Fugi do vento

Hoje caminho tão cheia que me arrasto por entre as vielas das minhas idéias
Pesada, lenta
Sem espaço em mim para mais nada além do vazio
Vazio é coisa que preenche
Mas não mata a fome
É coisa que pesa
Mas não esquenta

Tô indo!
É criança chamando
Deve ser sede
Sede é coisa que eu gosto em criança
Criança tem sede de tudo
Eu já tive também
Mas a vida vai aguando a sede
Até que um dia a gente se contenta só com água
Sem cor, sem gosto
Só mesmo pra matar a sede

Nos últimos dias vaguei mais do que de costume e falei menos do que deveria
Mas é porque ando tão cheia desse vazio, que me arrasto devagar.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

As pretas que ouvi falar


Ah! Como eu queria ser dessas moças que eu ouço falar!
Me disseram de umas pretas pra dentro da cidade que andam vindo diferente.
Devem ter dinheiro, devem ter direito, devem bem ter feito algum trabalho pesado.
Ah! Como eu queria um cabelo arranjado.
Esses panos bem caros para andar por aí.
Aprender a dançar, fazer cena... cantar! Imagina?!
Escrever poema.
Me falaram que essas pretas são fortes, que mexem com coisa da África.
Eu bem que queria andar de avião.
Voar por cima do mar, daquele azul todo que eu levo três horas de ônibus pra ver de perto e não entrar.
Ah! Como eu queria ser igual essas pretas que eu ouvi falar!
Tudo moderna, mas meio às antigas
Que cabe em revista, que sabe dançar
Olhar todo mundo por cima
Ser rainha de um reino qualquer que não existe
Deixar as crianças correr, porque são filhos de rainha
Os filhos delas devem correr, devem ser fortes, não têm que ter medo
Ah! Como eu queria ser dessas pretas
Contaram que elas brigam e festejam e que assim o tempo passa
Falaram que trabalham duro e que lutam todo dia pra vida acontecer
Pensando aqui comigo, levo jeito pra coisa!
Vou botar as idéias numa trouxa
A coragem num carrinho
E me mandar pra dentro da cidade
Vou é sair dessa margem que deram
Eu vou ser igual a essas pretas que eu ouço falar
Só vou ajeitar aqui dois ou três sonhos e pegar um casaco.

domingo, 19 de abril de 2015

Racismo e subjetividade: pressões e silenciamento nas relações afetivas

Uma das formais mais sutis e cruéis de silenciamento do racismo são as pressões que nós, negras e negros sofremos dentro de nossas relações afetivas. Entendendo que pelo processo de miscigenação elencado a alienante crença do mito da democracia racial somos predominantemente inseridas/os em espaços raciais “relativamente” mistos, nossas relações afetivas são perpassadas por reproduções racistas o tempo inteiro.
Não me refiro a reproduções racistas na imagem popularmente mais violenta da expressão, mas sim nos seus aspectos mais refinados - que não significa menos cruéis.
Enquanto integrantes de núcleos familiares em geral interraciais, por exemplo, somos constantemente cobradas/os pela instituição família a abrir mão da luta por direitos em prol de laços de afetividade "superiores" as relações de desigualdade estabelecidas. Lutar e se posicionar politicamente é então percebido com um ato de traição a valores e sentimentos. Somos culpabilizadas/os por identificar o outro como ser social, que dispõe de privilégios de acordo com suas formas de inserção na sociedade, privilégios estes que não se extinguem no momento em que consideramos as relações familiares. Somos pressionadas/os a assumir sempre posicionamentos políticos subjetivos e relativizados, definindo pessoas as quais se apliquem e locais nos quais seja adequada sua exposição. Não recebemos apoio para uma luta real por direitos, porque ela implicaria dizer "você, mesmo tendo vínculos sanguíneos/afetivos comigo, não é igual a mim, dispõe de privilégios, é racista e precisa repensar e abrir mão de boa parte de seus valores".
Dentro das relações de amizade o processo se desenvolve de forma similar mesmo que não haja a existência de laços supostamente "indestrutíveis". Mas ao mesmo tempo em que não existem laços obrigatórios há uma ligação direta com a inserção em círculos sociais e portanto um papel fundamental na construção e manutenção de nossa autoestima. A rejeição por parte de amigas/amigos é um fator desestruturante na nossa construção social. E da mesma forma que nas relações familiares a cobrança por posturas relativistas que não visualizem o outro como ser social e portador de privilégios é freqüente.
As pressões que nós negras e negros sofremos dentro de relações mistas faz com que muitas vezes nos sintamos culpados por lutar por nossos direitos, traindo relacionamentos pessoais ou ferindo diretamente pessoas com quem nos relacionamos. Junto a isso, o julgamento moral, feito sob uma perspectiva falsamente igualitária, de nossas ações como desnecessárias, agressivas ou ingratas por exemplo, fundamenta uma rejeição a negras e negros que se posicionem de forma efetiva na luta contra o racismo e suas diversas formas de dominação.
Com base nessas reflexões, muito primárias sobre alguns aspectos de nossas relações pessoais, podemos entender que culpa e rejeição são fatores que passam a fazer parte constante das estratégias de silenciamento e neutralização que nós, negras e negros sofremos cotidianamente. Entender que o racismo, para além de ações pontuais constitui um sistema complexo de opressão que perpassa todos os níveis de construção social, indo dos espaços mais coletivos aos mais individuais, não é uma tarefa fácil e muito menos reconfortante, mas é fundamental para a desconstrução dos valores morais que o legitimam e reproduzem.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Uma rápida idéia sobre cotas

Para falar de cotas um dos primeiros passos é acabar com a idéia de que para estudar em uma universidade pública basta estudar.
Os vestibulares não são sistemas de avaliação efetivos, são simplesmente ferramentas de exclusão que separam e classificam pessoas de acordo com o conhecimento que conseguem decorar. Por mais elaboradas e integradas que sejam as questões, não é a capacidade de problematizar, interpretar ou propor soluções - fundamentais nas ciências humanas e exatas - que é avaliada, mas sim a quantidade de informações retidas.
Para reter informações, muito além de um potencial individual, são necessárias condições externas favoráveis: tempo para leitura e memorização, estabilidade no meio social que permita a dedicação a esse processo, rotina e também o desenvolvimento prévio de uma série de percepções que facilitam o processo de assimilação e que em geral são estimuladas através de uma educação que não é a disponibilizada no sistema público.
Podemos concluir que as pessoas aprovadas no vestibular não são necessariamente as mais inteligentes, mas sim as que conseguem compor um "perfil sócio-intelectual" pré-definido.
Existem muitas pessoas capacitadas de acordo com os parâmetros educacionais vigentes que não são aprovadas nos vestibulares. Um dos principais motivos é óbvio: não há vagas suficientes para todos os capacitados. E se não há vagas suficientes obviamente é necessária uma classificação. Classificação esta que privilegiará predominantemente o perfil "sócio-intelectual" já mencionado.
O fato de uma pessoa fazer a seleção por dois ou três anos pode parecer apenas um indicativo de que ela demorará mais para se formar, mas já define quem se forma antes, quem se insere antes no mercado de trabalho, quem poderá fazer determinados concursos públicos e quem vivenciará diferentes conjunturas políticas no exercício profissional.
Entender que grupos socialmente discriminados dificilmente pertencerão ao perfil “sócio-intelectual” pré-determinado é um raciocínio praticamente óbvio e diante da comprovada ineficiência dos sistemas de avaliação de ensino garantir que esses grupos tenham acesso a educação não é privilegiá-los, mas sim buscar alternativas de superação das desigualdades e de suprimento das deficiências excludentes do sistema educacional.
Políticas afirmativas, popularmente chamadas de cotas, não permitem que pessoas menos qualificadas ingressem na universidade. E muito menos que a "qualidade dos estudantes do curso noturno diminua" como já ouvi de uma docente. Políticas afirmativas - de forma inicial e não suficiente - permitem que de certa forma tentemos superar a primeira ferramenta de exclusão racial e econômica estabelecida nas universidades que é o vestibular.

sábado, 11 de abril de 2015

sábado, 28 de março de 2015

Achado

Às vezes quero poesias de fora
Quando as de dentro não têm palavras
Tem dias que caminho sem rumo, fazendo questão de perdê-lo e encontrá-lo nas esquinas
Certas horas esbarro comigo
Em outras me perco de mim que nem criança que solta a mão da mãe na feira

O desespero não faz mais em mim lugar de pouso
Sigo sempre e vôo tanto que não me alcança
Não se assenta em mim
Trago uma paz que também não demora, mas vem e vai, fica e parte todos os dias
Mas está aqui
Das paixões carrego saudades, mágoas e lições de nunca mais voltar
Da saúde um medo, uma descrença, uma certeza científica de que tudo é incerto e subjetivo
Da fome não tenho memórias, mas ouço vozes que ferem e me abrem os olhos pra ver

Vazio
Este poema é vazio.
E não tenho intenção de não sê-lo se nada do que sinto hoje se explica pra mim
Me ocupo de por para fora esse bolo de coisas que não compreendo
Olhá-lo, dissecá-lo, revirá-lo e jogá-lo fora se não me parecer que serve
Não é você minha preocupação, não é você meu objetivo
Hoje eu sou centro de mim e me jogo numa busca perdida para sair daqui

A cada palavra que escrevo menos entendo e mais me perco
A cada frase que acabo menos sentido me faço
E mais me jogo pra fora e mais me vejo e mais me perco
Caminho em círculos e encontro os mesmos pensamentos
Dissimulo nas horas como se não me fizessem falta e mais me perco

E mais me perco
E mais me cerco
E mais me tenho
E mais me erro
E mais me vivo
E mais me enredo
E mais me perco
E mais me perco.

domingo, 22 de março de 2015

A realidade por trás da tentativa de proibição dos sacrifícios animais nos cultos religiosos

Não me causa espanto um projeto de lei que proponha proibir o sacrifício de animais em rituais religiosos. É um desdobramento previsível em um cenário político dominado pelo conservadorismo, racismo e por tentativas de imposição religiosa.
A suposta idéia de proibir o sacrifício supondo alguma política de proteção aos animais demonstra claramente como em uma sociedade desigual, preconceituosa e punitiva o uso das leis é predominantemente feito com o intuito de reforçar essas desigualdades. Traduzindo: as leis para brancos e para a cultura dominante são de uma forma e para negros e culturas não brancas são de outra.
A primeira coisa que precisamos entender é a seguinte: em uma sociedade laica ninguém é obrigado a ter a mesma visão espiritual sobre os animais “irracionais”. Ser vegetariano é uma opção individual. Então, vamos partir do princípio básico de que TODAS as pessoas têm direito a se alimentar de carne. Visto isso vamos lembrar o que na nossa realidade significa se alimentar de carne.
Alimentar-se de carne significa comer um animal. E para comer esse animal é preciso que ele esteja morto. Até os animais irracionais carnívoros matam suas presas para comê-las. Parece óbvio, mas para as pessoas que julgam o sacrifício animal nos ritos religiosos não é. A dificuldade de entender essa simples questão de matar para comer vem da intolerância religiosa, da discriminação e do preconceito que pressupõe quais crenças devem ser consideradas corretas e aceitas ou não.
Em geral nas religiões de matriz africana acredita-se que o processo de fortalecimento do espírito passa pela alimentação de diversas fontes de energia que podem ser minerais, vegetais ou animais, de acordo com os símbolos da cultura envolvida, o que ficou popularmente conhecido como oferenda. As oferendas envolvem não só o consumo dessas fontes de energias, mas também os rituais e as crenças de quais seres precisam realizar esse consumo. Rituais e crenças que envolvem o reconhecimento dos animais como seres com propriedades divinas e que por isso merecem ritos de demonstração de respeito e permissão para seu consumo.
O intuito aqui não é promover um esclarecimento sobre a simbologia das religiões de matriz africana, mas sim de mostrar que a tentativa de proibir o sacrifício de animais em rituais religiosos não visa à proteção dos animais e sim a criminalização do culto religioso. Nunca houve a proposta de se proibir o consumo de animais, mas sim o ritual religioso através do qual ele se desenvolve. Palavras como “crueldade” e “sofrimento” são usadas com o objetivo claro de moralizar as religiões de matriz africana, de atribuir a seus ritos ares de maldade e de julgar seus valores e crenças como ruins ou errados. E todos nós sabemos muito bem que essa é uma estratégia de dominação, de imposição cultural, racismo e intolerância religiosa.
Além de desrespeitar os valores e crenças de uma cultura religiosa essa tentativa é um esforço claro de moralizar um processo de consumo que é comum a toda sociedade, pois de uma forma geral toda a sociedade se alimenta de carne animal e mata animais para isso. O que os indivíduos que propõe a proibição do culto religioso tentam nos dizer é: você pode comer carne animal, mas não pode rezar, cantar ou matar esse animal com suas próprias mãos, ou seja, não pode expressar sua fé e principalmente, não pode baratear o custo desse consumo ou deixar de pagar por ele aos grandes produtores.
Se a preocupação fosse realmente com códigos de proteção ao animal seriam aprovadas leis para regulamentar a forma absurda como animais são criados nas grandes propriedades rurais. Nesses locais animais são criados totalmente presos, sem nenhum contato com o ambiente natural, forçados a reprodução e têm sua estrutura totalmente alterada por “anabolizantes” e medicamentos. O intuito dessa manipulação toda é baratear o custo de criação desses animais e aumentar ao máximo seu rendimento para se ter o maior lucro possível com sua comercialização. Os processos que envolvem a criação de animais nas indústrias de alimentação já foram apontados por organizações de proteção aos animais como absurdos e cruéis e inclusive prejudiciais a saúde humana em alguns casos. Mas a crença envolvida nesse caso é a do lucro e essa nunca é questionada.
Entra aí outra questão que incomoda os grandes produtores, referente ao sacrifício animal que acontece nos cultos religiosos: em geral os animais utilizados para consumo são oriundos de aviários de pequeno a médio porte, regionais ou até de criações caseiras. Essa relação direta entre pequenos e médios produtores e consumidores não é interessante ao agronegócio que tem interesse de dominar o mercado. E só para reforçar, sabemos que essa dominação do mercado de alimentos define inclusive quem na nossa sociedade pode ter privilégio de comer carne.
Com esses poucos argumentos já entendemos aqui que a questão de legislar sobre o sacrifício de animais nos cultos religiosos envolve interesses de grandes empresários reforçados pelo apoio de fundamentalistas religiosos que tentam violar o princípio básico de um estado laico para aumentar seus lucros e impor suas crenças. Eles alegam equivocadamente o intuito de proteger a vida animal, para na verdade retirar o direito à liberdade religiosa e se livrar das tentativas de produção econômica “desvinculadas” das grandes cadeias produtoras de gênero alimentício. Uma iniciativa intolerante, opressora e exploradora para obter lucro e violar direitos.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Falando aqui, entre nós.

O vídeo "Não tira o batom vermelho" é ótimo e me fez pensar e tomar uma decisão importante.

Eu resolvi que não quero só compartilhar, mas aproveitar pra dizer que já vivi um relacionamento abusivo.
Já vivi um relacionamento onde era inferiorizada, constrangida, controlada e pressionada todo o tempo para não sair dele.
Eu só queria dizer para vocês que não, eu não gostava. Eu chorei muito. Me afastei de amigos, deixei de fazer coisas que eu gostava e criei dificuldades para me relacionar que refletem até hoje na minha vida pessoal.
A violência não precisa ser física pra causar estragos. Humilhar, desmerecer, ridicularizar, infantilizar: tudo isso faz mal e é o que chamamos de violência psicológica.
Hoje eu sei que não era amor. Eu achava que ele era a melhor pessoa do mundo e que eu, por todos os defeitos e incapacidades que tinha, que não conseguia ser boa o suficiente para merecer mais consideração. Eu achava que precisava ser melhor para que ele me tratasse bem e me respeitasse, eu tinha que fazer por merecer.
Eu me sentia feia, infantil, burra, sem cultura, desinteressante. Nem as bobeiras e piadas que eu amo contar (mesmo que ridículas e sem graças..) eu fazia ou contava. Eu pensava em cada palavra que ia dizer, em cada assunto que ia puxar, em cada gesto. Ser natural me deixava em pânico e durante muito tempo eu nem sabia mais como eu era de verdade. Eu só tentava ser do jeito que achava que ele ia achar certo, que ele ia gostar. E por mais que eu tentasse ele nunca achava. E eu sempre era a "pretinha" (num diminutivo sarcástico) da qual o nome muitas vezes vinha seguido ou antecipado por um deboche, ou uma repreensão. E eu aceitava porque tinha uma grande vergonha de ser eu mesma que já tinha sido plantada por uma sociedade racista e por uma adolescência marcada por bullyng e por todo o peso que o racismo tem na construção da autoestima de uma jovem negra. Pois é, para piorar as coisas se somam.
Todas as vezes que eu terminava (e foram muitas) eu recuava achando que o problema era comigo. Eu que era a infantil, maluca, descontrolada, que não ficava satisfeita com nada. O problema jamais seria não ter um relacionamento com troca, amizade e respeito.
Na relação sexual isso ficava claríssimo, eu me esforçava imensamente para satisfazer as vontades do outro enquanto quase 90% das vezes não tinha realmente prazer. E eu achava que prazer era dar prazer ao outro. Porque isso faz parte do amor: se doar e ficar feliz com a satisfação do outro. Era minha missão, mesmo que eu não quisesse. E não precisava de força para me obrigar a cumpri-la, porque a pressão psicológica já era forte o suficiente. Se eu já não fazia nada certo não podia deixar de fazer uma das poucas coisas que ele aprovava, e fazer muito bem.

Foram alguns anos entre idas e vindas. E até hoje ainda me pego pensando que eu sou maluca quando exponho para algum parceiro alguma coisa que me incomoda ou não me faz bem. Sempre por pelo menos um momento acho que tô fazendo a coisa errada ao ser sincera nos meus relacionamentos e que isso vai ser pior e vai estragar tudo. Sempre acho que se for eu mesma, de verdade mesmo, eu vou perder.

Violência psicológica deixa marcas, às vezes mais profundas que a física. E superar é um processo. E eu tô contando aqui porque já passei por muitas fases: de negar, de enxergar, de não saber o que fazer, de querer superar mas não ter coragem, de entender, de resolver enfrentar, de assumir... E agora de compartilhar, porque eu não preciso ter vergonha de um problema que não era meu.

Antes eu achava que era maluca. Hoje eu tenho certeza. Porque numa sociedade racista, machista e cheia de padrões de comportamento (e de sofrimento) se arriscar a se respeitar, tentar ser feliz e se amar do jeito que se é não é lá coisa de gente "normal".

Continuo daqui naquela velha história de preferir ser uma metamorfose ambulante. Lembrando com respeito dos tempos de lagarta pra curtir ainda mais a vida de borboleta.

Agradeço a quem leu. :3

Sem mais por hoje e muito, mas muito mais leve. :3
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Link do vídeo "Não tira o batom vermelho" :
https://www.youtube.com/watch?v=I-3ocjJTPHg

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Do carnaval que ainda não acabou...

Eu não ia me pronunciar sobre a questão da Beija-Flor, mas como ainda está rendendo, eu não vou conseguir.
Serei o mais sucinta e direta possível, juro que não quero desenvolver o tema.

Muito me preocupa quando pessoas compartilham um texto onde há a afirmação de uma suposta vergonha para os cariocas pelo título da Beija-Flor.
Para começar: o povo carioca, as pessoas do samba e a comunidade de Nilópolis não são culpadas da exploração e da ditadura em Guiné-Bissau e insinuar que por torcerem por um escola de samba elas são coniventes pra mim é no mínimo culpabilizar uma população que também é excluída e explorada. Pessoas oprimidas, excluídas e exploradas não podem se envergonhar/responsabilizar por uma opressão que também sofrem, em escalas diferentes dependendo de que cariocas estamos falando, mas sofrem.

Outra coisa, não vamos cair numa falácia de "eu sou charlie" de novo. Vocês acham que todos os anos o dinheiro do mega evento que se tornou o carnaval carioca vem de onde? Das feijoadas? Por favor.
Sempre foi sabido - eu acho né - que o dinheiro envolvido no carnaval tem ligação com lavagem de dinheiro, desvio de verba, jogo do bicho e outras práticas, morte.. Morte sim meu caros, indiretamente, ou diretamente mesmo. E isso não é culpa das comunidades das escolas e sim de um processo de apropriação da manifestação cultural que é o carnaval pelo capital e pela classe dominante: se apropria, explora, desconfigura, exclui.

Entendam, eu nunca direi que não tem problema a Beija-Flor ter recebido dinheiro de um ditador e nem nego tudo que isso representa. Acho um absurdo sim. Agora acho equívoco culpabilizarmos o povo carioca por isso, porque essa é uma estratégia antiga de moralizar sistemas de exploração ao invés de apontar e problematizar suas raízes.
E o apoio que escolas recebem da prefeitura/estado/governo federal? Sabia que tem gente que morre de fome aqui também? E aí não te incomoda também não? E o dinheiro que certa emissora de TV dá pra determinada escola? Essa daí também apoiou a ditadura e a grana não é das mais limpas.. E as grandes empresas que patrocinam? Vocês acham que nesse dinheiro não tem exploração e morte? E só pra constar: e o dinheiro do governo que financia inclusive o SEU CARNAVAL de rua? Você não acha que salvaria milhares de vidas de pessoas que estão morrendo de fome no seu país?
Repito, eu nunca vou apoiar ou dizer que não importa de onde vem o dinheiro da Beija-Flor. Só acho que problematizar isso tem que ser feito de uma forma contextualizada, imparcial e principalmente sem que haja moralização ou culpabilização de uma cultura de origem pobre e negra que foi apropriada e distorcida. Trazer esse questionamento à tona é importante, sim, muito. Mas me desculpa ficar dizendo "é dinheiro de ditador" porque não se identifica com a escola não soma em nada. E se fosse a Portela, ou a Mangueira? Será que teria a mesma repercussão? Eu sinceramente não tenho certeza.

As escolas de samba são cultura do povo, cultura de pobre, cultura de preto. E há muito anos vêm se falando que isso não existe mais e que viraram espaço das elites. Nos camarotes pode até ser. Nos carros alegóricos pode até ser. Nas roupas caríssimas de destaque de chão também pode ser. Mas nas quadras não é. Na rua não é. Na Av. Presidente Vargas em dia de desfile não é. Nos barracões, nas máquinas de costura, na ferragem e no adereço não é. Ainda somos maioria, aliás, somos maioria em tudo nesse país. Então não vamos simplesmente deixar que nos tornem cada vez mais alheios a nossa cultura e ao que nós mesmos produzimos. Vamos ocupar cada vez mais e de todas as formas possíveis esses espaços, porque isso também é uma forma de resistência e luta. Vamos ficar atentos aos enredos, ao financiamento, isso também é controle social.
Luta tem em tudo que é canto. Para quem está atento até mesa de biriba pode ser cenário de opressão. E lutar não é dizer "isso não presta, tá errado, aiaiai que feio, sai daqui"... Mas isso já é desenrolo pra outro texto e eu disse que não ia me estender....

"e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval"
(O dia em que o morro descer e não for carnaval - Wilson das Neves

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Branca de Neve Negra: mais uma estratégia do mito da democracia racial?

A repercussão da atuação de Cacau Protásio como Branca de Neve no desfile da Escola de Samba União da Ilha traz à tona uma importante reflexão.
Num contexto onde o racismo e os padrões de beleza destroem a autoestima de meninas e mulheres negras a escolha da atriz para representar uma princesa de contos de fadas parece uma genuína ferramenta de luta contra a opressão.
Mas é importante não cair no erro de pensar que representatividade é apenas se inserir na cultura da classe dominante. Ocupar espaços é sempre importante e preciso, porém pensar em suas conseqüências é fundamental.
A personagem Branca de Neve vive sua história em uma determinada região do mundo, retratando um povo e todo povo tem e sempre terá características físicas. O fato de ser branca por si só não torna a personagem racista. O racismo se desenvolve, por exemplo, através do consumo massificado das culturas brancas de origem européia e norte-americana que se tornam referências e padrão para a sociedade ao serem consideradas melhores que as demais.
Simplesmente colocar atrizes negras ou bonecas negras no lugar de pessoas brancas para representar personagens, originalmente brancos, pode ser perigoso ao contribuir com o processo de deslocamento de identidade cultural que já é conhecido entre as estratégias de dominação e exploração dos povos. Tornar a cor da pele um mero “detalhe” é uma das bases da construção do mito da democracia racial.
Não se trata de incentivar uma segregação entre as culturas e povos, mas sim de garantir que a identidade e cultura negra não sejam apagadas através de uma pseudo representação do povo negro em histórias que não são originárias de suas tradições.
Não precisamos nos inserir nas histórias e nas culturas hegemônicas para buscar aceitação. Precisamos valorizar a história e a cultura africana e afro-brasileira, nos sentirmos representados nelas, lutar por espaço, respeito e reconhecimento para elas.
Obviamente, enquanto não há igualdade e respeito entre as raças/etnias, esse tipo de representação é sim importante, principalmente para a autoestima das nossas crianças. Mas é preciso não perder o foco da luta por uma realidade onde todos os povos e culturas tenham suas histórias valorizadas e preservadas. Onde todas as culturas tenham seus direitos garantidos e desfrutemos de igualdade para poder escolher como vamos nos representar e com quem vamos nos identificar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Passistas femininas: resistência e autoestima da mulher negra

Tenho pensado muito sobre o significado de ser passista. Por algum motivo extraordinário as pessoas ficam extremamente surpresas quando descobrem que sou passista de escola de samba. Mas apenas as pessoas que me conhecem nos espaços acadêmicos, de trabalho ou de militância, ou seja, as pessoas que me vêem expressar minhas opiniões e posicionamentos políticos. Para essas pessoas, por mais que elas não digam, ser passista contraria todos esses posicionamentos. Para essas pessoas ser passista é muito pouco ou é inapropriado para quem “tem consciência”.

Ser passista no pensamento dessas pessoas é corresponder a um estereótipo sexualizado da mulher negra, é incentivar o pensamento sexual dos turistas estrangeiros, é se exibir e se vender. E isso é um grande e grave equívoco.
As passistas surgem dentro da cultura das escolas de samba como o reconhecimento das mulheres da comunidade que melhor representam a dança do samba. Essas mulheres têm basicamente a função de defender o pavilhão de sua escola e conquistar a simpatia e admiração do público. Representar o pavilhão de uma escola significa representar toda uma comunidade, uma região e o trabalho de muitas, mas muitas pessoas. E fazemos isso através da nossa dança e dos nossos corpos. É preciso lembrar que no Brasil as concepções que temos de corpo e vestuário são embasadas por valores predominantemente europeus. Ou seja, nossos hábitos e costumes foram sim resultado de “mistura” da cultura de negros, indígenas e brancos, mas foram os valores brancos que moralizaram essa construção, por uma questão óbvia de dominação. Então, se hoje, mesmo em um calor de 40° usamos calça comprida e blusa de manga para estarmos “sociais” é pela moralidade européia que nos é imposta. Se hoje temos danças como o balé consideradas como clássicas e o funk e seus movimentos discriminados, agradeçamos a essa moralidade que hierarquiza como clássico e culto o que vem da cultura branca e como inapropriado e inferior o que vem da cultura negra.
A criminalização e a inferiorização da cultura negra sempre estiveram presentes: o próprio samba que hoje é exaltado, já foi marginalizado e criminalizado. A questão é que a resistência das manifestações culturais populares faz com a classe dominante, vendo que não pode destruí-las, passe a querer se apropriar delas. E isso aconteceu com o samba e com seus símbolos. E quando há essa apropriação outra estratégia também usada é o esvaziamento dos significados dos elementos das culturas. Ou seja, tenta-se distorcer as reais representações que aqueles elementos têm para aquela comunidade, buscando dessa forma tirar seu potencial revolucionário.
As passistas de escola de samba têm um potencial revolucionário: contra o racismo e contra o machismo também. Ser passista é o ponto alto na autoestima de muitas meninas e mulheres negras, muitas vezes o único. É o momento em que nós mulheres negras assumimos nosso posto (de direito) de referência e orgulho para nossa comunidade. É o momento em que nossas meninas mais novas nos olham e se espelham para construir sua feminilidade. É o momento em que nossos homens reconhecem a nossa beleza. Ser passista é um espaço de resistência da mulher negra.
Entendo e concordo quando Lélia Gonzalez diz que os desfiles das escolas de samba são um momento de atualização do mito da democracia racial, pois viramos princesas durante quatro dias e depois voltamos ao estereótipo de doméstica. Eles funcionariam como uma válvula de escape das tensões sociais. Mas sabemos que não fomos nós negras/os, nossos hábitos e tradições que criaram esse mito. O racismo através do mito da democracia racial se apropria de determinados aspectos culturais para dizer que há uma igualdade. Além disso, o que é preciso entender também é que não se é passista durante quatro dias e nem de dezembro a fevereiro. Quem é passista, é passista 365 dias do ano. Ser passista não é uma simples atividade que se desenvolve, é uma realidade de vida. O corpo, a mente e os sentimentos de uma passista são peculiares de uma passista. A dedicação, os relacionamentos, o trabalho, o estudo, tudo da nossa vida em algum momento e de alguma forma está ligado a essa arte que carregamos. E é orgulho dessa arte que muitas vezes nos sustenta e fortalece para enfrentarmos as violências de uma sociedade desigual. É o orgulho dessa arte que faz com que por mais que tentem fazer com que olhemos para o chão e que sejamos subalternos, continuemos olhando para cima, enfrentando preconceitos e cultivando a nossa realeza interior.
É muito difícil uma passista viver de seu samba financeiramente. Mas mesmo que em escala pequena ser passista promove mudanças nas vidas das meninas e mulheres negras. Uma simples apresentação pode fazer com que uma menina negra de comunidade circule por novos espaços da cidade e sabemos que vencer essas limitações que a precariedade de transporte e de segurança nos impõem é um passo muitíssimo importante. Pertencer a um grupo também promove grandes mudanças, visto que comprovadamente na adolescência mulheres negras sofrem muito com a dificuldade de inserção e aceitação nos grupos sociais e têm mais problemas de autoestima. Participar de um ambiente seguro, coletivo e de troca de saberes numa experiência prazerosa é também uma oportunidade diferenciada para jovens e mulheres negras que, sabemos bem, em geral não tem acesso à grande maioria das atividades culturais da cidade. Ou seja, ser passista traz oportunidades e vivências fortalecedoras para a mulher negra.
Sobre a sensualidade, bom, precisamos entender que uma das características dessa sociedade patriarcal é punir e julgar as mulheres que dispõem de seus corpos e de suas belezas como querem. O uso da sensualidade é condenado, a liberdade de expressá-la é punida violentamente. O pensamento moralista/cristão que permeia as bases do imaginário social demoniza a sensualidade e sexualidade. As mulheres negras foram sexualizadas, seus corpos animalizados, suas posturas e características gestuais ridicularizadas. Mas esse é um processo externo a nós e também é parte daquela história lá de cima de se apropriar de determinada cultura e esvaziar seus símbolos. Nesse ponto uma estratégia importantíssima de resistência é não pensar nossos corpos, nossa sensualidade e nossa sexualidade a partir dos princípios moralistas eurocêntricos. Criminalizadas e demonizadas, principalmente pela fé cristã, a beleza, a sensualidade e a sexualidade nessa sociedade patriarcal só deveriam ser usadas para a satisfação dos homens ou no processo de construção das instituições sociais aceitas (casamento, geração de filhos). Porém usar a beleza e a sensualidade sempre foi nos ensinado através do Itans da Yabás como uma estratégia memorável e eficiente de luta, além de serem características respeitadas, consideradas bênçãos fundamentais para a construção e o equilíbrio do mundo.
Repito: ser passista é um ato de resistência da mulher negra. É uma forma de nos mantermos nos espaços da nossa cultura e de nos apropriarmos das oportunidades que hoje eles oferecem. É uma forma de lutarmos para que o real significado de ser passista não se perca. É uma forma de irmos contra tudo e todos que dizem que não temos direito sobre nosso corpo, que nossa arte não é clássica e que nossa cultura não é apropriada. É uma forma de pensar nas nossas meninas pretas e seus olhares de admiração e nas nossas pretas mais velhas e seus olhares de saudade e realização.
Peço sinceramente e de coração que nunca desistamos de passar a nossa mensagem, da forma como NÓS sentimos, como NÓS aprendemos, como NÓS vivemos. Da forma como NÓS herdamos. Por mais que TVs e jornais interpretem e desconstruam. Por mais que estrangeiros “confundam”, por mais que nossos próprios homens reprovem. Peço que mantenhamos o nosso orgulho de sermos mulheres negras, representando a cultura negra, levando a bandeira de negros e pobres.
O mito da democracia racial faz com que, para a sociedade, tenhamos “quatro dias” como rainhas. E não precisamos abrir mão deles. O que precisamos é enfiar goela abaixo da sociedade nossas coroas e mantos nos outros 361 dias do ano, sem nenhum passo atrás.

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O outro lado do que Seu Jorge disse

Sinceramente, acho que precisamos pensar que o Seu Jorge falou o que grande parte das pessoas pensa. Não adianta NADA ficar só valorizando o sentimento de pertencimento à favela, glamurizando a pobreza, se ela hoje ainda cumpre o papel de segregação.

A organização da favela como instrumento para o fortalecimento de identidade cultural e empoderamento é muito importante, claro. Esse espaço como meio de fomento a memória do povo preto e a resistência é fundamental.

Mas o que nós, estudiosos e militantes (infelizmente me incluo), não podemos ignorar é que as pessoas que são oprimidas e violentadas nesses espaços têm sim a vontade de sair dele. E como seres humanos têm o direito de ter essa vontade. Ninguém tem que gostar de ser saco de pancada. Ninguém tem que viver sendo humilhado, ameaçado, passando dificuldade, tendo problemas com saneamento e ignorar tudo isso pensando no bem maior. Para a gente que está em faculdade, que está em coletivo, em movimento social, que anda para lá e para cá com roupinha estampada e falando difícil é fácil querer que as pessoas continuem na favela felizes, para gente poder ter sobre o que escrever e falar. E me desculpem pro capital também. Mas resistência e luta por direito é entender que as pessoas têm direito a resistir e lutar com seus direitos respeitados, com seu direito à vida garantido.

Eu não apoio as declarações do Seu Jorge. Mas acho ingenuidade se virar contra um cara preto como se só por ter dinheiro (agora) o discurso dele não fosse produto dessa sociedade racista que se apropria da gente contra a gente mesmo. Nós falamos tanto de racismo, de embranquecimento, de construção do imaginário social, do mito do racismo reverso, mas parece que achamos que nós negros temos uma proteção natural contra tudo isso. Nós negros, mesmo marginalizados, perseguidos e criminalizados fazemos parte dessa sociedade e consumimos e reproduzimos os pensamentos dela sim. E lembrar que nós, pelas violências que nos são impostas não temos acesso a informação e a certos espaços é fundamental.

Me preocupa muito um segurança negro que acha que o jovem negro é bandido só de olhar, mas me preocupa muitíssimo também a pessoa negra que quer julgar esse segurança como um “traidor”, como quem renega a raça, ignorando que o fato que o leva a fazer isso é uma construção racista da sociedade e é uma violência que ele faz com ele mesmo.

Repito e reforço: não sou a favor das declarações do Seu Jorge. Mas também não sou a favor de programas de TV que dizem que a favela é feliz e que todo mundo deve amar viver lá e continuar lá como se nada estivesse acontecendo, maquiando toda a estratégia de exploração que isso ainda alimenta.

Só acho que a gente pode sim criticar a fala do Seu Jorge, contextualizando isso dentro da realidade do racismo, do machismo, da organização geográfica (segregacionista e racista) e da luta de classes (pra quem gosta, por que não?). Mas dizer “quem não ajuda que não atrapalhe” é, em primeiro lugar, prepotência de achar que pode lutar sozinho com suas verdades e estratégias. E em segundo lugar fingir que não sabe que o buraco é muito, mas muito mais embaixo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

21 de janeiro - Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa

Ontem, dia 21 de janeiro foi o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa e eu não escrevi nada porque além de muito trabalho estava pensando no que dizer. Não acho que seja suficiente pedir respeito, porque todo mundo diz que respeita. Não acho que seja suficiente dizer as atrocidades que a intolerância religiosa comete, porque as pessoas choram por causa de traficante internacional e chargista racista e intolerante, mas ignoram três crianças pretas mortas em uma semana.

Mas vou tentar falar um pouco, daquele jeito que a gente já se entende..

O povo negro foi trazido escravizado da África, certo? Nesse contexto de diáspora e de todas as atrocidades envolvidas, sofremos a imposição de uma nova cultura. Isso todo mundo sabe né? Ou seja, ninguém misturou nada porque quis. Então o sincretismo religioso não é algo interessante que resulta da convivência de povos. É resultado de violência, de assassinato, de massacre e de dominação. Óbvio que foi absorvido culturalmente ao longo de séculos, mas precisamos entender que isso não é e nunca foi algo bom e desejado. Não desrespeito as crenças que advém dessas relações, acredito que a espiritualidade se dá de diversas formas e se adapta sim culturalmente, mas politicamente, a nível de identidade, sincretismo religioso é nada mais que uma estratégia racista de embranqueamento.

Segundo, precisamos entender que seu eu colocar uma cinta-liga azul-clara, asinhas e sair por aí dizendo que sou a virgem Maria no carnaval serei fortemente reprimida, posso ser agredida e até mesmo acionada legalmente (não sei bem pelo quê, mas a igreja católica dará um jeito nisso). Mas quando pessoas ridicularizam o Candomblé nada lhes acontece. Precisamos entender que o que vira piada e o que é passível de comédia é sempre o lado oprimido, vide os exemplos franceses dos últimos tempos.

Ultimamente venho observando um processo de "popularização" das religiões de matriz africana. Amplia-se a literatura, aborda-se nas artes em geral e até filmes no cinema estão previstos para esse ano. Mas não acho que esse processo esteja acontecendo de uma forma positiva. Primeiro porque antes de tudo faz-se questão de se esquecer a origem étnica dessa cultura, ou seja: de todas as formas busca-se eliminar a ligação do candomblé com o povo negro e isso acontece muitas vezes através de discurso rasos sobre a própria espiritualidade infiltrados dentro da própria religião. Quando falamos da cultura negra uma das estratégias mais comuns do racismo no Brasil é apropriar-se dos símbolos que não consegue silenciar utilizando ferramentas para desligá-los da identidade do povo preto. Dessa forma a classe dominante tira das manifestações culturais seu potencial de resistência e fortalecimento de identidade. Outro motivo pelo qual não sou a favor dessa popularização forçada é que seus representantes não veêm nenhum problema em sacrificar a história da religião para que seus produtos sejam consumidos. E isso não é conquistas de direitos, trata-se de uma desconstrução cultural, que submete tradições e as modifica para que sejam consumidas pela sociedade. E se precisamos ser modificados para nos enquadrar não estamos sendo aceitos e sim adestrados.

Quando eu, enquanto candomblecista, abian e mulher preta digo que é absurdo um vídeo com o tema a "galinha preta pintadinha" não é porque não tenho senso de humor. É porque o que está sendo ridicularizado são os meus símbolos sagrados. As pessoas estão rindo e fazendo piada da minha fé. Mas o racismo é tão sórdido e se naturaliza de uma tal forma que entre os próprios praticantes da religião suas violências não são percebidas, ou são relevadas e absorvidas. Ao longo dos tempos essa sociedade racista e patriarcal tentou impor ao Candomblé uma qualidade de subserviência e resignação que não é condizente com os ensinamentos da religião e sim com os dogmas reproduzidos nas doutrinas cristãs em geral muito utilizados nos processos de dominação.

Me desculpem, mas não temos que relevar, nem ser compreensivos. Religião não é piada, não é brincadeira. E principalmente é direito e está na constituição. Com intolerância religiosa não dá para ter meio termo, com racismo não dá para ter meio termo. Porque enquanto vocês pedem para a gente relevar pessoas são demitidas e crianças impedidas de frequentar a escola. Enquanto vocês pedem para que a gente não leve tão a sério templos são destruídos e pessoas assassinadas.

*** *** ***

Meu pai me disse uma vez, pouco antes de morrer: "Candomblé quem viu, viu. Quem não viu não vai ver mais." Eu estremeci por dentro, senti muito medo e disse que isso não ia acontecer. Meu compromisso se firmou aí.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Vamos falar de TPM

Então pessoas: TPM (tensão pré-menstrual) não é uma frescura, nem aquele período do mês em que a sua companheira fica "chata pra caraca".

TPM é algo clinicamente comprovado e explicado. E joguem no google para saber sobre essa parte porque eu não escrevo sobre biologia.Eu só queria compartilhar como mulher preta que sempre teve sérios problemas com TPM, que muito me incomoda a banalização de um quadro que é sim clínico.

Somos desde a primeira menstruação adestradas a sentir dor sem mudar nossa rotina, porque isso seria frescura. Menstruação é natural, é todo mês e por isso você não pode parar sua vida - seja nas rotinas da casa, no estudo ou no trabalho.
Nós simplesmente invisibilizamos e desmerecemos a menstruação, como fazemos com grande parte do que diz respeito às mulheres. E isso se dá de várias formas. A primeira e mais comum é inferiorizar: a menstruação é vista como algo feio, sujo, que tem que ser escondido e disfarçado, seja dizendo que se está com dor de cabeça, ou usando absorventes ninjas que prometem quase a invisibilidade. A segunda forma é tratar o tema de uma forma totalmente técnica, banalizando as particularidades físicas, psicológicas e sociais que ele envolve.

Ora meus queridXs, vocês acham que é mesmo tranquilo durante no mínimo quatro dias sangrar e ter um monte de sensaçõs diferentes que podem ser enjoo, inchaço nas pernas, no abdomen, dores de cabeça, nas pernas, sintomas de depressão, fome excessiva, ansiedade, pressão baixa, etc?
Sinto lhes decepcionar, mas não é. E não ache que a gente passa por tudo isso porque é forte ou porque o nosso corpo é preparado. Nós somos adestradas a resistir a isso tudo para poder viver dentro das regras de normalidade da sociedade. Somos coagidas a sentir dor e tocar a vida.

As mulheres modernas sofrem com a tal história do "ué, mas vocês não quiseram direitos iguais?". Isso pode ser traduzido da seguinte forma: vamos usar as suas particularidades contra vocês mas nunca vamos respeitá-las a seu favor. Ou ainda "vamos negar determinadas oportunidades a você alegando que há uma necessidade de divisão sexual do trabalho, mas nunca vamos usar essa mesma perspectiva para lhe conceder direitos". E não venha me falar que a licença maternidade já dá conta. Ela é uma conquista incr[ivel, mas só é tão "respeitada" porque serve para garantir a reprodução de mais trabalhadores, ou seja, a gente vai "parindo mão-de-obra", e eles - o pessoal do capital - querem garantir minimamente que essa mão-de-obra sobreviva, para poder trabalhar.

Saindo do mundo profissional e entrando nos relacionamentos não melhora muita coisa. Porque afinal a gente "não pode descontar nos outros". Mas os outros também não podem ver com seriedade uma questão de saúde. A sociedade não está preparada para a TPM: ou ela acha frescura, ou ela acha maluquice. Nunca me esqueço a vez que dentro do carro de um ex namorado eu, que estava na TPM, tive uma crise compulsiva de choro e o rapaz ficou tão assustado que parou o carro em um posto de gasolina e ficou do lado de fora me esperando parar, pálido. Coitado.
Mas isso acontece no universo masculino e no feminino também. Nós mulheres em geral não somos solidárias com a TPM e o período menstrual alheio, porque como eu já disse, somos adestradas a resistir e achamos que comportamentos diferentes são sinal de fraqueza. Isso não quer dizer que somos incompreensivas ou desunidas e sim que as construções sociais são fortes ao ponto de fazer com que a gente não se enxergue dentro da nossa própria realidade. Mas é claro que isso envolve também diferenças de acordo com a cor e camada social. Uma médica pode não ir trabalhar porque não se sente bem. Mas uma vendedora do Saara não tem o menor direito a passar mal se quiser pagar as contas do mês. E o colorido das bonequinhas desse exemplo a gente sabem bem como é.

E aí você me pergunta: Mas então você acha que todo mês a mulher deveria ter dispensa menstruação? ( já me perguntaram isso nestes termos...)
Olha, eu acho. Sabe por quê? Porque quem criou esse ritmo todo de vida foi essa sociedade aí: quem criou mês, carga horária, salário, folga e tudo que diz respeito a organização do trabalho foi a sociedade. Mas a sociedade não criou o aparelho reprodutor feminino. Ou seja caríssimos: nossa menstruação vem antes dessa papagaiada toda. Então o certo seria isso tudo se adaptar a gente sim! Mas eu não sou tão utópica, ainda. Por isso me conformo, por enquanto, em pedir que: por favor, não banalizem nosso período menstrual! NÃO é fácil, NÃO é frescura, NÃO é questão de autocontrole nem boa vontade. É sim uma questão de saúde. Nos deixem viver nossa menstruação da forma que for possível e melhor para nós mesmas. Se, ainda não podemos mudar leis nem contar com o apoio da maioria dos profissionais de medicina para reconhecer nossas particularidades formalmente, contar com o respeito já é de grande valia.


Não sei se fui muito clara, estou totalmente confusa aqui. Eu tenho a sensação de que tem uma bolinha de ping-pong pulando na minha cabeça e estou chorando desde que eu comecei a escrever esse texto. Além do fato de que a cólica, as pernas doloridas e o enjoo também não estão me deixando pensar direito. E também tem esse sono, porque a pressão estava 9/5 uns 40 minutos atrás.
Não, não tô usando a criatividade pra descrever isso.
Se alguém quiser comprovar pode vir me visitar, só não repara a expressão péssima, a voz rouca e por favor e obrigatoriamente : traga chocolates.

domingo, 11 de janeiro de 2015

"Deve ter um monte de piolho nessa merda de cabelo aí!"


Foi o que eu ouvi hoje, 11 de janeiro de 2015, quando subia uma rua mexendo no cabelo para arrumar os cachos ainda molhados.

Foi o que eu Monique Britto Eleotério, 24 anos, mulher, negra, militante, graduanda da UFRJ, aprovada no vestibular para duas universidade federais, artesã, dançarina, escritora, artista plástica, consultora de projetos, aprovada em dois concursos públicos, ouvi hoje.

Foi o que hoje resumiu isso tudo a absolutamente nada e simplesmente me fez chorar.

Uma indivídua gritou isso de um carro vermelho em alto e bom som no meio da rua. Ela obviamente era branca, cabelos liso com mexas loiras, presilha dourada, brincos grandes, um copo de bebida na mão e um sorriso que eu vou odiar para o resto da minha vida. Sim, vi todos os detalhes, porque além de eu ter ficado com a adrenalina de um leão diante da presa, a rua era em curva e quando comecei a xingá-la o carro reduziu a velocidade. Sim, eu respondi, xinguei, gritei, mandei ela parar o carro e voltar, mas o carro seguiu, e o sorriso dela que não foi afetado por nenhuma das minhas palavras também. Certamente se ela tivesse parado o carro eu não estaria aqui escrevendo e sim detida em alguma delegacia. Mas talvez seria melhor do que essa sensação. Do que aquela imagem de sorriso intacto indo embora sem que eu pudesse fazer nada.

Em menos de um minuto senti de novo toda a insegurança de uma vida. Lembrei dos rabos de cavalo apertados no meio da cabeça, que minha vó carinhosamente fazia e que ficavam bonitinhos. Eram a única opção de eu ficar bonitinha e impecável para a escola. Lembrei dos puxões de cabelo do primeiro relaxamento que fui fazer e da voz da cabelereira dizendo "firma a cabeça menina, força". Lembrei da minha decepção quando depois do relaxamento o cabelo secava e ainda ficava "cheio". Lembrei de quando uma parte do meu cabelo quebrou por causa da química e fiquei com uma mecha de cabelo curta bem em cima da cabeça e usava todos os dias uma faixa para disfarçar. Pelo menos podia ter faixas coloridas, uma para cada dia, todos os dias. Lembrei do casaco azul marinho com capuz que eu usava no primeiro ano do ensino médio mesmo quando estava calor porque achava que ficava mais bonita de capuz num dia de sol do que mostrando meu cabelo. Lembrei de quando fiz uma escova em casa porque não tinha dinheiro para fazer uma "escova inteligente" no salão e as meninas da turma 136 de turismo da ETEJK me humilharam falando que eu tinha feito uma escova "espertinha". Elas riram bastante. Lembrei da mulher da agência de modelos dizendo que não podia me vender porque "se pedissem uma negra eu tinha cabelo liso e claro" quando eu finalmente achava que tinha acertado no estilo, quando eu achava que aquele era o meu cabelo. Lembrei da sala de espera para entrevista técnica do concurso onde uma concorrente me perguntou se eu não tinha "medo de alguém implicar com o cabelo" e eu tive. Me lembrei também da vizinha que perguntou por que minha gengiva era preta e gritou aos quatro ventos que meu bico era ridículo. Lembrei também das meninas da escola Agras que disseram que minha mãe era minha prima, porque ela era branca e eu preta. Lembrei de quando não me deixaram dançar bata-do-feijão numa apresentação do grupo folclórico em uma igreja. Me lembrei de quando na oitava série impediram a gente de tocar atabaques numa apresentação da feira de cultura. Juro que me lembrei de tudo isso. Não nessa ordem cronólogica. E talvez tenha lembrado de mais coisa até. Mas o que eu me lembrei mesmo foi da vergonha, foi de me sentir feia e de saber que isso não ia mudar. Meu problema não era pra aparelho ou óculos como o das outras. E lembrei de como sonhava e me imagiava chegando nos lugares e todo mundo me olhando, me admirando e quem sabe até mesmo um menino apaixonado por mim. Eu pensava nisso todos os dias antes de dormir. Lembrei também que ultimamente eu não andava muito bem, voltava a brigar com o espelho e nem tirava muitas fotos.

Lembrei de tudo isso sim, nos minutos que se passaram depois, enquanto andava na rua chorando e tremendo. E ainda estou lembrando de cada sensação que eu tive em todos esses momentos.

Mas um pouco depois lembrei dos olhares das meninas pretas da escola municipal que estagiei e das do Pedro II dizendo que meu cabelo era lindo. Lembrei das tias da limpeza do shopping dizendo que eu tinha que cuidar mesmo, que isso que era cabelo bonito. Lembrei da garota do ônibus com blusa de colégio estadual que me cutucou pra falar que não podia deixar de falar que gostou do meu cabelo e que tava deixando o dela mais solto também. Lembrei da Vivi que se orgulha muito do cabelo que tem. Lembrei da mãe com a bebê e uma bonequinha preta no ponto de ônibus. Lembrei dos meninos que não me assaltaram na Rio Branco e do morador de rua que carregou na cabeça minha mala de mercadorias às 7 horas da manhã na lapa pra me ajudar. Lembrei das mulheres da marcha das mulheres negras, das irmãs do feminismo negro e das do mulherismo também porque muitas me inspiram e me motivam. Lembrei da filha que eu vou ter e do menino que pode vir.

Lembrei de um príncipe que brigou com o taxista racista, de outro príncipe que venceu a morte pra ser um rei no samba, de um que venceu a discriminação para ser um dos príncipes mais lindos, de um príncipe herói que salva meninas presas e meninos perdidos, de um príncipe que venceu por ele mesmo e deu a volta por cima. Lembrei de um também que ainda está caminhando, mas que não tem como fugir de uma das mais nobres realezas.

E então comecei a lembrar das pessoas me chamando de chata, exagerada, cismada que tudo é racismo. Das pessoas me dizendo que "é só brincadeira", que eu deveria levar mais na esportiva. Lembrei dos comunistas que acham que existem causas maiores e das feministas que acham que isso não tem nada a ver.

Parei de lembrar e senti. Senti ódio. Desejei que o carro batesse e ela morresse. E só mudei de idéia porque queria que ela tivesse tempo pra lembrar de mim antes. Eu não perdôo e nem perdoarei. Eu não vou esfriar a cabeça.

Eu choro uma noite e continuo preta por dentro. Eu volto pro trabalho legal, pra faculdade bacana, pros amigos inteligentes. Mas outras não teriam esses refúgios. E meu ódio maior foi porque eu pensei que se fosse com outra mulher podia abrir ferida na alma. Eu já tô com aquela pele de casca de machucado: quando bate dói, mas não sangra mais, não infecciona e uma hora sara. Comigo já não mata.
Lembrei agora de novo daquele sorriso. Eu nunca vou esquecer. Aliás, eu não esqueci de nenhum de vocês.


Sinceramente agradeço. Graças a vocês serei assistente social, mestre, doutura, diplomata e artista. Graças a vocês não deixarei de sambar, de compor, de escrever, de atuar, de pintar, de dar aulas. Graças a vocês eu tenho mais força do que todos vocês juntos, para mim e para as outras e os outros e xs outrxs.

Sinceramente, obrigada, vocês definitivamente criaram um monstro.

Carta para Babi (1)

Rio de Janeiro, 11 de Janeiro de 2015.


Começo justificando o porquê de Babi, já que nunca te chamei por esse apelido: sempre li que os escritores famosos usavam pseudônimos e se correspondiam assim também. Não somos ainda escritoras famosas, mas um dia nós seremos e quem sabe quem vai ler essa carta, é preciso imponência.
Descobri recentemente que existem dois tipos diferentes de pessoas: as que têm objetivos e as que têm sonhos. Não acho nenhuma melhor do que a outra, cada um sabe o que lhe convém e o que lhe faz bem. Eu posso falar pelo segundo tipo apenas.
As pessoas que têm sonhos passam grandes dificuldades na vida, pois sonho, mesmo que compartilhado se sonha sozinho. O sonho é um não-sei-o-quê que fica dentro da gente igual uma bolinha de tênis. Às vezes ele fica parado, às vezes ele fica rolando de um lado pro outro devagar, às vezes ele quica descontrolado e bate em tudo que é parte de dentro do nosso corpo. Mas a maior verdade é que mesmo que a gente finja que desistiu dele, ele não sai de lá.
Já quis ser veterinária, bombeira, bailarina, executiva, professora. Sonhei essas coisas uma vez e de vez em quando elas aparecem num imaginar distraído. Se sonhou, está sonhado, o que se pode fazer é encontrar sonhos maiores e mais completos que vão deixar os outros descansarem em um cantinho da gente, tranquilamente, sem frustração. O problema é quando queremos parar de sonhar só por parar. Aí a vaca vai pro brejo. Porque aí os sonhos não ficam tranqüilos, ficam parados contra a vontade em um canto e começam a juntar uma poeira que dá alergia na gente. E o coração começa a fingir que não sonhou aquele sonho como remédio para essa alergia. E todo mundo sabe que remédio para alergia dá sono. E a alma com sono diminui o ritmo, distrai, não vai além.
Como eu já disse pessoas que sonham passam grandes dificuldades. E as outras pessoas são a maior delas. Existem as pessoas diretas que simplesmente dizem “você não conseguir” ou “isso é bobeira”, e dessas é mais fácil se defender. Existem as pessoas transversais aquelas que supostamente entendem seus sonhos, mas que usam uma série de argumentos racionais (ou não) para te convencer de que eles “não são possíveis”, “não são pé no chão”, “não funcionam na realidade” ou “não são pra gente como você”. Por fim, existem as pessoas invertidas, que são as que aparentemente apóiam seu sonho, mas não dão nenhum apoio para que você continue com ele, pelo contrário, disfarçadamente tentam ir te empurrando na direção contrária.
Entenda querida que não acho que algum dos casos que citei esteja ligado obrigatoriamente a más intenções. Acredito até mesmo que em via de regra são fruto da distração que envolve a preocupação entre pessoas que se gostam. Porque o gostar tem desses descaminhos, dessas curvas que podiam ser retas e que a gente paga pedágio sem saber porquê. O que eu digo é que a maioria das pessoas não vai apostar no seu sonho e que nenhuma delas vai sonhar com ou por você. Sonhar é sim uma tarefa individual. Mas não afaste-se delas, não de todas, a não ser que queira. Apenas entender que seus sonhos são só seus já lhe dará mais tranqüilidade para depender menos do apoio dos outros. Digo menos, porque não depender minimamente seria um grau de evolução demorado e até meio triste na minha opinião. Depender menos do apoio significa dizer um “não vou, tenho que estudar” sem medo de perder as amizades. Significa dizer um “não posso, preciso economizar” sem medo de perder o respeito”. Significa dizer “não gosto, obrigado” sem medo de perder uma suposta oportunidade. Sonhos exigem dedicação e coragem. E isso também ninguém poderá te ajudar a conseguir.
Entenda minha flor, que só mostro essa cara individual dos sonhos para que possamos pensar no bem do coletivo. Porque se todos puderem sonhar seus sonhos individuais dos seus jeitos poderão até pensar em construir sonhos coletivos (olha que incrível!). Só não podemos nos iludir achando que podemos passar aos coletivos antes. Os sonhos coletivos são aparentemente mais fáceis: divide-se tarefas, dores, tem-se o apoio ao menos de quem está “sonhando junto”. Mas lembre-se do que eu já disse: ninguém sonha igual e o sonho está dentre da gente. Um sonho coletivo não é então um sonho, mas um conjunto de pessoas sonhando sonhos que se parecem e que se complementam. E esses sonhos para se complementar precisam estar completos, não no sentido de acabados óbvio, mas no sentido de serem peças de quebra-cabeça bem desenhadas.
Portanto e somente, venho te dizer minha cara que você pode e deve permanecer entre as pessoas que sonham e que deve descobrir sozinha todas essas coisas que eu falei. Como disse, ninguém pode fazer por você, muito menos eu. Proponho então que sonhemos nossos sonhos, não juntas, mas lado a lado. E que tenhamos muitíssimo cuidado para que o mundo não nos distraia e nos torne diretas, transversais e nem invertidas. Sonhemos intensamente, completamente, descontroladamente. Mas sempre sonhemos, sempre.

P.s.: Você nunca me disse um pseudônimo, portanto improvisei um, mas me avise se o manterá ou não que mudo nas próximas.

Atenciosamente,

Edinéia Silva.

Liberdade de expressão ou de opressão?

Desde que comecei minha militância contra o racismo, a intolerância religiosa e o machismo ouço muito sobre liberdade de expressão.
A liberdade de expressão para algumas camadas da sociedade é igual caviar: "nunca vi nem comi, eu só ouço falar". (PAGODINHO, 2002)
O que quero lembrar meus caros é que no mundo em que eu vivo trabalhadores não tem liberdade de expressão para falar com seus chefes sem risco de demissão, mulheres não tem liberdade de expressão pra responder assédio sem risco de violências, religiosos não tem liberdade de expressão pra realizar seus cultos sem risco de humilhação e agressão, negros não tem liberdade de expressão pra questionar a abordagem policial sem risco de morte.
Eu fui criada com a consciência de que certas coisas podem ser ditas em certos lugres e em certos momentos. Sabe como é, educação de pobre não é muito libertária, por uma simples questão de sobrevivência.
E ai se pra você liberdade de expressão é poder ridicularizar tudo que as outras pessoas acreditam sem receber nenhuma reação eu pergunto: se você acha que as pessoas não tem que se importar pois é apenas SUA opinião, qual diferença impor essa opinião sobre algo que não lhe diz respeito fará na sua vida? O que isso tem de fato com a sua liberdade?
Há um sério risco de você estar confundindo liberdade com opressão..
Sim porque se você se acha no direito de subjugar ou inferiorizar culturas diferentes da sua para obter privilégios (status, influência intelectual, ascensão social e poder em geral) você está tentando estabelecer relações de poder.
Me chamem de ditadora, mas eu não sou a favor dessa liberdade de expressão que serve pra humilhar e ridicularizar. Que direito alguém tem de tentar destruir os valores de mundo que outro alguém tem?
Opressão gera sofrimento e sofrimento é dor, não tem graça.
Se não for assim, porque não fazer um desenho de certos cartunistas cheio de furinhos igual a queijo em pedacinhos sendo comidos por uns caras armados rindo e dizendo "salut" no pé da Torre Eiffel?
Talvez pra quem nunca passou fome, pra quem nunca foi barrado de entrar em algum lugar, pra quem nunca foi detido pra averiguação por estar passando, pra quem nunca foi torturado por lutar por direitos básicos de vida ou pra quem nunca não pôde entrar ou sair de casa liberdade seja mesmo uma coisa meio rasa.
Talvez pra quem nunca teve vergonha do seu corpo, do seu cabelo, dos seus traços, pra quem nunca ouviu todos os amiguinhos da escola rindo de você na hora da fila, pra quem nunca foi xingado na rua por estar de branco e fios de conta, pra quem nunca náo conseguiu entender porque o mundo tentava fazer ela se sentir mal por ser quem ela era, pra quem nunca teve que ser duas vezes melhor em tudo pra justificar o merecimento de ser algo, talvez para quem não passou nada disso, uma opinião seja inofensiva.
Vamos disfarçar e fingir que não dei um toque pessoal nesse ultimo parágrafo. Só quero finalizar lembrando que opiniões fizeram povos serem dizimados e escravizados. Opiniões estupram, matam, amarram no poste, queimam corpos na calçada, tiram orgãos de crianças.
Uma pessoa é feita por suas opiniões, elas não são balõezinhos que estão fora de você flutuando e sem consequências que nem nos desenhos. Assumir a responsabilidade e gravidade do que se pensa é fundamental. Assim como aceitar que toda ação tem reação. E isso não é politicagem, é física.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

TV, juventude e relacionamentos interraciais

Venho percebendo uma nova estratégia da dramaturgia racista da TV brasileira: a representação de relacionamentos interraciais entre jovens.

Além do que já falamos sempre, como por exemplo a ausência de famílias negras nas novelas, como se negrxs se inserissem sempre individualmente nos grupos sociais ou não constituíssem núcleos familiares convencionais, percebo um crescimento de casais jovens interraciais.
Óbvio que estamos vendo um pseudo-estímulo da auto-estima da juventude negra, através da moda e da música principalmente, que são instrumentos de fácil apropriação pelo mercado, servem para construção de consenso e consequentemente auxiliam na manutenção da ordem social e do falso mito de democracia racial. Mas é preciso construir estratégias que garantam sua "neutralidade" já que esses elementos em sua essência natural têm um caráter de fortalecimento social e arrisco até a dizer revolucionário.

A juventude, de acordo com a construção social predominante que temos, representa o questionamento humano no auge de sua potência o que é um risco a qualquer tipo de dominação. Essa fase da vida contém o período de formação de caráter, absorção de informação, criação de julgamentos, amadurecimento e escolha de ponto de vistas. Isso não significa que após esse período o pensamento esteja engessado e muito menos que antes dele não haja a formação do indivíduo. A questão é que durante a juventude, de acordo com os padrões sociais vigentes, estamos no ápice do nosso processo de formação e por isso recebemos o maior número de informações e temos acesso a mais oportunidades de experiências. Ou seja, ter a juventude como público vai além de buscar um mercado consumidor: é atuar diretamente na construção do imaginário social do presente e do futuro, um investimento a curto e longo prazo. Quando se vende a jovens a idéia de que não precisam sair de suas comunidades, por exemplo, implicitamente se garante que permaneçam nesses lugares e que perpetuem a existência de uma camada da sociedade excluída e explorada nesses locais. A questão é que nesse caso a suposta valorização da auto-estima não tem como objetivo emancipar esses jovens ou contribuir para que superem as desigualdades pelas quais passam valorizando suas origens e sim fazer com que se conformem com essas desigualdades em um processo de glamurização da pobreza e da opressão.

Nesse contexto em que temos a juventude como símbolo do desenvolvimento das potencialidades humanas e do direcionamento das mesmas, podemos pensar em como os relacionamentos interraciais jovens na dramaturgia podem servir para perpetuação do racismo através de uma perspectiva de embranquecimento. Em geral esses relacionamentos quando são apresentados com o suposto objetivo de problematizar o racismo, colocam as dificuldades nos relacionamentos entre jovens brancxs e negrxs como um obstáculo a ser superado pelos negrxs através da demonstração de seu valor e merecimento. Perco a conta de quantos rapazes negros se apaixonaram por jovens brancas e tiveram que durante as tramas provar sua honestidade e ascender economicamente para poder "calar a boca" dos pais das jovens donzelas. Esse tipo de relação reforça a idéia da ascensão social dos jovens negros através do relacionamento com jovens brancas e desses relacionamentos como símbolo de valor e merecimento. No caso das jovens negras a ascensão econômica não é a principal proposta pois nesse caso além do racismo, atua o machismo que também não permite que jovens negros e jovens negras assumam o mesmo valor social. As jovens negras são então representadas como objetos de paixões incontroláveis, de beleza irrestível, numa perspectiva de encantamento, de feitiço que envolve o jovem branco e o faz assumir a dianteira na "luta" contra o preconceito. Ou seja, a jovem negra é apresentada como algo ao qual se deveria, mas não é possível resistir, um tipo de relação quase irracional, que é resultado da sexualização da mulher negra e travestido na ideia de "sorte" em conquistar um homem branco, além da meritocracia justificada nos padrões de beleza dominantes. Além dos relacionamentos interraciais reforçarem o ideal de ascensão social, há também o processo de desconstrução sócio-cultural dos jovens negrxs através da idéia de inserção destes como seres isoladxs na sociedade, que não se reconhecem e não se identificam com outrxs jovens negrxs e portanto que não se relacionam entre si. Junto a esses elementos podemos observar também a presença da instituição dos padrões de beleza, que definem claramente as características físicas dxs jovens que farão parte desses relacionamentos: quem corresponde ao padrão aceitável (com traços físicos embranquecidos) obtém relacionamentos e quem não corresponde permanece ao longo das tramas sem envolvimentos amorosos ou com tentativas amorosas cômicas e frustradas.

O intuito de observar esses elementos não é julgar a legitimidade dos sentimentos nos relacionamentos interraciais jovens e sim pensar nos processos que constroem as preferências sociais envolvidas nesses relacionamentos. Se a TV é uma das mais poderosas ferramentas na construção do imaginário social nenhum dos símbolos e representações contidos nelas são fruto do acaso ou da liberdade de mentes critivas e sensíveis. Todas as relações trazem uma simbologia que produz e reproduz os valores sociais aos quais somos submetidos. Não poderemos deixar de falar sobre os relacionamentos interraciais enquanto o racismo e o machismo continuarem sendo injetados em doses cavalares nas veias da sociedade através de todos os seus símbolos.